Lance de escada para acessar ou sair do elevador: investimento de condomínio contra problemas de mobilidade (Alexsander Ferraz/AT) Santos está diante de um desafio que envolve diretamente o futuro de seus prédios e de quem vive neles. Com 106.033 habitantes com 60 anos ou mais – um quarto da população de 418.608 pelo Censo 2022 – a Cidade precisa adaptar parte do estoque imobiliário construído décadas atrás e preparar os novos empreendimentos para moradores que vivem cada vez mais. O alerta é do arquiteto e urbanista Alessandro Lopes. Para ele, o desafio não é apenas construir novos edifícios, mas adaptar os existentes para que os moradores possam continuar vivendo nos mesmos imóveis à medida que envelhecem. O problema é mais evidente nos prédios antigos de poucos pavimentos, muitos deles sem elevador ou com equipamentos que já não atendem às necessidades atuais. Segundo Lopes, Santos possui 3.343 pequenos edifícios, em sua maioria com dois a quatro pavimentos. “Muitos desses imóveis foram comprados por pessoas que tinham 30, 40 anos. Hoje, estão com 70, 80 anos. Se tiverem qualquer dificuldade de locomoção, uma escadaria passa a ser um grande problema. Um apartamento que antes era confortável pode virar um cárcere”, afirma ele. A dificuldade também pode aparecer em emergências. Em prédios sem elevador adequado, um morador que precise ser retirada em uma maca pode ter de ser transportado por escadas, o que, segundo o arquiteto, representa uma dificuldade adicional para equipes de resgate. Para Lopes, a adaptação deve considerar cada edifício. Entre as possibilidades estão elevadores, plataformas, rampas, corrimãos, melhorias de iluminação, portas mais largas e adequações nos banheiros. Ele afirma que uma plataforma para atender quatro pavimentos pode custar entre R\$ 180 mil e R\$ 200 mil, dependendo do projeto. “Eliminar a barreira física criando uma barreira financeira significa apenas substituir um problema por outro”. Lúcia Gruver, de 76 anos, mora em edifício construído nos anos 1950: mais da metade dos moradores têm mais de 60 anos (Alexsander Ferraz/AT) Normas municipais Santos já possui legislações que estabelecem critérios de acessibilidade, mobilidade e segurança para empreendimentos habitacionais novos ou em reforma, públicos ou particulares. A Prefeitura diz que os projetos precisam atender às legislações municipal, estadual e federal, além das normas da ABNT e das exigências para obtenção do AVCB (auto de vistoria dos Bombeiros). A Cohab Santista afirma que seus projetos seguem essas determinações e contemplam, quando aplicável, rotas acessíveis, dimensões adequadas de circulação, acessos e soluções de acessibilidade. A Prefeitura acrescentou que a questão vem sendo considerada nos novos projetos habitacionais diante das mudanças no perfil da população e do aumento da expectativa de vida. Rampa no edifício: organização financeira tirou do papel a ideia de investir em acessibilidade (Alexsander Ferraz/AT) Hora de superar os degraus Um exemplo de adaptação está em andamento no Edifício Inglaterra, na Ponta da Praia. Construído na década de 1950, o prédio tem 89 apartamentos e mais da metade dos moradores acima dos 60 anos, segundo o síndico Marcelo Pavão. O edifício possui três elevadores sociais e um de serviço. O problema é que, para chegar aos elevadores sociais, é necessário vencer escadas. O equipamento de serviço também exige a passagem por alguns degraus. A solução encontrada pelo condomínio foi a construção de um elevador externo, funcionando como um transfer, que dá acesso ao primeiro andar, onde está o de serviço, que leva para os sociais, que ficam na sobreloja e de lá se consegue subir para todos os 13 andares. Com a obra praticamente concluída, o prédio está na etapa final de negociação para aquisição do equipamento. Segundo Pavão, a discussão sobre acessibilidade existe há décadas, mas ganhou andamento a partir de uma organização financeira específica para a obra. Ele afirma que o condomínio também contou com profissionais habilitados e uma comissão de obras formada por engenheiros. “Não foi porque fica mais bonito. Estamos fazendo essas alterações única e exclusivamente para conforto e acessibilidade dos condôminos”, afirma. O síndico afirma que há condôminos com bengalas, cadeirantes e mais pessoas com dificuldades de locomoção. Um morador do edifício chegou aos 100 anos e, segundo ele, a necessidade de acessibilidade sempre foi uma reivindicação. “São várias décadas de espera. É um sonho do prédio. O básico de tudo é entregar essa acessibilidade e ver as pessoas saindo de casa”, afirma Pavão. No local, muitas rampas, corrimões estão sendo colocados. A moradora Lúcia Maria de Souza Gruver, de 76 anos, conhece na prática as dificuldades. Ela afirma que as escadas dificultam a circulação e que, atualmente, muitos moradores acabam utilizando apenas o elevador de serviço justamente por ser a alternativa mais acessível. “Nem pessoa saudável usa” os elevadores sociais. Ainda não há projetos somente para idosos O diretor da construtora Engeplus, Roberto Barroso, afirma que ainda não há, em Santos, empreendimentos novos concebidos exclusivamente para idosos. Segundo ele, isso ocorre porque restringir o público-alvo pode dificultar a comercialização. A alternativa, na avaliação dele, é incorporar recursos de acessibilidade sem transformar o empreendimento em um produto exclusivo para esse público. Entre as possibilidades estão apartamentos com portas maiores, barras de apoio nos banheiros, botões de emergência, marcações táteis e elevadores que comportem uma maca. “Você deixa o apartamento preparado para o idoso, mas não estigmatiza. Isso não deixa de ser um atrativo importante”. Barroso acredita que empreendimentos voltados especificamente à população idosa devem começar a ganhar espaço nos próximos dez a 20 anos, acompanhando o avanço do envelhecimento. Segundo ele, a Engeplus já realizou reuniões com arquitetos e empresários que trabalham com modelos semelhantes em outras cidades, mas ainda considera que o mercado de Santos está em uma fase de estudos. “Vai começar a surgir, porque já existem pessoas pedindo isso”. Apartamentos de 80 m² a 90 m² são os preferidos O mercado imobiliário já começa a identificar uma demanda específica para o morador idoso. Segundo o diretor da R3 Imobiliária, Sthefano Lopes, maiores de 60 anos que chegam a Santos após a aposentadoria procuram, principalmente, apartamentos de um ou dois dormitórios, mas diferentes dos compactos buscados por jovens. Ele diz que um apartamento de um dormitório procurado por esse público costuma ter entre 50 e 60 metros quadrados. Nos imóveis de dois dormitórios, a preferência é por unidades de 80 m² a 90 m². Além do tamanho, a localização pesa na decisão. Regiões como Gonzaga, Boqueirão e Ponta da Praia são procuradas pela proximidade de comércio, farmácias, restaurantes, bancos e da praia. “O público busca regiões em que consiga ter facilidade de acesso ao comércio e facilidade de acesso à praia”. Segundo Stephano Lopes, as construtoras já consideram esse público em seus projetos, mas ainda evitam criar empreendimentos exclusivamente destinados a idosos. Ele cita como exemplo um empreendimento que será lançado com botões de emergência nos cômodos, permitindo acionar a portaria em caso de queda ou problema de saúde. Alessandro Lopes: edifício pode virar uma infraestrutura para a vida (Divulgação) Tecnologia também impõe mudanças O envelhecimento não é o único fator que exige mudanças nos edifícios. O arquiteto Alessandro Lopes chama atenção para transformações que já ocorreram nos últimos anos, como o crescimento das entregas por aplicativos e a chegada dos carros elétricos. Para as entregas, ele cita como possibilidade a instalação de pequenos monta-cargas ou lockers, permitindo que o morador receba encomendas sem depender do deslocamento do entregador pelos andares. Os veículos elétricos também exigem planejamento. Segundo o arquiteto, a instalação de carregadores precisa considerar a capacidade elétrica dos edifícios e o crescimento da demanda. “Se a gente já tem uma certeza de que as pessoas vão chegar aos 80, 90, 100 anos, por que não começar a melhorar os projetos para que essa pessoa permaneça mais tempo nesse endereço?” A proposta do arquiteto é aproveitar os edifícios existentes em vez de simplesmente substituí-los por construções maiores. Ele cita como possibilidade a criação de projetos que permitam ampliar alguns prédios, com novos pavimentos ajudando a financiar as adaptações necessárias nas estruturas antigas. “Quando eu falo dessa nova era de verticalização, é esse olhar para trás. O edifício deixa de ser apenas um produto imobiliário e passa a funcionar como uma infraestrutura para a vida”, afirma. A preocupação também está relacionada ao custo. Segundo ele, a substituição de um prédio antigo por uma torre nova pode aumentar significativamente o condomínio e dificultar a permanência de moradores idosos. Modelo japonês Alessandro Lopes cita o Japão como referência para essa lógica. O modelo adotado no país integra moradia, saúde, assistência e serviços de apoio próximos das residências, com o objetivo de permitir que idosos permaneçam em suas comunidades pelo maior tempo possível. Para ele, Santos poderia adaptar parte desse conceito à realidade local, principalmente em bairros com grande concentração de idosos, conectando moradia a farmácias, unidades de saúde, comércio, atendimento domiciliar e outros serviços. “A principal lição não é copiar um modelo japonês, mas compreender que moradia e cuidado precisam funcionar de forma integrada. Uma cidade preparada para envelhecer também precisa garantir moradia para quem cuida dela”.