O tratamento costuma envolver psicoterapia e, em alguns casos, acompanhamento psiquiátrico para controle de ansiedade (Reprodução) Roer as unhas é um gesto que parece inofensivo, mas, segundo psicólogos e psiquiatras, pode dizer muito sobre como uma pessoa administra emoções como ansiedade, tédio, frustração e até perfeccionismo. O comportamento, chamado clinicamente de onicofagia, é considerado um transtorno do comportamento repetitivo focado no corpo (BFRB), e estudos apontam que ele está mais ligado à mente do que simplesmente à falta de autocontrole. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Pesquisas publicadas na revista Journal of Behavior Therapy and Experimental Psychiatry indicam que pessoas que roem unhas não estão apenas ansiosas, mas também podem ser altamente exigentes consigo mesmas. Segundo o estudo, o ato serve como uma forma de liberar tensão acumulada ou lidar com o desconforto emocional causado pela sensação de “não estar fazendo o suficiente”. Muitos pacientes relatam que roer as unhas dá uma sensação momentânea de alívio, como se algo interno fosse descarregado. Mas logo em seguida vem a culpa ou a vergonha”, Por isso, entender a origem emocional é fundamental. Um hábito comum e muitas vezes aprendido na infância A onicofagia pode começar cedo. De acordo com a Associação Americana de Psiquiatria (APA), cerca de 30% das crianças e até 45% dos adolescentes já roeram unhas de forma recorrente. O comportamento tende a diminuir na vida adulta, mas pode persistir, especialmente em momentos de estresse. É comum que o hábito comece como uma imitação de pais ou colegas e acabe se tornando um mecanismo de enfrentamento. Algumas pessoas recorrem a ele sem perceber, especialmente em situações de tensão, concentração ou até tédio. Além dos danos psicológicos, há também consequências físicas: feridas nos dedos, infecções bacterianas, deformidades nas unhas e até problemas dentários. Segundo dermatologistas, a pele machucada ao redor das unhas pode se tornar porta de entrada para fungos e bactérias. Quando o ato vira um transtorno Roer unhas de vez em quando, especialmente em momentos de estresse, é comum. O problema surge quando o comportamento é frequente, incontrolável e causa prejuízo emocional ou físico. Nesse caso, pode ser classificado como um transtorno obsessivo-compulsivo relacionado, conforme o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5). Em geral, o hábito aparece junto de outros comportamentos repetitivos, como arrancar fios de cabelo (tricotilomania), cutucar a pele (dermatilomania) ou morder os lábios. Todos eles têm um mesmo padrão: aliviar uma tensão momentânea por meio de um estímulo físico. O cérebro aprende que aquele ato oferece alívio imediato, e isso reforça o comportamento. Mas, a longo prazo, esse ciclo alimenta a ansiedade e dificulta o controle emocional. O que a ciência diz sobre as causas? Estudos sugerem que a onicofagia pode estar relacionada a fatores genéticos, psicológicos e ambientais. Pessoas com familiares que apresentam o mesmo comportamento têm mais chances de desenvolvê-lo. Mas o gatilho emocional costuma variar: Ansiedade e estresse: o hábito serve como forma de descarga emocional. Tédio ou frustração: a pessoa busca estímulo quando não tem algo para se concentrar. Perfeccionismo: há quem roa as unhas por se sentir insatisfeito ou impaciente com a lentidão das tarefas. Autocontrole: paradoxalmente, roer unhas pode ser uma tentativa inconsciente de “retomar o controle” sobre o próprio corpo. Um estudo canadense, conduzido pela Université de Montréal, reforçou essa ideia: voluntários que se declararam “perfeccionistas” tinham quatro vezes mais chances de roer unhas do que pessoas que não se classificavam assim. Como parar de roer unhas Abandonar o hábito exige mais do que força de vontade. Psicólogos recomendam identificar gatilhos emocionais e situações específicas em que o comportamento aparece. Algumas estratégias eficazes incluem: Terapia cognitivo-comportamental (TCC): ajuda a reconhecer pensamentos e emoções que levam ao ato e substituí-los por respostas mais saudáveis. Técnicas de relaxamento: meditação, respiração consciente e exercícios de atenção plena reduzem a ansiedade. Manter as unhas curtas e cuidadas: reduz a tentação e aumenta o senso de autocuidado. Usar barreiras físicas: esmaltes com sabor amargo ou unhas postiças ajudam no controle inicial. Substituir o hábito: usar uma bola de borracha, elástico ou massinha para canalizar a tensão. Evitar julgamentos: o sentimento de culpa piora a ansiedade, o ideal é tratar o comportamento com empatia e orientação profissional. E quando buscar ajuda? Se o hábito causa dor, constrangimento social ou interfere nas atividades diárias, é hora de procurar ajuda profissional. O tratamento costuma envolver psicoterapia e, em alguns casos, acompanhamento psiquiátrico para controle de ansiedade.