Mosquito é transmissor da dengue e outras doenças (Divulgação) Pesquisadores da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), em parceria com a startup InnoVec, anunciaram a criação de um repelente com duração de até quatro meses a partir de uma única aplicação. O produto, chamado Repeltex, age liberando gradualmente o princípio ativo e criando uma barreira invisível ao redor do usuário de até seis metros. Estudos preliminares no Brasil e na Tanzânia indicaram eficácia de 74% contra o Aedes aegypti e 84% contra o Anopheles darlingi, transmissor da malária. Inicialmente desenvolvido para uso em calçados de sisal, o Repeltex agora pode ser aplicado em tecidos, cortinas, mochilas, roupas e móveis. A tecnologia de liberação contínua permite ação prolongada sem cheiro ou toxicidade aparentes. A startup prevê que o produto seja lançado no mercado ainda em 2025. Como funciona e onde foi testado O desenvolvimento começou em 2016 no Laboratório de Inovação Tecnológica e Empreendedorismo em Controle de Vetores (Lintec), vinculado ao Instituto de Ciências Biológicas da UFMG. A fórmula foi aplicada em tecidos que, impregnados, liberam o princípio ativo de maneira contínua por até quatro meses. Em campo, os testes ocorreram em Belo Horizonte (para dengue) e em Porto Velho (para malária). Segundo o professor Álvaro Eiras, coordenador do projeto, a iniciativa visa proteger o ambiente doméstico com eficácia prolongada, evitando a proliferação do mosquito e reduzindo riscos de transmissão. O que diz a Anvisa A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) registra repelentes em duas categorias: cosméticos (uso na pele) e saneantes (uso ambiental). Atualmente, os princípios ativos autorizados incluem DEET, icaridina e IR3535, com proteção que varia de 4 a 10 horas por aplicação conforme a concentração e forma de uso. Ainda não há registro específico na Anvisa para produtos com tecnologia de ação prolongada e liberação contínua como o Repeltex. A agência reforça que repelentes devem trazer o número de registro no rótulo e seguir as normas da resolução RDC 19/2013, que regula cosméticos e saneantes repelentes. Comparativo com repelentes tradicionais Repelentes tópicos aprovados no Brasil oferecem proteção limitada, exigindo reaplicações regulares: • Icaridina (20–25 %) protege por até 8 a 10 horas e é bem tolerada pela pele • DEET, dependendo da concentração, confere proteção de 2 a 9 horas, mas seu uso em crianças exige atenção (não indicado para menores de 2 anos; até 10 % em crianças entre 2 e 12 anos, máximo três aplicações por dia) • IR3535, com concentração de até 30 %, tem eficácia de cerca de 4 horas e pode ser usado em crianças acima de seis meses Em contraponto, o Repeltex foi desenvolvido para manter ação prolongada sem necessidade diária de reaplicação, cobrindo ambientes por até quatro meses com uma única aplicação. Limitações atuais e próximos passos Apesar dos resultados promissores, o Repeltex ainda não possui registro oficial na Anvisa como repelente cosmético ou saneante. Sua comercialização dependerá da aprovação regulatória, que avaliará eficácia, segurança, modo de uso e impacto ambiental. Além disso, a tecnologia ainda precisa passar por ensaios clínicos ampliados e análise toxicológica completa antes de chegar ao consumidor final. A Anvisa costuma exigir testes rigorosos para aprovar qualquer nova formulação.