Buscar um ideal de beleza nem sempre real é um fenômeno que pode gerar frustrações e distorções da autoimagem (AdobeStock) “Espelho, espelho meu, existe alguém mais belo do que eu?” A frase icônica do conto de Branca de Neve atravessou gerações e quase todo mundo já ouviu pelo menos uma vez. Mas, fora dos contos de fadas, a relação com o espelho nem sempre é tão simples. Entre filtros, curtidas e a busca constante pela “perfeição” nas redes sociais, muita gente acaba se comparando o tempo todo e tentando alcançar um ideal de beleza que nem sempre é real. Afinal, por que sentimos tanta pressão para mudar quem somos para caber nesses padrões? Cirurgias e procedimentos estéticos, além da busca pelo “corpo ideal”, aparecem cada vez mais na internet, principalmente em plataformas como TikTok e Instagram. Com tantos vídeos, fotos e transformações sendo compartilhados, a comparação acaba se tornando quase inevitável — e esse excesso de referências pode influenciar diretamente a forma como nos percebemos. Na juventude, esse impacto pode ser ainda maior. Isso porque a adolescência é uma fase de construção de identidade, em que nós podemos ficar mais vulneráveis a esse tipo de pressão. Nesse período da vida, o olhar e a aprovação das outras pessoas costumam ganhar ainda mais importância, como explica a psicóloga clínica Carolina Santos, especialista em Terapia Cognitivo-Comportamental em Saúde Mental. #Identidade&autoimagem A profissional destaca que é importante começar entendendo que identidade e autoimagem não são a mesma coisa. A identidade é mais ampla: envolve valores, experiências e a forma como a pessoa entende quem é no mundo. Já a autoimagem é uma parte dessa identidade e diz respeito à maneira como nos percebemos, especialmente em relação ao próprio corpo, à aparência e às características pessoais. Durante a juventude, isso ganha ainda mais importância, porque a identidade está em formação. “O jovem passa a prestar mais atenção em si mesmo, nas mudanças do próprio corpo e em como é percebido pelos outros. Na clínica, é muito comum observar como essa percepção de si acaba influenciando diretamente a autoestima e o sentimento de pertencimento. Nesse sentido, a autoimagem também participa da construção da identidade, pois a forma como o jovem se percebe influencia a maneira como constrói sua identidade”, explica Carolina. “Quando essa percepção fica muito baseada em comparações ou em padrões externos, a autoestima pode se fragilizar. Por outro lado, quando o jovem desenvolve uma percepção mais realista e menos dependente da aprovação dos outros, ele tende a construir uma relação mais estável consigo mesmo”, complementa. #Aimagemperfeita Às vezes, nessa construção da autoimagem, podem surgir dois tipos de preocupação com a aparência: a saudável e a excessiva. A preocupação saudável está mais ligada ao cuidado pessoal e não interfere na rotina de ninguém. Já a excessiva aparece quando a aparência começa a gerar sofrimento ou a limitar a vida da pessoa. Segundo Carolina, quando alguém deixa de fazer algo que gosta, evita situações sociais ou se sente constantemente insatisfeito com a própria aparência, é um sinal de que essa preocupação ultrapassou um limite saudável. Já nas redes sociais, a exposição constante a corpos e vidas que parecem “perfeitos” pode afetar a saúde mental, principalmente ao intensificar a comparação social. “Na prática, ao ver repetidamente imagens idealizadas, muitas pessoas passam a avaliar a própria aparência a partir desses padrões, o que pode gerar insatisfação com o próprio corpo, prejudicar a autoestima e gerar ansiedade. Com o tempo, essa pressão pode aumentar a sensação de inade-quação e levar a uma busca maior por mudanças na própria aparência”. Antes, esse padrão ideal era mais voltado para as meninas. Mas, hoje, os meninos também estão se cobrando mais. #Comoevitar? Tudo tem solução e pode ser resolvido. E claro, ninguém vai deixar de usar redes sociais ou parar a vida para que a comparação e essa busca pelo ideal desapareçam. “Em uma perspectiva inspirada na Terapia Cognitivo-Comportamental, trabalhamos muito a ideia de identificar pensamentos automáticos que surgem ao consumir conteúdos, especialmente aqueles ligados à comparação e à avaliação da própria imagem, e questionar se eles são realistas ou baseados em padrões idealizados. Na prática, isso pode incluir, reduzir a exposição a conteúdos que reforçam comparações constantes, selecionar perfis que promovam diversidade e bem-estar, estabelecer limites de tempo de uso e, principalmente, ampliar o foco para outras dimensões da vida”, resume Carolina. “É importante lembrar que o ser humano não é apenas imagem. Valorizar vínculos, propósito, espiritualidade, habilidades, relações e projetos pessoais ajuda a construir uma identidade mais ampla, na qual o corpo faz parte do todo, mas não define o valor da pessoa”, pontua a psicóloga. Por fim, ela destaca que ninguém precisa alcançar um padrão de perfeição para ter valor. “Muito do que aparece nas redes é produzido, editado e selecionado para gerar impacto, e não representa a realidade completa. O corpo faz parte da identidade, mas não é o único aspecto que define quem somos”. #VOCÊSABIA? Um estudo do University College London (UCL), divulgado em Londres, apontou que uma em cada quatro meninas analisadas apresentou sinais clinicamente relevantes de depressão. Segundo os pesquisadores, fatores como assédio online, sono insuficiente e baixa autoestima estão entre os principais motivos para o aumento desses índices — muitos deles intensificados pelo tempo excessivo nas redes sociais. A pesquisa também revelou que cerca de três quartos das garotas de 14 anos que enfrentam depressão relatam baixa autoestima, insatisfação com a própria aparência e uma rotina de sono reduzida, dormindo sete horas ou menos por noite. Cenário que mostra como a forma que os jovens se enxergam pode impactar diretamente a saúde mental.