A dificuldade em jogar fora objetos velhos vai além do "gostar de guardar coisas" (Divulgação) Guardar ingressos de cinema, roupas antigas, embalagens vazias ou objetos quebrados pode parecer inofensivo. No entanto, quando o ato de manter coisas sem utilidade se torna frequente ou incontrolável, ele pode esconder mecanismos emocionais mais profundos do que o simples "apego". Segundo a psicologia comportamental e estudos sobre saúde mental, a dificuldade de se desfazer de certos itens pode estar associada a memórias afetivas, ansiedade, medo da perda, traços de personalidade ansiosa e até transtornos compulsivos. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! A questão é comum e muitas vezes passa despercebida dentro de casa — mas pode interferir diretamente na qualidade de vida e até nas relações pessoais. Acúmulo emocional: quando objetos viram memórias Muitas pessoas que guardam objetos velhos — como celulares quebrados, roupas de décadas passadas ou utensílios sem uso — fazem isso com a justificativa de que aquele item tem um valor sentimental. De fato, segundo a American Psychological Association (APA), o cérebro humano associa objetos a momentos marcantes, criando uma espécie de cápsula afetiva. O problema aparece quando a pessoa atribui valor emocional excessivo a praticamente tudo, sentindo culpa ou desconforto ao se desfazer de algo. Isso pode estar ligado à busca por segurança, medo de esquecer o passado ou até sensação de perda de identidade. Transtorno ou hábito? Onde está o limite De acordo com o National Institute of Mental Health (NIMH), quando o acúmulo se torna extremo e afeta a rotina, o espaço físico ou a vida social, ele pode estar relacionado ao Transtorno de Acumulação Compulsiva (TAC), um quadro reconhecido pela psiquiatria. Entre os sinais, estão: Dificuldade crônica de se desfazer de objetos, mesmo sem utilidade; Sensação de ansiedade intensa ao pensar em descartar algo; Ambientes da casa com espaços inutilizados por excesso de coisas; Comprometimento da higiene e segurança do lar. Mas nem todo comportamento de guardar objetos é patológico. Em muitos casos, é apenas um reflexo da dificuldade de lidar com mudanças, uma tendência a procrastinar decisões emocionais ou mesmo um padrão aprendido na infância. Cultura, geração e contexto também influenciam A forma como as pessoas lidam com o descarte de objetos também varia conforme a geração. Muitas pessoas mais velhas, por exemplo, cresceram em contextos de escassez, como durante ou após crises econômicas, e foram ensinadas a “guardar porque pode precisar”. Já as gerações mais novas, impactadas pelo consumo digital e descartável, tendem a se desfazer das coisas com mais facilidade — embora também acumulem, em outro formato, como arquivos digitais, prints e registros virtuais. Os impactos na saúde mental e no cotidiano Segundo estudo publicado na revista científica Psychiatry Research, o acúmulo desorganizado pode aumentar o nível de estresse, ansiedade e sobrecarga mental. Ambientes visualmente poluídos dificultam a concentração, o descanso e a produtividade. Além disso, guardar excessivamente pode gerar conflitos familiares, sensação de sufocamento dentro de casa e dificuldades para realizar tarefas simples do dia a dia, como limpar ou reorganizar um ambiente. Como lidar com o hábito de guardar tudo? A psicologia comportamental propõe algumas estratégias para quem sente dificuldade de desapegar: Praticar o desapego gradual, começando por itens neutros; Usar a regra “se não usei nos últimos 12 meses, posso doar”; Fotografar o objeto antes de doá-lo, para manter a memória sem ocupar espaço; Buscar ajuda terapêutica, caso o desconforto com o descarte seja frequente ou paralise decisões simples. Além disso, atividades como mindfulness, journaling (escrever sobre o que sente) e reorganização por categorias ajudam a desenvolver uma relação mais saudável com os objetos e com o espaço doméstico.