<p data-end="384" data-start="16">Está em análise pela Casa Civil da Presidência da República um projeto, elaborado pelo Ministério dos Transportes, que prevê a suspensão da obrigatoriedade dos candidatos frequentarem um Centro de Formação de Condutores (CFC), conhecidos como autoescolas, para obter a Carteira Nacional de Habilitação (CNH) nas categorias A (motocicletas) e B (veículos de passeio).</p> <p data-end="694" data-start="386">A ideia é encabeçada pelo ministro dos Transportes, Renan Filho. Tem como objetivo baratear e desburocratizar a obtenção da CNH, reduzindo o custo para emissão do documento, que hoje ultrapassa os R\$ 3 mil, em até 80%. Se aprovado, o projeto será regulamentado pelo Conselho Nacional de Trânsito (Contran).</p> <p data-end="945" data-start="696"><strong data-end="719" data-start="696">Principais mudanças</strong><br data-end="722" data-start="719" /> De acordo com o projeto, as aulas práticas, que hoje têm exigência mínima de 20 horas-aula, passarão a ser opcionais e sem obrigatoriedade de carga horária mínima, cabendo ao próprio candidato escolher quantas aulas fará.</p> <p data-end="1096" data-start="947">Elas poderão ser ministradas nas autoescolas ou por instrutores autônomos credenciados aos Detrans e na Secretaria Nacional de Trânsito (Senatran).</p> <p data-end="1362" data-start="1098">De acordo com Adrualdo Catão, secretário nacional de Trânsito, as aulas teóricas poderão ser feitas em autoescolas, em escolas de educação a distância (EAD) ou pelas plataformas digitais do Governo Federal, por meio do aplicativo da Carteira Digital de Trânsito.</p> <p data-end="1811" data-start="1364">“É importante reforçar que as provas, tanto teórica como prática, continuarão sendo obrigatórias, assim como a exigência de aprovação. Não há nenhuma evidência de que o mínimo de horas-aula exigida atualmente melhore o nível da formação ou diminua a mortalidade no trânsito. É preciso tornar mais acessível esse processo, para que as cerca de 20 milhões de pessoas que hoje dirigem sem habilitação no Brasil possam se regularizar”, afirma Catão.</p> <p data-end="2190" data-start="1813">Paulo Guimarães, CEO do Observatório Nacional de Segurança Viária, vê a proposta com preocupação. “Embora seu detalhamento ainda não tenha sido apresentado, a forma como foi colocada gera inquietações, sobretudo no que se refere ao alinhamento com o Plano Nacional de Redução de Mortes e Lesões no Trânsito e com os princípios da proposta de uma nova formação de condutores”.</p> <p data-end="2559" data-start="2192">Segundo ele, essa ideia foi amplamente discutida entre a sociedade e a comunidade técnica entre 2013 e 2018, mas não prosperou em função de lobbies mercadológicos e pressões políticas. Ela já prevê a requalificação da formação de condutores, valorizando competências socioemocionais, percepção de risco e a compreensão do trânsito como espaço de convivência social.</p> <p data-end="2732" data-start="2561">A retirada da exigência de formação estruturada, de acordo com Guimarães, contraria diretamente essa diretriz, pois ignora a função educativa do processo de habilitação.</p> <p data-end="3031" data-start="2734">“Não se trata de resistir à mudança, mas de garantir que ela não venha acompanhada de retrocessos. O trânsito brasileiro ainda mata mais de 35 mil pessoas por ano. A prioridade deve ser sempre salvar vidas e a formação de condutores é uma das ferramentas mais eficazes nesse propósito”, declara.</p> <p data-end="3321" data-start="3033"><strong data-end="3054" data-start="3033">Aprender a passar</strong><br data-end="3057" data-start="3054" /> De acordo com Cecília Bellina, psicóloga especializada em ajudar pessoas a enfrentar o medo de dirigir, o processo atual de formação no Brasil já é ruim. “Ele é feito para que as pessoas aprendam a passar e obter a CNH, mas não para que aprendam a dirigir”, diz.</p> <p data-end="3629" data-start="3323">Para ela, eliminar as aulas na autoescola e substituir por familiares pode até piorar a situação. “O que seria muito positivo é a inclusão da disciplina de educação no trânsito na grade curricular do ensino infantil até os 18 anos, o que está previsto na legislação, mas nunca foi implementado pelo MEC”.</p> <p data-end="4017" data-start="3631">Em nota, a Associação Nacional dos Detrans (AND) afirma que acompanha de perto as discussões. “Nosso principal foco nas tratativas é a valorização da educação para o trânsito. Em um País que ainda registra altos índices de condutores não habilitados, é fundamental que qualquer mudança preserve e reforce a qualidade da formação dos motoristas”, diz Givaldo Vieira, presidente da AND.</p>