(Pixabay) Quando a internet cai por qualquer motivo, o desespero bate na mente de todos. A dependência com relação a várias atividades - para não dizer todas - é total. Calcule, então, se o mundo ficasse sem internet. É o exercício de imaginação que foi feito pela Reportagem hoje e que reforça a importância dela na rotina do planeta, além da necessidade de se buscar alternativas. “Se o mundo ficasse sem internet, os impactos seriam catastróficos para a economia, infraestrutura, comunicações e segurança global. A perda da internet representaria um retrocesso significativo, interrompendo serviços essenciais”, sintetiza o engenheiro e professor da Unisanta no curso de Sistemas de Informação e Análise e Desenvolvimento de Sistemas, Luis Fernando Bueno Mauá. Setores afetados A economia global, altamente dependente da digitalização, sofreria um colapso imediato, afetando o sistema financeiro, o comércio eletrônico e a produtividade industrial. “Bancos, bolsas de valores e sistemas de pagamento digital deixariam de funcionar, resultando em uma crise financeira sem precedentes. O comércio eletrônico seria interrompido, comprometendo empresas como Amazon e Alibaba, enquanto indústrias que utilizam Internet das Coisas (IoT) e inteligência artificial perderiam eficiência, podendo até falhar”, detalha. A infraestrutura também seria severamente afetada, com redes elétricas comprometidas, pois muitas usinas e redes de distribuição dependem da internet para monitoramento e controle remoto. “O transporte aéreo e marítimo enfrentaria caos devido à falha nos sistemas de controle de tráfego e GPS, aumentando o risco de acidentes. Serviços essenciais, como hospitais, ficariam sem acesso a prontuários eletrônicos e sistemas interligados, dificultando atendimentos de emergência e a realização de procedimentos avançados”, explica Mauá. Na comunicação, a interrupção das telecomunicações causaria um apagão informacional, tornando impossível o uso de aplicativos de mensagens, redes sociais e e-mails. “A população poderia enfrentar um cenário de desinformação e pânico, pois a disseminação de informações dependeria apenas de meios tradicionais, como rádio e televisão. A educação e a pesquisa também seriam impactadas, já que o acesso a bancos de dados científicos, plataformas de ensino on-line e ferramentas de colaboração acadêmica seria perdido, prejudicando a aprendizagem e a inovação global”, projeta. No setor de segurança, a ausência da internet deixaria governos e empresas vulneráveis a ataques físicos e digitais. Sistemas de inteligência militar e cibersegurança seriam desativados, aumentando a vulnerabilidade de nações a ameaças externas. “Sem a comunicação on-line, serviços de monitoramento e policiamento se tornariam ineficazes, o que poderia elevar as taxas de criminalidade. Além disso, falhas na comunicação de sistemas militares poderiam comprometer o controle de armas nucleares e operações estratégicas”, acrescenta o professor. A ciência e a saúde também sofreriam grandes prejuízos, pois a paralisação da pesquisa científica impediria o acesso a bancos de dados, simulações em nuvem e inteligência artificial, atrasando descobertas médicas e tecnológicas. Laboratórios que realizam testes clínicos e desenvolvem vacinas teriam dificuldades para compartilhar informações e coordenar esforços globais no combate a doenças. "Embora alternativas como redes privadas e tecnologia de satélites possam minimizar os danos, a dependência da internet é tão profunda que sua ausência levaria ao caos generalizado. Cientistas e engenheiros já buscam soluções para mitigar esse risco, explorando redes descentralizadas e tecnologias emergentes, como blockchain e computação quântica”, finaliza Mauá. Chance de ficar sem a grande rede é baixa, mas não impossível A possibilidade de o mundo ficar completamente sem internet é extremamente baixa, mas não impossível, segundo o professor Luis Fernando Bueno Mauá. Para que isso ocorresse, seria necessário um evento catastrófico que impactasse simultaneamente a infraestrutura física da internet, os sistemas de telecomunicações e as redes de servidores que sustentam a conectividade global. Ataque cibernético Entre os cenários possíveis, um dos mais temidos é um ataque cibernético massivo. “Embora ataques de negação de serviço distribuído (DDoS) possam sobrecarregar servidores e tornar sites e serviços temporariamente indisponíveis, as defesas cibernéticas atuais são robustas o suficiente para evitar um colapso global. Um ataque direcionado aos servidores DNS, que funcionam como um catálogo de endereços da internet, poderia tornar muitos sites inacessíveis, mas não resultaria em uma interrupção completa. Outro risco seria um malware sofisticado, semelhante ao ransomware WannaCry de 2017, capaz de infectar roteadores e servidores em escala global. No entanto, a redundância das redes e os mecanismos de segurança tornam improvável que um ataque cibernético isolado cause uma falha total da internet”. Destruição física Além dos ataques digitais, a destruição física da infraestrutura de redes também representa um risco, embora seja difícil causar danos suficientes para interromper a internet globalmente. A maior parte do tráfego da internet passa por cabos submarinos, que são responsáveis por aproximadamente 99% das comunicações internacionais de dados. “Se esses cabos fossem cortados por ações de guerra ou sabotagem, países inteiros poderiam ficar isolados temporariamente, mas a existência de múltiplas rotas redundantes tornaria improvável um desligamento completo. Da mesma forma, ataques a data centers, que armazenam e distribuem informações da internet, poderiam afetar serviços específicos, mas as grandes empresas, como Google, Amazon e Microsoft, possuem centenas de data centers espalhados pelo mundo, garantindo a continuidade da conectividade. Mesmo em um cenário de guerra global, sistemas militares e redes privadas via satélite manteriam alguma forma de comunicação”. Crise energética Mais um fator que pode impactar a conectividade global é uma crise energética de larga escala. “A internet depende de eletricidade para alimentar data centers, redes de telecomunicações e servidores. Caso uma crise global afetasse o fornecimento de energia por um longo período, o funcionamento da internet poderia ser comprometido. No entanto, a maioria dos data centers possui geradores de emergência e sistemas de backup que garantiriam a continuidade dos serviços por um tempo considerável. Mesmo em cenários extremos, como uma falha global na distribuição de eletricidade, redes descentralizadas e alternativas como a tecnologia de satélites poderiam manter alguma conectividade”. Geopolítica As decisões geopolíticas também podem levar ao bloqueio da internet em determinadas regiões, como já ocorre em países como a Coreia do Norte, onde a população tem acesso apenas a uma rede interna restrita. “A China implementou o chamado Grande Firewall, que bloqueia sites estrangeiros e impõe forte controle sobre a navegação dos cidadãos. Além disso, durante crises políticas, governos como os do Egito, Irã e Myanmar já desligaram a internet temporariamente para conter manifestações. Apesar dessas restrições locais, um apagão global da internet exigiria um acordo entre múltiplas potências, o que é altamente improvável”. Tempestade solar Outra ameaça potencial vem do espaço, com a possibilidade de uma tempestade solar extrema interferir nos sistemas de telecomunicações e redes elétricas. “A maior tempestade solar registrada ocorreu em 1859, conhecida como Evento de Carrington, e afetou sistemas telegráficos. Um evento semelhante nos dias atuais poderia danificar satélites e redes elétricas, resultando em apagões e interrupções na comunicação global. Em 2012, uma ejeção de massa coronal de grande intensidade passou próximo à Terra, e estudos indicam que uma tempestade solar extrema poderia causar apagões por semanas ou meses, afetando severamente a conectividade. No entanto, redes de fibra óptica, como os cabos submarinos, não são diretamente afetadas por esse tipo de evento, e medidas preventivas poderiam minimizar os impactos”.