Antes mesmo da primeira rima, já surge a identificação. Seja no caminho para o trabalho, durante os estudos ou em uma roda de batalha, o rap faz parte da rotina de muitos jovens que ouvem nas letras mais do que música: encontram histórias parecidas com as suas, reflexões sobre a sociedade e um espaço para se expressar. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Mais do que um estilo musical, o rap se consolidou como uma manifestação cultural que reúne diferentes elementos do hip hop e transforma vivências em poesia. Em Santos, essa cultura também ganha força nas batalhas de rima, que ocupam espaços públicos e reúnem artistas, organizadores e espectadores em torno da palavra. Quando a música vira espelho Tawanny Barcelos, de 26 anos, moradora do Macuco, conta que o rap entrou em sua vida ainda na infância, por volta dos 10 anos. Uma das primeiras artistas que chamou sua atenção foi Flora Matos, referência feminina na cena nacional. Desde então, o gênero passou a fazer parte da rotina e da forma como ela enxerga a própria vida. “O rap me traz identificação e pertencimento, porque muitas vezes os versos fazem parte da nossa vivência”. Segundo Tawanny, o contato com o rap também ajudou na construção da autoestima. “Mudou a forma como me porto diante das pessoas”. Para ela, apesar do crescimento do gênero, ainda existe preconceito. Mesmo assim, acredita que a cena vive um momento importante, principalmente pela presença cada vez maior de mulheres. “Tem muita artista produzindo trabalhos incríveis”. Cultura que acolhe Para Diane Leal, de 24 anos, moradora do Marapé, a relação com o estilo musical começou pelo irmão mais velho. “Desde novinha eu gostava de rap por causa dele. Eu ia às batalhas para assistir e gravar as rimas”. Com o tempo, a curiosidade fez Diane conhecer os bastidores das batalhas. Ela começou ajudando na organização, aprendendo a montar chaves, operar o som, apresentar e até atuar como jurada. Hoje, faz parte da equipe da Batalha dos Quebra, que acontece toda sexta-feira, às 21 horas, no Parque Roberto Mário Santini, no Emissário Submarino, no José Menino. Ela acredita que o rap mudou sua forma de enxergar o mundo. “Aprendi a ouvir histórias, questionar, ser mais crítica e mais empática”. Entre suas principais inspirações estão Rael, Emicida e Dina Di. “A Dina Di abriu portas para muitas mulheres. Já o Rael e o Emicida mostram que qualquer sentimento pode ser transformado em poesia”. Diane (à esquerda) faz parte da equipe da Batalha dos Quebra, toda sexta, em Santos. Tawanny Barcelos (à direita) conta que o rap a ajudou na construção da autoestima (Alexsander Ferraz/AT e Arquivo pessoal) Evolução e conquistas Quando perguntada sobre o que mais a emociona em cada edição da Batalha dos Quebra, ela fala da evolução. “Ver um MC perder, voltar na semana seguinte melhor, ganhar sua primeira folhinha e chorar... As crianças olham para eles como inspiração. Isso salva vidas”. No fim, talvez seja essa a explicação para o gênero continuar conquistando tantos jovens. O rap fala uma linguagem que muita gente não encontra em outros lugares. Ensina a argumentar, incentiva a escrita, desperta senso crítico e mostra que cada história merece ser contada. Afinal, como resume Diane, “a música é só o veículo; o motor sempre foi a cultura”. Voz das Minas Nos últimos anos, Diane Leal também percebeu uma mudança importante dentro das batalhas: o crescimento da presença feminina. “Elas conquistaram na marra”. Além da maior participação feminina, ela acredita que os temas abordados também evoluíram. “As rimas passaram a discutir machismo, racismo, saúde mental, maternidade”. Porém, mesmo com os avanços, Diane afirma que “ainda precisamos quebrar o estereótipo de que mulher só ganha batalha por ser mulher”. Preconceito Apesar da popularidade crescente, Diane Leal diz que o preconceito contra o rap e as batalhas ainda existe. Ela lembra que diversos MCs construíram carreiras de sucesso depois das batalhas e que muitos conciliam a arte com outras profissões. “Tem professor, assistente social, universitário... A batalha não é lugar de quem não tem futuro. É um espaço onde as pessoas encontram voz”.