Do ponto de vista psicológico, segundo Chrystina, o envio de nudes pode ser entendido como uma forma contemporânea de afirmação da identidade, da autonomia e da sexualidade (Adobe Stock) Enviar nudes — fotos íntimas, geralmente feitas e compartilhadas via celular — tornou-se um ato comum entre jovens. Muito além de um simples gesto de sedução ou expressão de desejo, eles se tornaram parte de um novo vocabulário afetivo e social. Clique aqui para seguir agora o novo canal de A Tribuna no WhatsApp! “Eles sinalizam interesse, estabelecem vínculos, confirmam a intimidade e, muitas vezes, reforçam o lugar do jovem dentro de um grupo ou de um relacionamento amoroso”, afirma a psicóloga e mestre em Psicologia, Chrystina Kato Luz. Mas essa prática também carrega riscos significativos: vazamento, exposição pública, chantagem, uso não consentido da imagem e danos psicológicos profundos. Do ponto de vista psicológico, segundo Chrystina, o envio de nudes pode ser entendido como uma forma contemporânea de afirmação da identidade, da autonomia e da sexualidade. A adolescência e a juventude são períodos marcados pela busca de pertencimento, autoimagem, experimentação e validação externa. “Enviar uma imagem íntima, nesses contextos, pode representar um gesto de confiança e entrega; uma maneira de afirmar ‘eu sou desejável’ ou ‘eu sou parte desse jogo social’, uma tentativa de fortalecer vínculos amorosos ou sexuais e uma forma de receber reconhecimento e validação de seu corpo ou de sua sexualidade”, explica. Subestimar os riscos Em uma era marcada por relações frágeis, efêmeras e instáveis, em que tudo precisa ser rápido, visível e compartilhável, a psicóloga comenta que a imagem íntima perde sua exclusividade e passa a fazer parte de um jogo de trocas — como uma “moeda social”. “O jovem, ao enviar um nude, acredita que está construindo intimidade, ao mesmo tempo em que está se adaptando à lógica da visibilidade e do pertencimento digital. Na cultura do imediatismo, os laços são consumidos mais do que construídos, o que pode levar os jovens a minimizarem o medo das consequências futuras em favor da aceitação presente”, analisa. Em meio a tudo isso, estão os riscos que, muitas vezes, os jovens deixam de lado. “Segundo a psicologia do desenvolvimento, o cérebro adolescente ainda está em amadurecimento, especialmente nas áreas ligadas à avaliação de riscos e consequências. Ou seja, há mais impulso e menos cálculo. Isso explica por que muitos jovens não ponderam adequadamente sobre os perigos envolvidos nesse tipo de exposição”, detalha a psicóloga. “A juventude, em sua fase de experimentação e pertencimento, precisa de apoio para lidar com os limites entre o prazer e o perigo, a intimidade e a exposição”, emenda. A pouca idade e a inexperiência influenciam nesses casos de forma significativa, segundo Chrystina. “A imaturidade emocional e neurológica da adolescência contribui para uma subestimação dos riscos. O jovem pode acreditar que ‘Comigo isso não vai acontecer’, ‘A pessoa vai respeitar minha imagem’ e ‘É só entre a gente’. Essa ingenuidade, aliada à pressão social, à cultura do ‘like’ e à necessidade de pertencimento, pode levar ao envio impulsivo ou até forçado de imagens íntimas”, alerta. NO RELACIONAMENTO Quando ajudam Quando enviados com consentimento mútuo e dentro de uma relação respeitosa, podem fortalecer a intimidade e o desejo Podem ser uma forma de expressão sexual segura (sem contato físico) Permitem que o jovem explore seu corpo e seuslimites com autonomia. Quando atrapalham Quando há pressão, chantagem ou ameaça de exposição, o nude vira arma Pode gerar ansiedade, culpa, vergonha ou traumas, principalmente quando há vazamento Afeta a autoestima e a confiança, especialmente em relacionamentos abusivos ou instáveis Pode gerar exclusão, bullying, estigmatização e até depressão. O que o jovem deve levar em consideração antes de enviar um nude? Consciência do risco real: não existe nude 100% seguro. Toda imagem deixa rastro, mesmo com recursos de privacidade. Consentimento verdadeiro: ninguém deve se sentir obrigado(a) a enviar um nude para manter um relacionamento. Segurança emocional: só vale se for por desejo próprio, não por medo de ser excluído(a), rejeitado(a) ou humilhado(a). Avaliação da relação: a pessoa que pede esse tipo de imagem inspira confiança? Já houve atitudes controladoras ou abusivas? Prevenção e apoio: caso se sinta pressionado(a), o jovem pode procurar ajuda de um adulto de confiança, escola ou psicólogo.