Alguns sonhos causam angústia e sensação de mau estar ao acordar (Divulgação / Freepik) Quem nunca acordou no meio da noite, com o coração acelerado e a sensação de estar fugindo de algo, mesmo sem saber exatamente o quê? Os pesadelos fazem parte da experiência humana há milênios e ainda despertam curiosidade e medo. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Embora pareçam apenas histórias criadas pela mente durante o sono, eles revelam muito sobre o funcionamento do cérebro, as emoções reprimidas e até o estado de saúde física e mental. Especialistas explicam que os pesadelos são um tipo de sonho perturbador que ocorre, principalmente, durante a fase REM (Rapid Eyes Movement), ou movimento rápido dos olhos., quando o cérebro está mais ativo. O que acontece no cérebro durante um pesadelo De acordo com o neurologista e especialista em medicina do sono José Cipolla Neto, da USP, os pesadelos são uma reação emocional intensa gerada durante o sono REM, a fase em que os sonhos são mais vívidos. Nessa etapa, há uma intensa atividade cerebral, mas o corpo permanece paralisado, um mecanismo de proteção para evitar que a pessoa se movimente de verdade durante o sonho. “Durante um pesadelo, áreas do cérebro relacionadas ao medo, como a amígdala e o córtex pré-frontal, ficam altamente ativadas. É como se o cérebro simulasse uma situação de ameaça, sem o corpo poder reagir fisicamente”, explica o especialista. Por que temos pesadelos Diversos fatores podem aumentar a frequência ou a intensidade dos pesadelos: Estresse e ansiedade: situações de tensão emocional, como perda, sobrecarga no trabalho ou conflitos, são os principais gatilhos. Distúrbios do sono: insônia, apneia e síndrome das pernas inquietas podem fragmentar o sono e facilitar a ocorrência de sonhos ruins. Uso de medicamentos: antidepressivos, remédios para pressão e substâncias que alteram neurotransmissores também podem interferir nos sonhos. Alimentação pesada à noite: comer muito ou ingerir álcool antes de dormir pode aumentar o metabolismo e deixar o cérebro mais ativo durante o sono. Traumas e memórias reprimidas: pessoas que passaram por experiências traumáticas tendem a ter pesadelos recorrentes relacionados ao episódio. Segundo um estudo publicado na revista Sleep Medicine, até 50% dos adultos relatam ter pesadelos ocasionais, enquanto entre 2% e 6% sofrem com pesadelos recorrentes, que prejudicam a qualidade do sono e o bem-estar diurno. Pesadelo ou terror noturno? Muitas pessoas confundem os dois fenômenos, mas eles são diferentes. Pesadelo: ocorre na fase REM, geralmente na segunda metade da noite. A pessoa costuma se lembrar com clareza do conteúdo e acorda logo depois. Terror noturno: acontece na fase de sono profundo (não-REM). A pessoa pode gritar, suar, se debater — mas raramente se lembra do episódio. É mais comum em crianças e tende a desaparecer com o tempo. Quando o pesadelo se torna um problema Ter pesadelos ocasionais é normal. Porém, quando eles são muito frequentes, ao ponto de causar medo de dormir, fadiga e prejuízos na rotina, pode ser sinal de um distúrbio chamado Transtorno do Pesadelo. Nesses casos, o acompanhamento médico é importante. “O tratamento pode envolver terapia cognitivo-comportamental, técnicas de relaxamento e, em alguns casos, medicação. O objetivo é reduzir a ansiedade e reconfigurar a forma como o cérebro processa o medo durante o sono”, explica a psiquiatra do sono Márcia Pradella, da Associação Brasileira do Sono. Além disso, há terapias específicas, como a Imagery Rehearsal Therapy (IRT), na qual o paciente aprende a “reescrever” o final do pesadelo, substituindo o desfecho negativo por algo neutro ou positivo. Curiosidades e fatos científicos Pesadelos são mais comuns em adolescentes e adultos jovens, especialmente mulheres. Dormir pouco aumenta a probabilidade de ter sonhos perturbadores. Estudos sugerem que pessoas criativas ou com imaginação vívida têm mais pesadelos — o cérebro mais ativo tende a gerar narrativas intensas. O conteúdo costuma refletir emoções reprimidas: medo de fracassar, culpa, insegurança, luto e sensação de desamparo. Pesadelos recorrentes também podem estar relacionados a transtornos como depressão e TEPT (transtorno de estresse pós-traumático). Como reduzir a ocorrência de pesadelos Especialistas recomendam hábitos simples que ajudam a melhorar a qualidade do sono e reduzir o risco de sonhos ruins: Estabeleça uma rotina de sono regular, dormir e acordar sempre nos mesmos horários. Evite cafeína, álcool e refeições pesadas à noite. Pratique técnicas de relaxamento como respiração profunda, meditação ou alongamento antes de dormir. Desconecte-se de telas pelo menos 30 minutos antes de se deitar. Mantenha o quarto escuro, silencioso e fresco. Fale sobre seus pesadelos: compartilhar o que sente ajuda a aliviar o impacto emocional. O lado simbólico dos pesadelos Embora a ciência explique o fenômeno com base na biologia do sono, há quem veja nos pesadelos mensagens simbólicas. A psicologia analítica, inspirada nas ideias de Carl Jung, entende os sonhos como expressões do inconsciente, uma forma do cérebro processar conflitos e medos internos. Segundo a psicóloga clínica Ana Luiza Menezes, “os pesadelos podem ser como um alerta. Eles trazem à tona emoções que tentamos evitar durante o dia. Interpretá-los pode ajudar a compreender o que está nos incomodando emocionalmente”.