(Alexsander Ferraz/ AT) Uma nova pesquisa publicada no Journal of Geophysical Research: Oceans revela que a maior parte das microfibras de poliéster liberadas durante a lavagem de roupas não chega ao oceano aberto, como se imaginava. Em vez disso, esses fragmentos microscópicos se acumulam em regiões costeiras, como rios, estuários e baías rasas, formando focos persistentes de poluição. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! As microfibras, invisíveis a olho nu, se desprendem dos tecidos sintéticos durante o uso doméstico de máquinas de lavar e seguem pelo sistema de esgoto. Apesar de serem uma das principais fontes de microplásticos no ambiente marinho, o estudo aponta que até 80% dessas partículas ficam retidas próximas à costa. A pesquisa foi realizada no mar Salish, sistema de águas costeiras localizado entre a Colúmbia Britânica, no Canadá, e o estado de Washington, nos Estados Unidos. O trabalho combinou medições de campo com modelos computacionais avançados para rastrear o caminho das fibras desde o descarte até o leito marinho. Segundo os cientistas, a forma alongada das microfibras faz com que elas afundem lentamente, permanecendo suspensas na água por dias. Esse comportamento, aliado à dinâmica das correntes e marés, cria zonas naturais de retenção, especialmente em áreas com menor circulação de água. Os dados indicam que cerca de 31% das partículas acabam depositadas no fundo marinho, enquanto 14% se acumulam nas faixas de areia. Apenas uma fração mínima — aproximadamente 0,13% — consegue alcançar o oceano Pacífico. Outro fator relevante é a influência dos rios. Em períodos de maior vazão, a corrente superficial se intensifica, empurrando mais microfibras em direção à costa. Já em regiões de águas mais calmas, como baías e canais, esses poluentes permanecem concentrados próximos às suas fontes de origem. Para validar os resultados, os pesquisadores coletaram amostras em diferentes pontos do rio Fraser, no Canadá. As análises confirmaram que a quantidade de microfibras encontrada na água corresponde às previsões dos modelos, reforçando a tendência de acúmulo em áreas costeiras. Os resultados acendem um alerta para a gestão ambiental. Embora funcionem como uma espécie de filtro natural, os estuários também se tornam áreas críticas de contaminação, com impactos diretos sobre a vida marinha, a qualidade dos sedimentos e até comunidades humanas que dependem desses ecossistemas. Além disso, eventos como tempestades e marés intensas podem remobilizar essas partículas acumuladas, transformando regiões costeiras em fontes contínuas de poluição ao longo do tempo. Diante desse cenário, os especialistas defendem que o combate aos microplásticos deve começar na origem do problema. Medidas como a instalação de filtros em máquinas de lavar, melhorias no tratamento de esgoto e mudanças na indústria têxtil são apontadas como fundamentais para reduzir a liberação dessas partículas no meio ambiente.