Igor Rocha: “Vemos com preocupação a revogação dos benefícios do ICMS” (Divulgação) O caminho da reindustrialização no Brasil e no Estado, as políticas e as projeções ligadas ao setor são assuntos tratados nesta entrevista com o economista-chefe da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), Igor Rocha, para A Tribuna. Confira: A reindustrialização tem sido uma pauta importante em falas do ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Geraldo Alckmin, e do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas. Como a Fiesp tem acompanhado esse interesse, especialmente envolvendo São Paulo? Há conversas por parte da Fiesp com as autoridades para implementação de programas que corroborem tudo isso? A Fiesp tem exercido um papel proativo na promoção da reindustrialização, alinhando-se aos esforços do ministro Alckmin, e do governador Tarcísio de Freitas. O Plano Mais Produção, a Nova Indústria Brasil e a medida da Depreciação Acelerada - políticas públicas implementadas pelo Governo Federal - tiveram forte atuação da Fiesp. A Depreciação Acelerada, medida que visa a renovação do parque industrial brasileiro, contou com a nossa contribuição técnica. Estimamos que essa medida tenha um impacto de até R\$ 18 bilhões em novos investimentos. Em sinergia com outras iniciativas prioritárias, a proposta atua no sentido de fortalecer a produtividade, o crescimento econômico e a geração de empregos. Na esfera estadual, vemos com preocupação a revogação dos benefícios do ICMS para setores da indústria e a ausência de uma política industrial de longo prazo para o Estado de São Paulo. A decisão do governo paulista é considerada, em nossa análise, temerária diante do êxodo industrial que o Estado vem enfrentando. Medidas de avaliação e revisão de políticas públicas são sempre bem-vindas, mas há necessidade de propor uma transição associada a uma visão de longo prazo. Como tem que ser a política relativa à indústria? Ela tem que seguir linhas gerais, em uma política nacional, tem que respeitar e seguir as particularidades de cada estado ou as duas práticas juntas? Por quê? A política industrial deve encontrar um equilíbrio entre diretrizes nacionais e a flexibilidade necessária para atender às especificidades de cada estado. A política pública deve estabelecer incentivos, promover investimentos em inovação, infraestrutura e regulamentação para fortalecer a produtividade e a competitividade da indústria brasileira no contexto global. É claro que cada estado possui características econômicas distintas. Uma abordagem flexível possibilita que os estados adaptem a política industrial às suas necessidades, explorando vocações regionais e promovendo um desenvolvimento mais equilibrado. O governo federal pode elaborar um plano estratégico geral, como faz atualmente, enquanto os estados poderiam ajustá-lo de acordo com suas realidades. Tal integração poderia potencializar a política pública, diminuir as desigualdades regionais e fortalecer as vantagens competitivas locais. Um modelo híbrido assegura que a indústria se desenvolva de maneira sinergética, aproveitando as complementações entre as diversas regiões do país. Acima de tudo, a política industrial deve ter um caráter de longo prazo, ou seja, é necessário que esta seja uma política de Estado e não de governos, garantindo a perenidade das medidas voltadas ao desenvolvimento industrial e reindustrialização do País. O estado viveu uma série de perdas de indústrias ao longo dos anos para outras unidades da federação. Como atrair novas indústrias para o estado de São Paulo? Seria por intermédio de investimentos internacionais? Alguma outra iniciativa? Como a Fiesp tem participado disso? Por conta, em grande medida, da guerra fiscal travada entre os estados, nos últimos anos as indústrias estão se deslocando de São Paulo para outras unidades da federação. Diante desse contexto, a atração de novas indústrias para o estado de São Paulo pode ser feita por meio de diversas estratégias, incluindo investimentos internacionais e criando condições favoráveis para novas atividades, como segurança jurídica e infraestrutura eficiente. Ademais, é fundamental melhorar o transporte de cargas e a conectividade com outros estados e países, expandir a malha ferroviária e portuária para reduzir custos logísticos e modernizar a matriz energética, oferecendo energia mais barata e sustentável. A Fiesp tem atuado em diversas frentes para reverter a perda de indústrias no estado, assim como tem pressionado os governos federal e estadual por melhores condições tributárias e regulatórias. Além disso, temos organizado missões empresariais e eventos para atrair investidores e, por meio do SENAI-SP, há capacitação de trabalhadores para atender às novas demandas do setor industrial e incentivo à adoção de novas tecnologias e à modernização da indústria paulista. Temos convicção de que, com a implementação dessa agenda, São Paulo pode recuperar sua competitividade e atrair novas indústrias para o estado. É necessário que o estado de São Paulo busque novas vocações envolvendo indústria, ou basta despertar (e desenvolver e investir) as que já existem ou as duas atitudes juntas? Por quê? O Estado de São Paulo deve adotar uma abordagem equilibrada, combinando o fortalecimento de suas vocações industriais já consolidadas com a busca por novas oportunidades. Essa estratégia garante um crescimento sustentável, competitivo e alinhado às transformações do mercado global. Atualmente, São Paulo possui uma base industrial robusta em setores como automobilístico, farmacêutico, químico e alimentício. Investir na modernização dessas indústrias pode elevar a produtividade e a competitividade, por meio da inovação e digitalização – incluindo Indústria 4.0, automação e inteligência artificial. Além disso, é essencial apoiar pequenas e médias empresas na integração às cadeias produtivas e incentivar a exportação e a expansão para mercados internacionais. Paralelamente, explorar novas vocações industriais é fundamental para acompanhar as mudanças globais. Setores emergentes, como tecnologia e semicondutores, são estratégicos para a inovação e a autonomia digital. A transição energética também abre oportunidades, com a produção de equipamentos para energia solar e eólica. Na área da saúde e biotecnologia, o estímulo à pesquisa e ao desenvolvimento de medicamentos e vacinas fortalece a competitividade. Já a economia circular e a reciclagem ganham relevância com a crescente demanda por soluções sustentáveis. O que é possível projetar para os próximos cinco anos envolvendo a indústria no Estado de São Paulo? E no Brasil? O ano de 2025 será mais difícil para o setor industrial. A expectativa é de menor crescimento para a produção industrial, refletindo o aperto monetário, que tende a contribuir para a piora das condições de acesso ao crédito, afetando o custo dos novos financiamentos e, consequentemente, a dinâmica de atividade industrial. Adicionalmente, esperamos menor impulso fiscal por parte do governo federal diante da necessidade de conter a escalada de incerteza sobre a trajetória das contas públicas. Este ano também deverá ser marcado por um ambiente externo mais desafiador, com destaque para as incertezas econômicas em torno da economia dos EUA em função dos potenciais impactos macroeconômicos das medidas propostas pelo presidente eleito, Donald Trump, ao longo da campanha eleitoral. Um dos pontos de atenção é a implementação do aumento das tarifas sobre os produtos importados pelos EUA. Em uma perspectiva de longo prazo, tanto a indústria de São Paulo quanto a do Brasil enfrentarão desafios e oportunidades associadas à inovação, sustentabilidade e reestruturação produtiva. Nos próximos anos, as expectativas são otimistas, impulsionadas pela agenda de reformas estruturais e iniciativas do governo federal, como o Mais Produção e a Depreciação Super Acelerada. No que se refere às reformas estruturais, apesar do elevado número de exceções e da alta alíquota do IVA - possivelmente a maior do mundo -, a reforma tributária sobre o consumo, além de endereçar a questão da guerra fiscal, trará simplificação dos impostos. Além disso, a agenda de digitalização e a Indústria 4.0 representarão um desafio para a indústria de transformação brasileira, tornando essencial o aumento do uso de inteligência artificial, automação e Internet das Coisas. A sustentabilidade das contas públicas cumpre papel relevante para a garantia de estabilidade econômica. Se essas tendências forem bem aproveitadas, São Paulo e o Brasil terão a oportunidade de fortalecer sua indústria, tornando-a mais moderna, sustentável e competitiva no cenário global.