André e Giulia na Laguna Humantay, no Peru (acima). Ele também esteve em Palau (no alto, à dir.) e no Sri Lanka (Arquivo Pessoal) O cantor Chorão já dizia anos atrás, na canção Zóio de Lula, que "meu escritório é na praia". Mas, para os nômades digitais, ele também pode estar em uma cafeteria com vista para os canais de Amsterdã, no coworking em Bali, em uma varanda de frente para o Mediterrâneo ou até em uma cabana cercada por montanhas. Quem escolhe esse estilo de vida trabalha de forma remota enquanto explora cidades, estados e países diferentes, colecionando experiências e transformando o mundo em casa — e em escritório. Por viverem em constante movimento, muitos imaginam que os nômades digitais estão de férias o tempo todo. Na prática, porém, a realidade é diferente. Trabalho, reuniões e prazos continuam fazendo parte da rotina, assim como a pressão por resultados e os desafios do mercado profissional. Foi esse estilo de vida que o casal André Vinícius da Silva e Giulia Machao decidiu encarar. Para ele, que é gerente de projetos em uma consultoria de Tecnologia da Informação (TI), tudo começou em 2017, quando decidiu tirar um período sabático e embarcou em sua primeira volta ao mundo. A ideia inicial era viajar por alguns meses e, depois, retornar à rotina. Mas, a experiência transformou completamente sua forma de enxergar a vida. O que seria apenas uma pausa se tornou um estilo. Hoje, ele acumula mais de oito anos viajando e já passou por 98 países. “Quando o trabalho remoto se tornou uma realidade, percebi que não precisava mais escolher entre crescer profissionalmente e conhecer o mundo. Ser nômade digital é ter a liberdade de trabalhar de qualquer lugar. No fim das contas, é trocar um endereço fixo pela liberdade geográfica de escolher onde você quer viver, sem abrir mão da sua carreira”. #ROTINA Reuniões, entrega de projetos, cumprimento de prazos e horários. Apesar de estar constantemente em movimento, a rotina de André não é muito diferente daquela de qualquer outro profissional. Atualmente, ele mantém o horário comercial do Brasil, mesmo quando está do outro lado do mundo. A principal diferença está na liberdade de escolher de onde trabalhar. O nômade digital esclarece que sua principal fonte de renda continua sendo a carreira na área de tecnologia. Além disso, ele também produz conteúdo para as redes sociais, compartilhando experiências e dicas de viagem, e já acumula mais de 100 mil seguidores. “Posso trabalhar de um café diferente, passar algumas semanas em outra cidade ou aproveitar uma manhã para conhecer um lugar histórico. Semana passada, por exemplo, visitei algumas ruínas incas em Cusco, no Peru, antes de começar o trabalho”. #GASTOSEREFLEXÃO André relata que os gastos desse estilo de vida variam de acordo com três fatores: custo do destino, tempo de permanência em cada lugar e estilo de vida que cada pessoa escolhe levar. “Por isso digo que comparar gastos entre viajantes é complicado. Duas pessoas podem estar no mesmo país e gastar valores completamente diferentes. Aprendi que, quanto mais devagar você viaja, mais barato tende a ficar. No meu caso, costumo ficar semanas ou até meses em alguns lugares. Além de economizar, isso me permite aproveitar mais a experiência”. Apesar de parecer uma grande aventura, cheia de experiências e novos cenários, esse estilo de vida também traz desafios. Para ele, o principal é a distância das pessoas que ama — família, amigos e momentos da vida que não voltam mais. Mesmo assim, segundo André, ao colocar tudo na balança, o saldo é positivo: as experiências, os aprendizados e a vida que vem construindo ao longo dos anos pesam mais do que as “renúncias” feitas ao longo do caminho. “Minha avó, por exemplo, já está mais idosa e às vezes eu sinto falta de estar presente. Existem aniversários, encontros e acontecimentos importantes que você inevitavelmente perde quando escolhe viver em movimento. Sei que esse estilo de vida não é perfeito nem é para todo mundo. Existe um preço a ser pago pela liberdade”. #COMPANHIA No dia a dia, ele vive essa experiência ao lado de Giulia, de 25 anos, que é diretora de arte em uma agência de publicidade. Os dois já tinham o hábito de viajar individualmente antes de começarem a embarcar juntos em novas aventuras. “Estamos nos organizando para ter uma ‘rotina’ que nos permita trabalhar, cada um na sua área e no seu tempo, e aproveitar a vida juntos. Várias coisas ficam mais confortáveis, como ter sempre companhia, poder dividir os momentos e despesas e construir uma relação e intimidade”. #PRIMEIROPASSO André Vinícius da Silva pontua que muitas pessoas passam anos planejando, pesquisando e esperando o momento perfeito, mas na prática ele quase nunca chega. Para o gerente, a única forma de saber se esse estilo de vida faz sentido é viver a experiência, pois a prática mostra se o nomadismo digital realmente combina com cada pessoa. “Também gosto de quebrar um mito: ser nômade digital não é algo reservado a pessoas ricas. Dependendo do destino e do estilo de vida, muitas vezes o custo pode ser parecido ou até menor do que viver em uma cidade como São Paulo. Mas eu não recomendo largar tudo de uma vez. Faça um teste”. De acordo com o nômade digital, é preciso passar algumas semanas ou um mês trabalhando de outro lugar para entender os desafios, ver se você gosta da rotina e como se adapta à distância da família, dos amigos e da zona de conforto. “Acho que o principal é estudar um pouco sobre esse estilo de vida, conversar com pessoas que já vivem dessa forma, entender os prós, contras e desafios. Mas, acima de tudo, é preciso começar. Porque muitos passam a vida inteira planejando e poucos realmente dão o primeiro passo”, conclui. #CARACTERÍSTICASPESSOAIS Um dos principais fatores para que alguém adote esse estilo de vida é a possibilidade real de se deslocar no tempo e no espaço sem comprometer sua fonte de renda. Segundo a psicóloga Gabriela Geisa Ferreira Pimenta, a questão financeira é importante, pois a pessoa continua precisando garantir seu sustento. Quando existem dependentes, essa decisão envolve ainda mais planejamento. “Apesar de que qualquer pessoa possa escolher esse modelo de vida, sustentá-lo exige recursos, flexibilidade, capacidade de adaptação e habilidades de organização. Algumas características pessoais podem facilitar essa experiência, como maior tolerância a mudanças e incertezas, mas muitas dessas habilidades também podem ser desenvolvidas ao longo do tempo”. Gabi ainda esclarece que enxerga o nomadismo digital como uma manifestação contemporânea de algo que acompanha a humanidade há muito tempo: o deslocamento em busca de oportunidades e experiências. “A diferença é que, atualmente, a tecnologia e o trabalho remoto ampliaram significativamente o acesso a essa possibilidade, tornando mais visível e desejável para um número maior de pessoas”. Já do ponto de vista psicológico, de acordo com a profissional, cada pessoa vivenciará essa experiência de forma diferente. “Enquanto algumas encontram liberdade, autonomia e realização, outras podem sentir mais necessidade de estabilidade, pertencimento e vínculos duradouros”.