Em uma experiência imersiva inspirada em expedições científicas, é possível viajar virtualmente até regiões do Egito Antigo, visitar tumbas, templos e explorar monumentos (Reprodução) Arqueologia rima com tecnologia. E não apenas foneticamente falando. Embora pareçam não combinar à primeira vista, uma tem necessitado bastante da outra, fazendo com que os recursos mais avançados ajudem a desvendar o passado, contribuindo para pesquisas envolvendo gerações de milhares de anos. “A arqueologia atual difere em muito do imaginário popular que vemos em filmes e mídias diversas. Hoje, o trabalho do arqueólogo, mesmo o de campo, utiliza diversos instrumentos para medições e prospecção. Sendo o trabalho do historiador algo próximo de um detetive, o arqueólogo, como braço da história, consegue captar muito mais informações e detalhes com a ajuda de tecnologias modernas”, argumenta o professor de História do Colégio Santa Cecília, Bruno Alves da Conceição. No campo da pesquisa arqueológica, o professor destaca o auxílio de testes laboratoriais como a datação por carbono 14 (que analisa a quantidade de carbono presente em um fóssil) e a datação por termoluminescência (que permite isso com base na radiação acumulada no material). Os dois são processos que colaboram com a datação precisa dos vestígios materiais. E não é só. “Um avanço inusitado tem contribuído e muito para as descobertas arqueológicas: o Google Earth. Muitos sítios arqueológicos estão sendo descobertos pela análise de imagens disponíveis na ferramenta. Recentemente, foram encontrados sítios no México e na Amazônia dessa forma, facilitando a identificação de grandes estruturas mais facilmente observadas por imagens de satélite”, explica. A criação de bancos de dados geológicos e topológicos auxilia a elaboração de modelos 3D de locais antes inacessíveis aos seres humanos, observa Bruno. “Isso torna a descoberta de sítios arqueológicos uma tarefa muito mais eficaz”, afirma. Ascendência genética A tecnologia também ajudou no trabalho de pesquisa envolvendo Luzia, fóssil considerado o mais importante da arqueologia brasileira e que acabou danificado no incêndio do Museu Nacional do Rio de Janeiro em setembro de 2018. “Pesquisas de ascendência genética comprovaram que ela tinha ligações com os grupos que atravessaram o Estreito de Bering (canal marítimo que separa a Ásia e a América do Norte) e povoaram o continente americano a partir do norte. Tal descoberta foi importante, pois havia a dúvida sobre se suas características físicas eram ameríndias ou mais parecidas com os habitantes da região australásia”, detalha o professor. Realidades avançada e aumentada garantem experiências imersivas A realidade virtual e a realidade aumentada são outros recursos tecnológicos que têm transformado profundamente a arqueologia, criando experiências imersivas que aproximam o público do passado e contribuem muito para a preservação digital do patrimônio histórico. No contexto do metaverso, essas tecnologias permitem acessar, explorar e interagir com sítios arqueológicos de forma segura, acessível e envolvente — sem necessidade de estar fisicamente no local, aponta o engenheiro e professor da Unisanta no curso de Sistemas de Informação e Análise e Desenvolvimento de Sistemas, Luis Fernando Bueno Mauá. “Em experiências de realidade virtual, é possível navegar por ambientes históricos reconstruídos com base em dados científicos, como templos antigos, cidades perdidas e paisagens culturais de civilizações desaparecidas. O usuário, ao colocar o visor de realidade virtual, pode andar pelos locais, observar detalhes arquitetônicos, interagir com objetos e até realizar missões educativas relacionadas à história da humanidade”, afirma. O especialista cita como exemplo que, em uma experiência imersiva inspirada em expedições científicas, é possível viajar virtualmente até regiões do Egito Antigo, visitar tumbas, templos e explorar monumentos, com o auxílio de ferramentas interativas que revelam informações sobre a construção, cultura e simbolismo desses locais. “Essa imersão é enriquecida por narrações, ambientações sonoras e elementos interativos que tornam o aprendizado mais envolvente e significativo”, argumenta. Já em outra aplicação, voltada à exploração geográfica e cultural global, o usuário pode visitar virtualmente locais arqueológicos espalhados pelo mundo, como Machu Picchu (Peru), Stonehenge (Inglaterra) ou Petra (Jordânia). “A realidade virtual permite observar esses locais em 360 graus e em alta definição, baseando-se em imagens reais de satélite e mapeamentos detalhados. Esse tipo de experiência possibilita comparar sítios arqueológicos de diferentes civilizações, observar o impacto do tempo sobre as estruturas e refletir sobre a conservação do patrimônio”, descreve. Preservação Além disso, segundo Mauá, tanto a realidade virtual quanto a realidade aumentada têm papel essencial na preservação digital. Muitos sítios históricos estão ameaçados por guerras, desastres naturais ou ação do tempo. “Ao serem escaneados e recriados em ambientes virtuais, eles permanecem acessíveis para estudos e visitas futuras, mesmo que o local original venha a ser destruído. A realidade aumentada, por sua vez, permite sobrepor informações ou reconstruções 3D a espaços físicos reais, como museus ou sítios abertos ao público, enriquecendo a experiência com dados históricos, reconstruções hipotéticas e elementos interativos”, explica.