Conforto não é um requisito essencial. Desbravar o mundo, colhendo memórias e imagens, sim. Esse é um pequeno resumo da vida de quem adotou o estilo mochileiro. As jornadas trazem mudanças na perspectiva de vida e alimentam uma paixão que não termina ao fim de cada roteiro. A Tribuna traz três histórias de viajantes que têm na Baixada Santista um porto seguro. Mas em conhecer o mundo, uma razão de vida. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Elza Ferreira de Lima A assistente comercial de 34 anos de Vicente de Carvalho, em Guarujá, tem uma viagem especial na memória: para a Chapada Diamantina, no sertão da Bahia. Um ingrediente especial deu outro gás à aventura: a bicicleta, planejada por cerca de 1 ano e meio. Foram 3 meses e meio até a conclusão, entre paradas, descanso e trabalho. “Foi resultado de um longo processo de mudanças e reafirmações como pessoa”, descreve. Ela conta que, desde cedo, sentia admiração pelo estar ao ar livre.“Esperei fazer 18 para poder realizar minha primeira viagem de mochila sozinha, sem precisar de responsável para acompanhar ou autorizar. E me achei mochileira”, acrescenta. Segundo ela, a decisão de encarar uma aventura como essa nasce da premissa “Vou viver isso e pronto”. O aspecto psicológico conta demais. “É ele quem fará você ter firmeza quando pessoas ou situações tentarem te fazer repensar ou desistir”. Sobre desapego material, ela ressalta o cuidado ao apontar o que irão as “necessidades”. “Isso depende bastante do objetivo, do que está disposto a largar. Considerei tentar fazer a baixo custo. Levei apenas o valor que me restou, de minha rescisão do trabalho de 1 ano registrada. Considerei acampar, fazer minha comida, trabalhar em algum lugar freelance no caminho, mas ganhei também Pix de amigos e pessoas que gostavam de minha viagem”. O saldo disso: uma memória especial. “Passar por vários lugares ermos de estradas rurais, longos trechos sem passar ninguém além de mim. Foi um desafio. Mas as paisagens sempre compensavam”. Gilsimara Caresia A turismóloga de 45 anos relata mais de 110 países visitados. E pensar que tudo começou aos 17 anos, numa ida à Prainha Branca, em Bertioga. “Descobri o mochilão muito cedo, como forma econômica de viajar, mas mais do que isso, uma forma de turismo mais autêntico, mais interativo e genuíno”. A viajante deixou 17 anos de carreira de concursada em um banco, para um período sabático de dois anos viajando sozinha pelo mundo de modo econômico e com uma mochila nas costas. Quando voltou ao Brasil, fez do turismo a sua profissão e hoje leva mulheres para viajar o Brasil e o mundo, através da agência de turismo que ela criou, uma das pioneiras no segmento, a GirlsGo Viagens para Mulheres. “A primeira informação para quem quer começar é que ser mochileiro não tem a ver coma idade, mas, sim, com o espírito aventureiro – e que nunca é tarde para começar”, ressalta. Entre os lugares visitados, um se destaca: a Etiópia, mais precisamente Dallol, a 120 metros abaixo do nível do mar. “Essa área é conhecida pelas temperaturas extremas, paisagens coloridas devido a depósitos minerais e atividade vulcânica”. Foto ilustrativa (Freepik) Ighor e Letícia Redhd O casal (ele, engenheiro de software; ela, artesã) mora em Santos, mas já passou por 55 países, alguns mais de uma vez – e contando. De cara, alguns conselhos: aprenda a se vestir em todas as condições climáticas e saber palavras básicas do idioma do país a ser visitado, o que ajuda a quebrar o gelo e ser gentil. “Para fazer mochilão, definimos uma região, depois os países e quais requisitos para ingressar neles, além de seguro viagem e reserva de emergência. Em média, nós nos organizamos uns três, quatro meses antes. Com passagens compradas começamos a definir os passeios e roteiros, mas sempre deixamos brechas para conhecer coisas novas”, aconselha Ighor. Quanto ao dinheiro necessário, tudo depende do tamanho pensado para a trip. “Fizemos um mochilão de 10 países, em 27 dias, na Europa com mais dois amigos e gastamos uma média de R\$ 12 mil por pessoa”. Mas tamanho planejamento não impede alguns perrengues. “Chegamos a em um hotel na Índia, sujo e sem nada a ver com as fotos; em Gênova, na Itália, o hotel tinha sido fechado pelo governo, sem aviso prévio. Alugamos uma moto na Tailândia e, na hora de devolver, descobrimos que o dono da empresa de locação foi preso por falta de visto”. Uma última dica: ter sempre os documentos impressos, reservas de hotéis, passeios, passagens, seguro, documentos que consigam comprovar que a ideia não é morar ou trabalhar ilegalmente.