A influência do mês de nascimento pode estar ligada a fatores ambientais como nutrição materna, exposição à luz e a doenças sazonais no período gestacional (Divulgação / Freepik) Será que o mês em que nascemos pode dizer algo sobre nossa inteligência? A ideia, que mistura ciência com um toque de curiosidade, já foi alvo de diversos estudos ao redor do mundo. Alguns deles sugerem que crianças nascidas em determinados períodos do ano apresentam vantagens iniciais em testes de leitura, matemática ou desempenho escolar. Mas a pergunta central permanece: até que ponto isso se sustenta cientificamente? Clique aqui para seguir agora o novo canal de A Tribuna no WhatsApp! O que dizem os estudos? Pesquisas realizadas em diferentes países sugerem correlações sutis entre mês de nascimento e desempenho acadêmico. Escócia: um estudo com mais de 12 mil crianças nascidas entre 1950 e 1956 indicou que aquelas nascidas entre fevereiro e abril tinham desempenho ligeiramente melhor em leitura e aritmética do que as nascidas entre setembro e dezembro. Contudo, ao ajustar fatores como idade de ingresso escolar e idade relativa dentro da turma, a diferença praticamente desapareceu. Metaestudo internacional: uma revisão publicada na ScienceDirect apontou que nascidos na primavera e no verão (no Hemisfério Norte) tendem a apresentar pontuações um pouco mais altas em testes intelectuais. Mesmo assim, os autores destacam que as evidências são antigas e as diferenças, mínimas. Estudos recentes: levantamentos menos rigorosos apontaram que outubro, novembro e dezembro estariam associados a maiores escores de QI, possivelmente por fatores gestacionais como menor exposição a vírus e condições climáticas mais estáveis no último trimestre da gravidez. Curiosidades e outras interpretações Algumas análises trazem mais leveza ao debate. Uma pesquisa citada pela revista Parents, por exemplo, apontou que agosto, fevereiro e novembro eram os meses mais comuns de nascimento entre pessoas bem-sucedidas em ciência e negócios. O próprio estudo, porém, admite: trata-se mais de uma curiosidade do que de ciência sólida. Na imprensa internacional, setembro também costuma ser mencionado como um “mês forte” para desempenho escolar, já que os estudantes nascidos nesse período tendem a ser os mais velhos de suas turmas. O papel do ambiente e da gestação Pesquisadores também sugerem conexões biológicas. A nutrição materna, a exposição à luz e a incidência de doenças sazonais durante a gestação podem, em tese, impactar o desenvolvimento do bebê. Estudos na China rural, por exemplo, mostraram que mães que tiveram melhores condições nutricionais no período do Ano Novo Chinês geraram filhos que, anos depois, tiveram melhor desempenho acadêmico. O que realmente importa Apesar das estatísticas e correlações, a conclusão dos especialistas é clara: Mês de nascimento – influência mínima. Idade no início da escolarização – impacto maior no desempenho inicial. Fatores ambientais e gestacionais – variáveis que podem influenciar, mas dependem do contexto. Educação, nutrição, estímulo e ambiente familiar – determinantes principais do desenvolvimento intelectual. Em outras palavras, embora o mês de nascimento possa render boas discussões e curiosidades, o que de fato molda a inteligência e as habilidades ao longo da vida são as oportunidades de aprendizado, o acesso a uma boa educação e o estímulo constante à curiosidade.