“As leis trabalhistas não têm mais aderência com o que o jovem quer”, diz Yorki Estefan (Alexsander Ferraz/AT) Presidente do Sindicato da Indústria da Construção Civil do Estado de São Paulo (Sinduscon-SP), Yorki Estefan acredita que é preciso haver um alinhamento de pautas com o poder público, buscando melhorias constantes para o setor. Ele, que visitou o Grupo Tribuna na última semana, reforça em entrevista a preocupação com a carga tributária, saudando a queda no aumento do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) no Congresso, enquanto destaca o avanço da tecnologia no segmento. A queda do aumento do IOF tranquilizou um pouco o segmento? Foi uma das lutas em que estamos envolvidos, porque acho que chegamos num limite de impostos para o setor produtivo. A nossa briga é em prol do empreendedorismo. Nós temos uma visão bastante clara social, de apoio a várias iniciativas. Agora, com o Governo do Estado, temos uma iniciativa muito boa. Qual seria? Em conjunto com a Secretaria Estadual de Desenvolvimento Econômico, queremos um site para poder fazer a relação entre as pessoas que estão sem emprego e as construtoras. Estamos desenvolvendo com eles e nosso RH. Essa ferramenta pretende elencar quem procura uma vaga de emprego para o setor que está querendo empregar. Como o setor vê a informalidade no trabalho? Esse é um problema, porque só 26% dos trabalhadores com capacitação para a construção civil trabalham no mercado formal. Então, 74% estão fazendo bico atrás de bico, sem estar em busca. É uma demonstração, na nossa visão clara, de que as leis trabalhistas hoje não têm mais aderência com o que o jovem quer. Por muito tempo se criou uma imagem estereotipada do trabalho na construção civil, com o termo peão de obra e a imagem de que o profissional do setor ganha pouco e não tem qualificação. Um carpinteiro ganha de R\$ 10 mil a R\$ 12 mil. Tem muita possibilidade de agregar renda para as pessoas da construção civil. A gente precisa agora levar essa mensagem. A gente foi incapaz de fazer alterações, por exemplo, de nomenclatura. Não dá para chamar uma pessoa de servente ou de pedreiro. Ele é executor de revestimento, um auxiliar. Na Baixada, quantos associados tem o Sinduscon-SP? Aqui, são dez associados, é muito pouco, porque o nível de conhecimento que tem lá dentro do Sinduscon, tem toda uma parte de gestão de pessoas e diminuição de custos trabalhistas. Nós fizemos agora o primeiro manual de boa prática de RH para o setor da construção civil. Espetacular, desde a parte da contratação inicial a como ele vai capacitando. Existe uma preocupação do setor quanto ao dinheiro da poupança e do FGTS, do risco dele se tornar escasso. E agora a LCI, outra fonte de recursos da construção, foi taxada em 5%. Isso gera um medo de gerar um gargalo para a construção civil? Nós estamos em um momento de encarecimento brutal do crédito. Nunca tivemos um patamar tão alto de custo de crédito. Para nós, o IOF seria um acréscimo de custo, a gente exclui pessoas. E a gente tira a possibilidade das construtoras fazerem os lançamentos que elas já tinham planejado fazer. E eu não acho que o nosso país está precisando aumentar a receita. O governo bate recordes de arrecadação e o setor produtivo não aguenta mais pagar conta sem enxergar alguma medida de contenção de gastos. Quais são as iniciativas do Sinduscon de caráter ambiental? A gente fez a primeira calculadora para mensurar o quanto as construções emitem de CO2, de acordo com o tipo de projeto. Você vai colocando as informações e o Sinduscon fornece para as empresas que estão trabalhando com o sistema qual é a média de mercado e onde você está posicionado. Agora, estamos desenvolvendo a ferramenta de calculadora hídrica, que é quanto cada material de construção consome de água na produção. A faixa 4 do Minha Casa, Minha Vida (voltada à renda entre R\$ 8 mil e R\$ 12 mil mensais) já está surtindo efeito? É uma sacada espetacular porque é um pessoal que não é milionário, com renda de R\$ 8 mil a R\$ 12 mil. É uma faixa de renda que precisava ter um crédito adequado. Não terá 80% de inadimplência. Yorki: "Eu não acho que o nosso país está precisando aumentar a receita. O governo bate recordes de arrecadação” (Alexsander Ferraz/AT) Por outro lado, existe um déficit habitacional ainda grande, especialmente para a baixa renda. Para atingir essa camada mais baixa da população, precisa de um discurso conjugado entre as três esferas de poder. Ter uma complementação de renda do Governo do Estado e uma do Município. Se a gente não tiver esses entes federativos alinhados e querendo contribuir, não se consegue fazer. O retrofit (revitalização de construções antigas) lhe agrada? É uma solução? Nós trouxemos o prefeito de Bilbao (Espanha) para falar sobre a experiência deles. Era uma cidade totalmente decadente. E o povo, na miséria, sem emprego. Um grupo de iluminados decidiu ‘nós vamos fazer, vamos realocar o porto de lugar’. Fizeram uma PPP (parceria público-privada). Levaram o Guggenheim (museu) para lá. Pegaram o centro histórico, o centro vital inteiro, a cidade não recebia uma feira por ano, nunca teve uma feira por ano. Hoje são 360 feiras por ano em Bilbao. Foi uma iniciativa muito bacana que eu acho que a gente precisa disseminar. O Governo Federal tem retomado as obras de infraestrutura, mas de forma ainda tímida. Existe alguma sugestão para poder enriquecer esse investimento? Eu não acredito muito nessa retomada forte por parte do Governo Federal, muito pelo contrário, se tiver um contingenciamento maior ainda de gastos. E o mercado espera uma posição bem clara do que eles vão poder gastar, porque não adianta nada começar uma obra e parar porque não tem dinheiro. Acredito muito mais (em obras de infraestrutura) por parte do Estado. O Censo de 2022 mostra uma migração para o Interior, um crescimento populacional das cidades interioranas. A construção civil está acompanhando esse movimento? O que eu vejo, e lamento demais, é que a gente precisa valorizar o Litoral. Por anos, ele não teve atenção dos governos. Todos eles foram muito mais voltados para o Interior. Se a gente pegar o número de universidades do Interior e o que tem no Litoral, é uma aberração. A gente precisa fortalecer a segurança pública no Litoral para fazer com que essa economia seja muito maior. Eu acho que há no Litoral uma força gigantesca que ainda não conseguiu despertar. O e-commerce criou uma necessidade de galpões logísticos, de infraestrutura logística, gerando oportunidades para a construção civil. Como está esse nicho? O mercado de logística das empresas no Interior de São Paulo é uma verdadeira febre. Eles não conseguem dar conta da produção de logística. Então, assim, isso é efetivo. Já está acontecendo. Estão lotados de serviços. O setor está muito demandado. Nos últimos anos a tecnologia tomou conta de muitas áreas, aplicativos, bancos digitais etc. A construção civil conseguiu acompanhar essa transformação? Ela entrou muito fortemente. Hoje, se você ver os softwares que existem para a área de planejamento de obras, são sofisticadíssimos. Todos os controles das obras são feitos de forma digital. Mas, logicamente, não é a realidade de todas as empresas. Não deixa nada a dever a nenhuma empresa do mundo, porque a gente tem tecnologia de informação. Entrou bastante, acho que em dois centros, principalmente a parte de monitoramento, planejamento e na parte de relacionamento com o cliente. O método construtivo, o como fazer, não mudou muito. A gente tem algumas demandas com o Senai também para desenvolvimento com inteligência artificial.