O hexa, para essa geração, é a chance de ver a Seleção brasileira campeã pela primeira vez em suas vidas (Imagem gerada por IA) Ronaldo Fenômeno comemorando os gols na final, Cafu levantando a taça com a bandeira do Brasil nas costas e Ronaldinho Gaúcho encantando o planeta. Para muita gente, essas são memórias inesquecíveis. Para quem nasceu depois de 2002, são histórias herdadas. Uma geração inteira cresceu ouvindo pais, avós e tios falarem sobre o pentacampeonato como quem relembra um momento histórico da família. O Brasil segue como o maior campeão do mundo, mas há 24 anos os jovens torcedores convivem com uma realidade curiosa: amar uma Seleção que nunca viram ser campeã. Após a derrota para a Noruega no último domingo, eles viram o sonho ser adiado por mais quatro anos. Entre álbuns de figurinhas, vídeos no YouTube, cortes no TikTok e reuniões familiares a cada quatro anos, eles construíram a própria relação com o futebol e alimentam o mesmo sonho das gerações anteriores: finalmente testemunhar o hexa. O título pelas telas Se os pais guardam lembranças na memória, a geração pós-2002 guarda links, vídeos e documentários favoritos. Foi pela internet que muitos conheceram os gols de Ronaldo, a genialidade de Ronaldinho e a campanha que levou o Brasil ao quinto título mundial. A social media Luana Ricci, de 22 anos, admite que existe uma mistura de admiração e frustração ao acompanhar essas conquistas apenas pelas telas. “Acaba sendo um pouco triste ver esses momentos só por vídeos, porque eu não tive a sensação que meus pais tiveram. Não pude vibrar ainda por uma Copa. Quem sabe daqui a quatro anos.” Para ela, a internet aproximou sua geração da história da Seleção. “Conseguimos ver toda a história da Seleção Brasileira por vídeos e fotos. Se fosse só contada pelo meu pai, ele não teria imagens da época para me mostrar. As imagens acabam influenciando também a nossa visão do que era ser craque naquele tempo.” Ao mesmo tempo, Luana acredita que nenhum vídeo substitui a experiência de viver um título em tempo real. “A sensação é totalmente diferente. Eu nunca pude vibrar uma Copa do Mundo como meus pais vibraram em 2002. Acho que hoje eu estaria mais tranquila em relação ao hexa se já tivesse visto a Seleção Brasileira ser campeã”. Entre os amigos da mesma faixa etária, existe até um sentimento compartilhado. “O dia em que vivermos esse momento vai ficar guardado para sempre na memória. Poder contar isso para as minhas próximas gerações vai ser incrível”. Nem Gabriel e tampouco Luana viram o Brasil ser campeão mundial (Arquivo Pessoal) De geração em geração Se a internet apresentou o penta para muitos jovens, a paixão pela Seleção continua começando dentro de casa. O estudante de jornalismo Gabriel Dias Carlos de Jesus, de 22 anos, do Jardim Aloha, em Praia Grande, aprendeu a amar o futebol por influência do avô, Antônio Carlos Neto, que acompanhou todas as cinco conquistas brasileiras. “É sempre mágico ouvi-lo comentar sobre cada esquadrão, cada time que o Brasil teve.” Foi também com ele que Gabriel desenvolveu uma relação que vai além dos jogos disputados a cada quatro anos. “Ele me apresentou ao futebol e me fez desenvolver esse sentimento patriota, de acompanhar a Seleção não só na Copa do Mundo, mas vestir a camisa verde e amarela e cantar o hino nacional”. As comparações entre as equipes atuais e os craques do passado fazem parte da rotina familiar e, às vezes, rendem debates acalorados. “Isso existe muito e me deixa até um pouco estressado, porque era outro futebol. Quando falam de Ronaldinho e Ronaldo, estamos falando de jogadores incontestáveis. Mas a seleção de 2002 também chegou cercada de dúvidas e cresceu durante a competição”. Para ele, a principal herança dessas conversas não está necessariamente nos títulos, mas no sentimento coletivo que o futebol desperta. “Por 90 minutos, o povo brasileiro é um só. São milhões de pessoas acompanhando uma seleção e buscando uma taça, que é a maior obsessão do futebol. É o sentimento de pertencer a algo maior”. Ver o Brasil conquistar o hexa pela primeira vez significaria, segundo Gabriel, realizar um sonho que acompanha sua geração desde a infância. “Seria tirar um peso das costas. Eu escuto brincadeiras porque nunca vi o Brasil campeão do mundo. Depois do 7 a 1, da Bélgica e da Croácia, imaginar o Brasil conquistando a sexta estrela é algo que arrepia”. A memória que ainda falta O futebol brasileiro sempre foi construído por histórias passadas de geração em geração: de Pelé para Romário, de Romário para Ronaldo, de Ronaldo para quem cresceu ouvindo sobre o penta sem tê-lo vivido. Agora, cabe aos herdeiros dessa tradição escrever o próximo capítulo. Quem sabe em 2030?