Para quem nasceu na era digital, estar conectado faz parte da rotina (Imagem ilustrativa/FreePik) A promessa é sempre a mesma: “só mais cinco minutos”. Mas basta um vídeo, um Reels ou uma sequência de mensagens para que meia hora passe sem que a gente perceba. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Para quem nasceu na era digital, estar conectado faz parte da rotina. As redes sociais aproximam pessoas, ajudam nos estudos, criam oportunidades de trabalho e mantêm amigos e familiares por perto. Ao mesmo tempo, também levantam uma dúvida cada vez mais comum entre os jovens: ainda usamos as redes por que queremos ou por que sentimos que precisamos? ENTRE A CONEXÃO E O EXCESSO A estudante Eloah Silva Carvalho, de 17 anos, moradora da Aviação, em Praia Grande, calcula passar entre quatro e seis horas por dia no TikTok, Instagram e WhatsApp. Ela acredita que as redes sociais trazem benefícios, como acesso rápido à informação e facilidade para se comunicar, mas reconhece que o excesso já trouxe consequências para sua rotina. "Em alguns momentos, percebi que fiquei mais tempo do que deveria nas redes, principalmente à noite, e isso acabou atrapalhando meus estudos e meu sono”. Para tentar mudar esse hábito, Eloah passou a limitar o tempo de uso e utilizar aplicativos que monitoram o tempo de tela. “No começo foi difícil, mas com o tempo consegui melhorar um pouco meus hábitos”. Mesmo assim, admite sentir uma pressão constante para estar conectada. “Parece que sempre há alguma coisa acontecendo e, quando ficamos offline, sentimos que estamos perdendo algo”. Ainda assim, acredita que é possível encontrar equilíbrio. “As redes podem fazer parte da rotina, mas sem ocupar todo o nosso tempo”. MUITO ALÉM DO LAZER Para a analista de sistemas Brenda Noronha Ribeiro, de 25 anos, moradora da Vila Belmiro, em Santos, as redes sociais já deixaram de ser apenas entretenimento. Ela estima passar cerca de dez horas por dia conectada, principalmente no WhatsApp e no Instagram, e explica que, depois de entrar no mercado de trabalho, passou a enxergar as plataformas também como uma ferramenta profissional. “Hoje, meu ciclo profissional está nas redes sociais e acabo filtrando muito mais o que publico”. Ao mesmo tempo em que reconhece as oportunidades de networking e construção de portfólio, Brenda também percebe os efeitos negativos do excesso. “As redes ajudam muito, mas também podem gerar distração e comparação. Muitas pessoas vendem uma vida que não vivem e isso pode causar a sensação de que estamos atrasados profissionalmente”. Ela conta que, em alguns momentos, sente necessidade de fazer um verdadeiro “detox digital”. “Às vezes preciso me afastar das redes para conseguir focar na minha rotina. Elas acabam afetando até o meu sono por causa dessa dopamina rápida que proporcionam”. Apesar disso, acredita que viver completamente desconectado já não faz sentido. “As redes são uma ferramenta excelente, mas precisam ser usadas com equilíbrio. Hoje, muita gente vive em função do que vai publicar e acaba deixando de viver a experiência para registrá-la”. QUANDO O USO VIRA UM PROBLEMA? Para a psicóloga Márcia Atik, a discussão não deve ser sobre demonizar as redes sociais, mas entender o papel que ocupam na vida de cada pessoa. Segundo a especialista, elas já se tornaram parte da forma como a sociedade se comunica, trabalha e acessa informações. Eloah (à esquerda) reconhece que o excesso de horas on-line chega a ser prejudicial. Para Brenda (à direita), alguns “vendem uma vida que não vivem” nas redes (Arquivo pessoal) “Elas (as redes) são uma ferramenta de comunicação e inclusão. O problema começa quando passam a ser a única forma de existir, de se relacionar e de estar conectado, substituindo completamente o contato presencial”. Ela explica que não existe uma quantidade de horas capaz de definir quando alguém desenvolveu uma relação prejudicial com as plataformas. “O comportamento passa a ser preocupante quando deixa de ser uma escolha e se transforma em um hábito automático, uma fuga ou uma tentativa de aliviar a solidão e o sofrimento”. Entre os jovens, o cuidado precisa ser ainda maior. De acordo com Márcia, essa fase da vida é marcada pela construção da identidade e pelo desejo de pertencimento, fatores que podem tornar as comparações nas redes ainda mais intensas. “Quando esse processo acontece apenas pelas redes sociais, surgem comparações constantes, necessidade de validação e um sentimento de solidão que nem sempre aparece para quem está de fora”. A psicóloga ressalta que o algoritmo também influencia esse comportamento ao oferecer conteúdos cada vez mais semelhantes aos interesses do usuário. “Essa sequência quase infinita de informações pode aumentar a ansiedade e dar a sensação de que precisamos acompanhar tudo o tempo inteiro”. O DESAFIO É RETOMAR O CONTROLE Segundo a psicóloga, criar momentos longe das telas, valorizar encontros presenciais e estabelecer limites para o uso das redes são atitudes que ajudam a construir uma relação mais saudável com o ambiente digital. No fim das contas, a resposta para a pergunta “dependência ou necessidade?” talvez esteja justamente no equilíbrio. As redes sociais fazem parte da vida de uma geração inteira e dificilmente deixarão de existir. O desafio não é abandonar a tecnologia, mas garantir que ela continue ocupando o lugar de ferramenta, e nunca o de protagonista da própria vida.