Para o engenheiro Rafael, o budismo acompanha sua história desde a infância; a história da advogada Bruna com a umbanda começou em um período de dificuldade (AdobeStock e arquivo pessoal) A fé pode chegar de diferentes formas: família, curiosidade ou até em momentos difíceis. Independentemente do caminho, a espiritualidade pode se tornar parte das escolhas cotidianas, influenciando a maneira de lidar com desafios, construir relacionamentos e imaginar o futuro. Na Baixada Santista, três jovens mostram que a religião vai além dos espaços de culto. Para eles, a fé também se manifesta nas atitudes, no respeito ao próximo e na busca por uma vida com propósito. Escolha Aos 15 anos, o estudante André Silva Barros, morador do Jardim Princesa, em Praia Grande, cresceu em uma família católica. Apesar de frequentar a igreja desde pequeno, foi por iniciativa própria que passou a compreender mais profundamente a religião. O interesse surgiu quando começou a estudar filosofia e a buscar respostas para dúvidas sobre a existência e o sentido da vida. Influenciado também pelo pai, André passou a pesquisar sobre Deus e a refletir sobre uma fé que, até então, ainda não havia sido plenamente compreendida por ele. “O que me fez acreditar em Deus não foi uma experiência específica, mas sim pesquisar e buscar conhecer mais as dúvidas que pairavam na minha vida”, conta. O estudante diz que aprendeu a enxergar situações cotidianas de outra maneira, exercitando o perdão e o acolhimento. Porém, a convivência religiosa também trouxe desafios. Ele relata já ter enfrentado comentários de outros cristãos que classificavam os católicos como idólatras. Diante dessas situações, prefere conversar e esclarecer os estereótipos sobre sua crença. Acolhimento A história da advogada Bruna Augusto Chaves de Freitas, de 27 anos, com a Umbanda começou em um período de dificuldade. Moradora do Canto do Forte, em Praia Grande, ela cresceu em uma família que se identificava com o espiritismo kardecista, mas se aproximou da Umbanda aos 14 anos, quando enfrentou uma doença prolongada. Segundo Bruna, após passar por diversos médicos sem um diagnóstico conclusivo, sua família recebeu a indicação de conhecer um terreiro. Já na primeira visita ela conta que se sentiu acolhida e, a partir dali, passou a frequentar os trabalhos religiosos com os pais. “E assim, a menina que entrou literalmente carregada no terreiro, saiu de lá andando e saltitando”, relembra. A identificação também veio acompanhada do interesse em aprender. Bruna participou do projeto Umbanda Mirim, iniciativa de sua casa religiosa voltada ao estudo dos princípios, da história e dos fundamentos da religião. Hoje, integra a equipe que orienta os novos participantes. Entre os aprendizados estão a caridade, a humildade, a honestidade, a justiça e o respeito às diferenças. Para ela, seguir uma religião significa buscar colocar esses valores em prática, inclusive nos momentos em que é necessário reconhecer os próprios erros. “Somos seres humanos falhos e logicamente que erramos todos os dias”, observa. Por isso, Bruna entende a espiritualidade como um exercício constante de reflexão sobre as próprias atitudes. Tradição Para o engenheiro civil Rafael Cardoso Diniz, de 26 anos, morador da Vila Valença, em São Vicente, o Budismo de Nichiren Daishonin acompanha sua história desde a infância. A prática começou com o avô paterno, em 1969, passou pelos pais e chegou a ele e às irmãs. Rafael define o budismo como uma bússola para suas escolhas. A filosofia, segundo ele, o incentiva a cultivar objetivos pessoais e a trabalhar diariamente pela própria felicidade e pela felicidade das pessoas ao redor. Um dos princípios que mais influenciam sua vida é a busca pela harmonia familiar, além disso, a espiritualidade também orienta sua maneira de se relacionar com outras pessoas. Como homem cisgênero, pardo e homossexual, ele afirma ter encontrado um espaço em que se sente respeitado. “Essa é justamente a missão do Budismo: expandir a paz e a esperança no local em que vivemos e no coração das pessoas”, diz. Ele também não enxerga a religião como algo separado dos estudos ou da carreira profissional. Pelo contrário: acredita que os ensinamentos e as reflexões desenvolvidos na prática religiosa podem ser aplicados aos debates sociais, políticos e ambientais que atravessam a juventude.