Publicidade apostou na música por muitas décadas para vender automóveis, com letras lembradas até hoje (Pixabay) Dirigir ouvindo algo é certamente tão natural quanto o automóvel ter quatro rodas. Anunciar a venda de modelos dos mais diversos por intermédio dos jingles, aquelas músicas das propagandas de rádio ou TV, foi um método muito utilizado ao longo do tempo, em especial até os anos 1990. Ligar o rádio e ouvi-los era como se a parada de sucessos não tivesse ido para o intervalo na programação. “Eles eram pensados como música e não simplesmente como peças publicitárias, que era a razão deles existirem. E aí você percebe a qualidade completamente diferente. A publicidade e o jingle especificamente sempre refletiram os movimentos culturais da época. Então, de certa maneira e sem nenhum tipo de saudosismo, a qualidade do que se produzia em termos de música nas décadas passadas era muito superior ao que se tem hoje”, analisa o publicitário santista Fábio Barbosa Dias. Diante disso, a popularidade dos carros ficava ainda maior do que já era em razão dos jingles. A situação, inclusive, remete a uma interessante comparação ao que acontece na internet com relação a qualquer produto, lembra Dias, formado em Publicidade e Propaganda pela ESPM de São Paulo, além de ter pós-graduação em administração de marketing e mestrado em comunicação pela Universidade Estadual de Londrina, no Paraná, cidade na qual é radicado. “Hoje, a gente está habituado a, por exemplo, abrir o Instagram. Lá há um post que vai ser consumido em segundos e ninguém mais vai olhar para aquilo. Não conheço ninguém que acorde de manhã e, na hora, venha à cabeça um anúncio que viu em uma postagem observada no dia anterior. Com o jingle ou uma música é diferente: muitas vezes você levanta com aquilo na cabeça, mas é algo que já saiu do ar há décadas”, explica o também autor do livro Jingle é a alma do negócio - A História e as Histórias das músicas de propaganda e de seus criadores (Panda Books). A bossa nova embalou uma série de jingles da Volkswagen nos anos 1960 (entre 1965 e 1967), todos de autoria de Walter Santos. O compositor, cantor e instrumentista nasceu na cidade de Senhor do Bonfim, na Bahia, e cresceu na vizinha Juazeiro, onde se tornou amigo e parceiro de João Gilberto, responsável por deflagrar o famoso movimento musical. O primeiro foi para o Fusca - ou melhor para o Sedan ou Volkswagen, como era chamado na época, depois de vencer uma concorrência para criar um jingle de uma campanha da agência Alcântara Machado para a montadora. Chamá-lo de besouro e besourinho na letra remeteu ao nome do automóvel como era conhecido no exterior: Beetle - como se chama o inseto em inglês. Já o do Karmann-Ghia era calcado na união de esportividade e elegância que o carro possuía, com a vantagem de ser fabricado pela Volkswagen. O da Kombi Luxo fugia ligeiramente da fórmula musical, porém valorizava as qualidades do veículo, que tinha capacidade de carregar até nove pessoas e outros objetos essenciais para uma viagem. Por outro lado, o jingle do Fusca com teto solar, embora com lindos versos também na base da bossa nova, esbarrou na emérita vocação do brasileiro para fazer graça com tudo. A piada não foi com a letra do jingle, mas sim com o produto. A vantagem de se tomar sol enquanto se dirigia e dos passageiros observarem o céu durante o trajeto fez com que o veículo fosse apelidado de Cornowagen. Na brincadeira, esse modelo teria sido desenvolvido para motoristas que tivessem “galhos na cabeça”. Inspiração a partir do carro da esposa Em 1987, o compositor Zé Rodrix recebeu uma encomenda de um jingle da Chevrolet para apresentar a linha de automóveis para o ano seguinte, após ser convocado para uma reunião de urgência na agência McCann Erickson. Detalhe: o pedido foi feito às 11h30 e teria de ser entregue às 15 horas. Aí é que veio a genialidade. Rodrix lembrou que a esposa Júlia tinha um carro da marca e, de cara, lembrou que era silencioso. As ideias foram sendo encadeadas, remetendo à velocidade e ao som do coração, mais alto do que o do motor. Tudo sem rimas nem preocupação com métrica. E virou um clássico. O próprio compositor, inclusive, aparece no comercial cantando no estúdio, durante a gravação do jingle. Tico Terpins, sócio de Rodrix na produtora de áudio Voz do Brasil, sugeriu uma providencial mudança em um dos versos do jingle. Originalmente, “Bate mais forte dentro de um Chevrolet” virou “Bate mais alto dentro de um Chevrolet”. “Ele lembrou que forte lembrava Ford. Aí mudaram. É um jingle maravilhoso”, conta o publicitário Fábio Barbosa Dias. Dez anos antes, em 1977, a mesma McCann Erickson havia sido solicitada também pela Chevrolet para criar uma campanha para mostrar as modificações da nova linha de veículos da montadora, a partir do slogan “Marca de Valor”. No meio dos criadores, todos craques, um se sobressaía no meio musical há tempos: César Camargo Mariano. Junto com Sérgio Augusto Sarapo, em parceria com Márcio Moreira, diretor de criação da agência, o maestro participou da criação de uma letra que ressaltava que a mudança era para valer, alterando a vida do consumidor da marca, e trazia envolvida em uma melodia empolgante.