Por ser muito recente, a IA suscita controvérsia quanto ao seu uso, em particular, na música (Divulgação) Área da ciência da computação dedicada a criar sistemas para realizar tarefas que normalmente exigiriam o conhecimento humano, a Inteligência Artificial (IA) também está entrando de cabeça na música, com programas que fazem de tudo. “Eles utilizam redes neurais avançadas para analisar padrões musicais e vocais, gerando novas composições e recriando timbres com alta fidelidade. Há três principais abordagens: a composição algorítmica, que cria melodias e harmonias; a síntese de voz, que imita a voz de cantores reais; e a modificação vocal, que permite transformar uma voz em outra”, afirma o educador musical bilíngue na Maple Bear, Rafael Alves Ferreira. Tecnologias como deep learning (subárea da IA e do machine learning - ou aprendizado de máquina - que se concentra no uso de redes neurais artificiais profundas para resolver problemas complexos) e modelos generativos, como os usados pelo Jukebox da OpenAI e pelo VALL-E da Microsoft, têm sido fundamentais para esses avanços, aponta o também diretor da Ferreira Music School. “Hoje, esses programas podem compor músicas em diferentes estilos, gerar letras coerentes, criar covers com a voz de artistas famosos e até simular performances inéditas de músicos falecidos. Além disso, a IA permite modificar e aprimorar vozes, tornando produções mais realistas e expressivas. Muitos artistas já utilizam essas ferramentas para explorar novas possibilidades sonoras”, afirma Ferreira. Vozes No campo das vozes, os avanços são ainda mais surpreendentes. Serviços como Kits.AI e Voicify permitem criar clones vocais de artistas famosos com apenas alguns segundos de áudio. “Já viu aqueles vídeos do 'Neymar cantando Sertanejo' ou da 'Xuxa cantando trap'? Tudo isso é possível graças a tecnologias como RVC v2 e So-VITS-SVC, que analisam e reproduzem características únicas de cada voz”, exemplifica o bacharel em Sistemas de Informação e desenvolvedor Backend da GBM Consultoria & Tecnologia, Mateus Rauli Giacoia Chioquetta. Ele também lembra que a IA está transformando a produção musical. Ferramentas como LALAL.AI separam instrumentos e vocais de qualquer música, enquanto o Adobe Podcast remove ruídos e melhora a qualidade de gravações caseiras com um clique. “Até o famoso Auto-Tune evoluiu: versões modernas, como o Antares Auto-Tune Pro, corrigem afinações de forma tão natural que muitos artistas usam sem que o público perceba”, comenta. “Essa tecnologia já vem sendo utilizada de forma criativa, como por exemplo a música "Heart on My Sleeve", com vozes clonadas de Drake e The Weeknd que viralizou antes de ser removida", recorda. Evolução na qualidade das vozes O educador musical bilíngue na Maple Bear, Rafael Alves Ferreira, acredita que o futuro prevê que, nos próximos anos, serão vistas vozes geradas por IA cada vez mais naturais e expressivas, além de composições personalizadas em tempo real. “Essas tecnologias devem se integrar ainda mais à produção musical, ao entretenimento e até a performances ao vivo. No entanto, também podemos esperar uma regulamentação mais rigorosa para evitar abusos e garantir que o avanço tecnológico beneficie tanto artistas quanto o público. A IA não substituirá a criatividade humana, mas será uma ferramenta poderosa para expandi-la”, acredita. Bacharel em Sistemas de Informação e desenvolvedor de software da Marimex Inteligência Portuária em logística integrada, Gabriel Pezzo de Magalhães de Abreu acredita que ainda não é possível afirmar com certeza se essa evolução continuará no mesmo ritmo ou se o mundo está se aproximando dos limites da arquitetura atual. “No entanto, a tendência é que as falhas sejam reduzidas e que as composições se tornem mais expressivas e naturais. Além disso, avanços em modelos generativos de áudio, como vocoders neurais e técnicas de síntese avançadas, indicam que a qualidade da modelagem sonora pode evoluir significativamente. Isso permitirá um controle mais preciso sobre os elementos musicais, resultando em sínteses mais realistas e na criação de timbres altamente personalizados”, projeta. Cada vez melhores, programas compõem músicas e aprimoram vozes (AdobeStock) Solução ou falta de arte? O músico e produtor musical Nando Bassetto, de 54 anos, afirma que não há como conter o lado bom da IA na música, mas é necessário olhos e ouvidos bem ligados no que ela trouxer de ruim, em razão da forma de uso da ferramenta por parte das pessoas, que nem sempre é a mais correta. “No começo, sempre a gente vai ter aquela barreira das pessoas achando que isso vai acabar com o emprego de muita gente no meio da música. Mas eu acredito que, em algum momento, vai haver uma solução. E a gente vai conseguir usar a Inteligência Artificial por um lado mais produtivo do que só apenas o lance da cópia e da preguiça”, comenta. Com 21 anos à frente do Play Rec Studio, no Bairro Encruzilhada, em Santos, e trabalhando com música desde 1990, o atual guitarrista da banda Garage Fuzz nunca teve problema com eventuais pedidos ligados ao tema justamente porque o espaço é muito mais voltado a bandas de rock e artistas alternativos. “Fiz pouquíssimos trabalhos com samba e sertanejo. E a cultura do rock é um pouco menos afetada por essa história de querer ser muito superficial, de copiar, de facilitar as coisas, de querer mudar a voz para ficar melhor. Pelo menos até o momento. Vamos ver para frente. E eu sempre tivesse esse pensamento ‘old school’ (antiga escola). Então, todo mundo me procura, mas já sabendo e querendo esse tipo de resultado, sem mascarar nada. Ou o cara sabe tocar ou cantar ou não”, conta. Arte ou não? Engenheiro de áudio no estúdio Dakota, no bairro Embaré, em Santos, Pedro Augusto Klincevicius, de 47 anos e trabalhando com música desde os 16, observa esse limite entre ética e criatividade gerado pela IA e vai além. “A IA levanta questões sobre autenticidade e direitos autorais. A colaboração entre humanos e IA pode ser vista como inovadora, mas também pode substituir criadores humanos, levantando preocupações éticas. Mas a grande pergunta seria: é arte? Não creio. Arte vem do sentimento. Sentimentos e arte são humanos. A IA é uma boa ferramenta, mas sem um artista não existe arte”, afirma. O profissional lembra que é comum que artistas solicitem o uso dessa tecnologia para melhorar ou alterar suas vozes, assim como muitas ferramentas usam IA para agilizar processos na gravação, edição e masterização. “A evolução desses programas pode levar a novas formas de expressão criativa, com IA auxiliando músicos em vez de substituí-los. A tecnologia está longe de atingir seu limite máximo, com potencial para transformar ainda mais a indústria musical”, finaliza.