Fotos, documentos, conversas particulares, senhas e até o dinheiro guardado no banco. Boa parte da vida das pessoas está concentrada em um único aparelho: o celular. Essa praticidade, porém, também transformou os smartphones em alvos de criminosos que utilizam aplicativos maliciosos, links falsos e diferentes estratégias para roubar informações e aplicar golpes. O perigo vai além de perder o aparelho em um assalto ou furto. Uma simples mensagem recebida pelo WhatsApp, um aplicativo aparentemente inofensivo ou uma página falsa na internet podem abrir caminho para o acesso indevido a informações pessoais e financeiras. Segundo a empresa de cibersegurança Kaspersky, aproximadamente 1,1 milhão de tentativas de ataques a dispositivos móveis foram bloqueadas no Brasil entre agosto de 2024 e julho de 2025 – média de 2,1 ataques por minuto. O pesquisador sênior de segurança da Kaspersky, Anderson Leite, explica que uma das principais ameaças atualmente são os chamados adwares, aplicativos que exibem publicidade de maneira agressiva, prejudicam o funcionamento do celular e podem abrir caminho para outras infecções. Também preocupam os programas espiões, capazes de monitorar atividades realizadas no aparelho, e os trojans bancários, desenvolvidos para roubar informações financeiras e permitir operações fraudulentas. Outra modalidade em crescimento é o SpyLoan, que utiliza falsos aplicativos de empréstimo para obter dados das vítimas e, em determinadas situações, bloquear funções do aparelho para exigir pagamentos. Na maioria dos casos, segundo Leite, a invasão começa com a instalação de aplicativos de origem desconhecida ou o acesso a links fraudulentos. Ao conceder permissões a um programa malicioso, como acesso a mensagens, contatos ou recursos de acessibilidade, o usuário pode permitir que criminosos monitorem atividades, interceptem informações e realizem fraudes</CW>. O coordenador do curso de Inteligência Artificial da Unisanta, Luis Fernando Bueno Mauá, diz que nem todo golpe depende da instalação de um vírus. Muitas vezes, os criminosos utilizam a chamada engenharia social, técnica que consiste em manipular a vítima para conseguir senhas, códigos de segurança ou informações confidenciais. “Um dos erros mais frequentes é confiar excessivamente nas mensagens e solicitações recebidas pelo celular, principalmente quando parecem ter sido enviadas por bancos, empresas conhecidas ou familiares”, alerta. Ele explica que mensagens sobre encomendas pendentes, compras suspeitas, bloqueio de contas e prêmios inesperados são exemplos de situações utilizadas para despertar medo ou criar uma sensação de urgência. A orientação é nunca utilizar o link recebido para resolver o suposto problema. O mais seguro é acessar diretamente o aplicativo oficial ou procurar os canais de atendimento da instituição. Inteligência artificial O avanço da inteligência artificial também tornou os golpes mais difíceis de identificar. A tecnologia permite criar mensagens bem elaboradas, reproduzir vozes e produzir imagens e vídeos falsos. De acordo com Anderson Leite, os criminosos utilizam a IA para automatizar o envio de mensagens fraudulentas e personalizar abordagens, aumentando as chances de enganar as vítimas. Mauá chama atenção para uma mudança importante: erros de português e mensagens mal escritas já não são os principais sinais de fraude. Para o especialista, proteger o celular exige uma combinação de ferramentas tecnológicas e cuidados diários. Manter o sistema atualizado, utilizar senhas diferentes para cada serviço e ativar a autenticação em duas etapas estão entre as medidas mais importantes. Wi-Fi e carregadores Conectar o celular a uma rede Wi-Fi grátis em aeroportos, shoppings ou restaurantes pode parecer inofensivo, mas exige cuidados. Criminosos podem criar redes falsas com nomes semelhantes aos de lojas conhecidas para direcionar usuários a páginas fraudulentas. A técnica é conhecida como evil twin, ou rede gêmea maliciosa. Segundo Luis Mauá, embora a maioria dos aplicativos e sites modernos utilize conexões criptografadas, o ideal é evitar operações bancárias sensíveis em redes desconhecidas e dar preferência à internet móvel. Outro cuidado envolve entradas USB em locais públicos. Existe uma modalidade de ataque chamada juice jacking, que tenta explorar a conexão usada para carregar o aparelho. Se for preciso utilizar uma entrada USB pública, deve-se manter o celular bloqueado, sem transferência de arquivo ou acesso a dados. Bateria pode ser alerta Um celular que trava constantemente, esquenta sem motivo ou tem consumo excessivo de bateria pode estar com algum programa malicioso instalado. Aplicativos desconhecidos e anúncios invasivos que surgem de forma repentina também merecem atenção. Para Anderson Leite, outro indício é o aumento inesperado no consumo de internet, pois determinados programas podem utilizar a conexão para transmitir informações sem conhecimento do proprietário. Luis Mauá ressalta que esses comportamentos não representam, isoladamente, confirmação de invasão. Problemas na bateria, aplicativos pesados e falhas no sistema também provocam sintomas semelhantes. O especialista recomenda observar atividades que não foram realizadas pelo usuário, como mensagens enviadas automaticamente e alterações nas configurações de segurança. (Reprodução)