O psiquiatra Pérsio de Deus diz que não há coragem no ato de proferir agressões na internet, “pois não existe enfrentamento no ‘virtual’. É um comportamento covarde de quem efetivamente não se expõe” (Imagem Ilustrativa/FreePik) As redes sociais se tornaram espaço de batalhas virtuais, onde a intolerância e a agressividade se espalham de forma progressiva e cada vez mais preocupante. É um campo minado de mensagens de ódio, com um detalhe: atrás das trincheiras digitais está um pelotão de covardes. Assim são definidos os ‘haters’ por especialistas em comportamento humano ouvidos por A Tribuna. A polarização da vez está relacionada ao filme Coringa: Delírio a Dois (Joker: Folie à Deux), do diretor Todd Phillips, estrelado por Joaquin Phoenix e Lady Gaga. O filme estreou nas salas de cinema na última quarta-feira (2) e, desde então, brotam opiniões diversas e ataques gratuitos contra quem gostou do longa-metragem, sejam espectadores ou críticos especializados. Entenda a polêmica O roteiro de Coringa: Delírio a Dois transita pela mente desequilibrada e perturbada do personagem Arthur Fleck/Coringa, interpretado por Joaquin Phoenix, que segue sofrendo abusos no Asilo Elizabeth Arkham, onde está preso e é, inclusive, estuprado. Lá, ele canta para tentar aliviar a dor emocional profunda que sente e recompor a sua sanidade. É também na instituição que ele conhece Harleen Quinzel, a Lee (Lady Gaga), uma versão alternativa da personagem Arlequina (Harley Quinn, original em inglês), por quem se apaixona. O relacionamento se desenrola entre a realidade e o delírio e é nessa montanha-russa emocional da mente atormentada de Fleck que o diretor Todd Philips encaixa a parte musical do filme. As cenas musicais alternam entre performances solo de Joaquin e de Gaga e números inspirados em coreografias e cenários que remetem à era de ouro dos musicais de Hollywood. Mas, toda essa construção bem estruturada e em total harmonia com o enredo do filme foge às origens de um dos vilões mais perversos do universo DC Comics, o que irritou fãs no Brasil e nos Estados Unidos. “Sinto-me zangado, triste, incrivelmente desapontado. Vocês arruinaram um dos meus Jokers favoritos de sempre. Joaquin era tão bom e você ainda arruinou”, declara um internauta. “Você destruiu o legado. Que vergonha!”, diz outro. Uma internauta que defende a produção comenta: “O que há de errado com as pessoas que odeiam esse filme? Eu acho que a maioria das pessoas apenas copia suas opiniões dos outros. Adorei o filme!” O médico psiquiatra Pérsio de Deus comenta que “o mundo está cada vez mais polarizado em posturas absolutistas para uma ou outra vertente dos fatos. Quando existe essa polarização quase que absoluta estamos perto do caos, onde não há espaço para o diálogo ou para opiniões discordantes de quem as tem. As pessoas estão influenciadas por um padrão de comportamento que lhes tira a lucidez”. O especialista afirma que “o ser humano não foi feito para viver do ódio; mas como (querendo ou não) somos reféns de agressões, desmandos, violências e medos. Alguns menos preparados existencialmente para viverem tais situações, as projetam em outras — como no caso do filme, dos esportes e em outras atividades de ‘embate’” O psiquiatra diz que não há coragem no ato de proferir agressões na internet, “pois não existe enfrentamento no ‘virtual’. É um comportamento covarde de quem efetivamente não se expõe”. “Infelizmente as polarizações ‘regradas’ a ódio não se limitam ao filme, mas corroem outros valores da humanidade”, afirma Pérsio. A psicóloga Luciana França observa que “as polarizações extremas de opiniões que temos vivenciado nos últimos tempos e a cultura de ‘cancelamento’ parecem ter intensificado a agressividade nas redes sociais, onde se busca punir, humilhar ou calar quem pensa diferente”. Sobre a onda negativa de manifestações, a psicóloga analisa que “participar de um grupo que se identifica por um padrão rígido e vê os demais por determinados rótulos ou estereótipos opostos pode reforçar a identidade de grupo e a conexão com outros que compartilham sentimentos semelhantes, criando um senso de comunidade e apoio. Além disso, o ódio expresso em comportamentos agressivos pode gerar uma sensação de poder e controle, trazendo a sensação de poder, mas de um poder perverso. A história tem mostrado isso, nas guerras e no nazismo, nos ataques às minorias que ainda testemunhamos hoje, por exemplo”. A psicóloga lembra que a agressividade já havia se tornado comum entre torcidas rivais de times de futebol e, agora, “faz parte do nosso cotidiano nos mais diferentes contextos”. “Algumas pessoas podem ser motivadas pela necessidade de se sentirem superiores, encontrando satisfação em causar sofrimento emocional aos demais. Mas tudo isso também sinaliza como nossa sociedade tem adoecido de forma preocupante, e se ter uma opinião diferente sobre um simples filme já vira motivo de ataques, parece que precisamos repensar sobre como perdemos o básico da humanidade, do respeito ao outro e da convivência social”, aponta. Sobre a ‘coragem’ em postar mensagens de ódio, Luciana diz que “a internet proporciona o anonimato e um certo distanciamento emocional. Isso pode levar as pessoas a se sentirem mais ‘encorajadas’ a expressar agressividade, pois não enfrentam as consequências diretas que teriam em uma interação real, especialmente quando estão por trás de perfis ‘fakes’. Além disso, as pessoas podem se esquecer de que há uma pessoa real do outro lado da tela, o que torna mais fácil desumanizar o outro e agir de forma agressiva”. A psicoterapeuta de Regressão Andréa Borges afirma que o comportamento agressivo nas redes sociais “reflete um fenômeno que vai além de um simples desacordo sobre um filme, como no caso do ‘Coringa: Delírio a Dois’. Vários fatores contribuem para essa onda de ódio e polarização como o anonimato digital, a desinibição na esfera online, a sensação de prazer ao expressar o ódio e identificação com o tema abordado”. A terapeuta destaca que “neste caso específico, vale ressaltar que, para alguns grupos, temas relacionados à cultura pop, como quadrinhos e cinema, têm uma ligação profunda com sua própria identidade. Quando uma obra desvia das expectativas, especialmente em casos de personagens icônicos como o Coringa, os fãs podem sentir que sua própria identidade está sendo atacada. Isso os leva a uma reação emocional exacerbada, expressada por meio da raiva”. Andréa menciona que “há inúmeros estudos realizados que sugerem que as pessoas podem sentir prazer no ódio, pois a agressão pode gerar uma sensação de controle, poder ou status, e em ambientes digitais, isso é amplificado. A raiva pode funcionar como um escape emocional, uma maneira de liberação de emoções reprimidas, especialmente quando canalizada em um espaço onde as pessoas não precisam se expor fisicamente e, muitas vezes, se utilizam de codinomes ou falsas identidades”. A profissional afirma que “o anonimato digital encoraja as pessoas a se expressarem de forma mais agressiva do que fariam em interações cara a cara. Isso potencializa as discussões que poderiam ser saudáveis transformando-as em confrontos acalorados e exacerbados, que ganham destaques em plataformas digitais que valorizam e disseminam conteúdos polêmicos”. Sobre a crescente polarização, Andréa diz que “não é apenas resultado das divergências de opinião, mas também da amplificação destas nas redes sociais. Além disso, o estresse e a insatisfação das pessoas com suas próprias vidas levam ao aumento da agressividade que muitas vezes é despejada nas plataformas digitais. Neste caso é apenas um filme, mas o que está em jogo, no entanto, é algo muito mais profundo: a forma como interagimos uns com os outros em um mundo cada vez mais digital e polarizado”. O que fazer quando você é o alvo? A psicóloga Luciana França observa que “algumas pessoas se afastam das redes sociais por um tempo quando estão sofrendo agressões virtuais” e orienta que fortalecer ‘as redes de apoio’ (virtuais e presenciais, como amigos e grupos que compartilham das mesmas opiniões) pode ser importante”. Ela pontua: “Lembrar que a agressão reflete, muitas vezes, mais sobre o agressor do que sobre a vítima é outra estratégia que pode ajudar a reduzir o impacto emocional. Porém, se as agressões causarem um impacto significativo na saúde mental, é uma boa opção procurar o apoio de um profissional”. Para a terapeuta Andréa Borges, “a melhor abordagem é não responder com agressividade, já que isso pode alimentar o ciclo de ódio. Algumas pessoas preferem usar a estratégia de desarmar o agressor com calma e argumentos racionais ou simplesmente bloquear o usuário em questão. Mas dependendo da gravidade das ofensas é preciso denunciar criminalmente o agressor”. Combate ao ódio na internet O psiquiatra Pérsio de Deus é taxativo: “A cultura do ódio não deve ser tolerada. E toda forma de manifestação deve ser coibida e punida com severidade pelos poderes constituídos”. Luciana pensa que “as próprias plataformas podem investir em tecnologias de moderação mais eficazes que identifiquem e reduzam discursos de ódio, bem como melhorar algoritmos que promovam conteúdos positivos e que rompam as ‘bolhas’. É responsabilidade de toda a sociedade criar espaços de diálogo, reflexão e informação sobre empatia, diversidade e a importância do respeito nas interações online e presenciais. Nas escolas, na imprensa, nas empresas, enfim, onde existem pessoas, existe o desafio do encontro com o outro”. Para Andréa, “é essencial que a sociedade e as escolas promovam ações de educação digital e a alfabetização emocional. As plataformas também precisam assumir um papel mais ativo na moderação de conteúdo tóxico e criar espaços que incentivem discussões mais saudáveis. O que infelizmente sabemos que não acontece, pois muitos desses canais se utilizam desse tipo de postagem sensacionalista para sobreviver no mundo digital”. O que abusos podem desencadear? Em relação ao perfil psicológico do personagem Arthur Fleck/Coringa, abordado por Todd Philips, o psiquiatra Pérsio de Deus afirma que “os abusos podem produzir diversos comportamentos, como levar o abusado à aniquilação física e psíquica (lembrem-se de Auschwitz); ou então, em algum momento o abusado se transforma em abusador podendo inclusive matar — não só o abusador! A profundidade da dor e da violência podem ter comprometido no cérebro qualquer vestígio de humanidade!” Ele complementa: “Os abusos podem atuar como ‘gatilhos’ para um comportamento violento latente; dirigido, inclusive, contra a própria pessoa ou a outras pessoas. Dependerá muito de como esse ódio se estruturou dentro da própria pessoa; mas ela se torna de certa forma ‘refém’ do abuso e da violência. Talvez, esse seja um caminho que as pessoas não desejam, olharem para dentro e contemplarem os próprios abusos sofridos! É mais fácil projetar em outras situações”.