Uma nova descoberta paleontológica coloca o Brasil em posição de destaque nas pesquisas sobre fósseis em uma região especial do planeta: a Antártida. Trata-se de uma nova espécie de peixe pré-histórico, o Antarctichthys longipectoralis, que viveu durante o período Cretáceo, há 80 milhões de anos. O feito rendeu um artigo publicado na conceituada revista britânica Nature. O mérito é dos pesquisadores da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), em parceria com o Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), em um processo que, desde que o fóssil foi encontrado, durou quase 6 anos - a descoberta foi na Formação Snow Hill Island, durante a expedição do projeto Paleoantar. “Encontrei um e-mail de setembro de 2021 a respeito desse fóssil. A coleta aconteceu em 2019, mas até o material chegar, ser triado no Museu, começou a pandemia e aí eu só tive realmente acesso em 2021”, afirma a bióloga e professora titular do Departamento de Zoologia da Uerj, Valéria Gallo. O Antarctichthys longipectoralis foi classificado na extinta família Dercetidae, composta por peixes de cabeça longa, corpo delgado e espinhos neurais bastante reduzidos. “O colega do Museu Nacional me mandou umas microtomografias por e-mail na época da pandemia e perguntou se eu me interessava pelo tema. Quando eu vi, falei ‘Eu quero, porque é material da Antártida’”, acrescenta a bióloga. Oportunidade Segundo ela, as imagens são importantes nesse trabalho por conservarem a integridade do material fóssil, uma vez que qualquer preparação, por mais técnica que seja, pode causar um dano. “Sabendo que já havia o material vindo da Antártica, por si só, já chama a atenção. E aí apareceu um fóssil muito bem preservado — normalmente, o material encontrado lá na Antártida é solto, como um dente de tubarão, ou fragmento ósseo. Tem uma ou outra ocorrência relativamente bem preservada, mas não com essa articulação, onde você vê um crânio e as vértebras muito fáceis de identificar”, acrescenta Valéria. Ela reforça que já havia a ideia de que pudesse ter algo relevante na Antártida, mas talvez não desse porte. “Geologia e paleontologia é assim: precisa tempo, dedicação, mexer no que já se sabe. Então, eles ficaram um bom tempo pesquisando, olhando o material, batendo na rocha e martelando até que acharam esse fóssil. Não se sabia que ia achar isso ali. Mas o importante é que eles viram, coletaram, acharam que era importante e fizeram a coisa certa”. Anatomia Valéria Gallo entende que a parte mais difícil da jornada foi a análise anatômica. “A gente precisa de anatomia comparada com esqueletos atuais. O osso, claro, nunca é idêntico, mas você usa como um análogo moderno comparativo. Isso nos custou mais de um ano de trabalho”, descreve. Na microtomografia são feitos os chamados cortes, partindo da superfície “para dentro”. “Tem estruturas anatômicas que você não vê na superfície. Só entrando no crânio, na coluna vertebral, para ver mais detalhes”. No total, foram gerados mais de 2 mil microtomografias do fóssil, que serviram de base para a segmentação digital e posterior modelagem em 3D. Esse modelo pode ser compartilhado por meio do serviço de nuvem digital com outros museus, impresso em diferentes escalas e utilizado para complementar outros estudos ou para exposições. Os pesquisadores estimam que o espécime vivo media entre 8 a 10 centímetros de comprimento. Descoberta anima pesquisadores A análise revelou características inéditas no Antarctichthys: nadadeiras peitorais longas, ausência de dentes e uma conexão otofísica no neurocrânio — estrutura que liga o ouvido interno e crânio, relacionada à condução sonora e ao equilíbrio. “As ocorrências desse grupo ao qual a espécie nova pertence são basicamente no hemisfério norte. E no primeiro momento, quase nada no hemisfério sul. O mar que a gente descreve era um mar quente, ou bem ameno, quase tropical, subtropical. E se a gente não acha talvez uma ocorrência desse tipo lá na Austrália, por exemplo? É uma dica”, vislumbra Valéria Gallo. Ela lembra que uma nova expedição à Antártida será realizada a partir de dezembro deste ano. A publicação na Nature, no seu entender, é a mostra da qualidade do trabalho de pesquisa feito no Brasil. “É um artigo que tem uma repercussão boa, muito bem feito, assim, com muita dedicação, com muito empenho, sai numa revista boa, de impacto internacional. É legal isso para a gente. Mostra que o Brasil faz pesquisa boa, ciência de ponta”, complementa.