Entregas por drones crescem em todo o mundo, incluindo o Brasil, e tentam superar barreiras regulatórias (Divulgação) Entregar produtos por drones pode parecer algo muito futurista, mas eis que esse futuro já bate à porta. O que impede que o serviço aconteça com mais frequência em qualquer lugar do mundo, incluindo o Brasil, são as barreiras regulatórias. Apesar disso, a demanda pelo serviço tem crescido no País. “Na China, essa tecnologia já está bem mais avançada do que em outros países. O cliente faz o pedido pelo aplicativo, colocando como opção a entrega por drones, pois, dessa forma, deve especificar o ponto de entrega do pedido. Com isso, o pedido chega até o restaurante, que logo despacha a encomenda pelo equipamento e programa sua entrega na base indicada pelo cliente”, explica Nelson Damasio, CEO da NSA Soluções Aéreas Inteligentes, que tem sede em Praia Grande. Damasio também cita Canadá e Japão como usuários dessa tecnologia. “O Canadá utiliza esse serviço de entrega devido às distâncias enormes e comunidades isoladas. Já no Japão, é utilizado para atender áreas rurais e montanhosas”, afirma. O hobista em aeromodelismo, eletrônica, programação e desenvolvimento de drones, Alexandre Michelano Bubel, lembra que a única empresa com testes ativos que ele conhece é a norte-americana Amazon, que tem no e-commerce um de seus ramos de atividade. E isso acontece em cidades pouco populosas. “O motivo é que drones não fazem parte do espaço aéreo e não há qualquer previsão para uma regulação. Drones só podem voar em espaços onde qualquer aeronave não pode estar. A matéria é complicada. Mesmo nos Estados Unidos, onde testes de drones autorizados excepcionalmente foram vistos por transeuntes e criaram pânico, até o governo confirmar que eram testes autorizados”, argumenta. Bubel lembrou que viu uma entrega com drone realizada em Camberra, capital da Austrália. “Eu estava em uma chamada de vídeo com um amigo, quando o filho dele encomendou um café e um croissant que foram entregues por um drone. O celular avisou que a aeronave estava próxima, ele saiu no jardim e, logo, ela estava se aproximando. Uma sacolinha de papelão foi descida com a encomenda, ele a pegou, o drone recolheu o cabo e foi embora. Mas o serviço durou menos de um ano, ainda estão em testes”, relembra. Bubel também lembrou que drones são usados para entregas emergenciais de remédios em áreas que ficam regularmente isoladas por eventos climáticos de inverno na Noruega e na Suécia. Ele também citou que, em locais remotos e distantes, sem hospitais, da África, grandes drones de asa fixa são usados para transporte de remédios e amostras para exames. “Já em áreas de grande adensamento populacional, o uso de drones é mais complicado: são grandes, barulhentos e perigosos”, compara. Segundo Alexandre Lopes, setores específicos estão interessados nessa forma de transporte (Divulgação) No Brasil Embora já tenham sido realizadas algumas entregas experimentais em Campinas, por parte do iFood, Nelson Damasio acredita que exista um longo caminho pela frente no Brasil, devido à legislação sobre espaço aéreo, limitação de peso, distância, além do clima, dentre outras questões. “Mas já estamos avançando”, afirma. A excessiva burocracia do País e a falta de conhecimento por parte de quem legisla o tema são os pontos apontados por Alexandre Michelano Bubel para que a tecnologia se desenvolva. “A vanguarda tecnológica dos drones está aberta em projetos open source (origem aberta) e free software (programas grátis), e são indivíduos, não grandes empresas, que fazem o avanço tecnológico. Com as restrições que existem no Brasil, não é possível ser competitivo nesta área. Se apenas voar um drone no Brasil é difícil, voar e fazer testes de aeronaves de ponta é impossível. Sem contar que legisladores e reguladores são completamente ignorantes no assunto, com capacidade técnica abaixo de zero”, reclama. Demanda em crescimento O crescimento da demanda pelo uso de drones para delivery cresceu de forma acelerada de, pelo menos, um ano e meio para cá, afirma o CEO da empresa Drone Visual, Alexandre Lopes. Isso aconteceu, segundo ele, impulsionado por quatro fatores em especial: necessidade de otimização logística, busca por alternativas sustentáveis, avanços tecnológicos que tornaram os drones de transporte mais seguros e precisos, e pressões do mercado por entregas mais rápidas e soluções inovadoras. “Empresas de logística, construção civil, e-commerce, farmacêuticas, hospitais, serviços de entrega, agricultura, entre outros segmentos que necessitam transportar cargas do ponto A ao ponto B, estão entre as principais interessadas nessa tecnologia”, afirma. A principal alegação dessas empresas, de acordo com Lopes, é a necessidade de otimizar suas operações logísticas, com destaque para o transporte rápido, seja de equipamentos, medicamentos, amostras biológicas e suprimentos essenciais em diversas regiões. “Essa tecnologia tem sido cada vez mais adotada por empresas inovadoras que buscam diferenciação competitiva e práticas sustentáveis, uma vez que o uso de drones pode reduzir significativamente o impacto ambiental em comparação com os meios tradicionais de transporte terrestre”, argumenta. “Esses setores veem nos drones uma solução para aumentar a eficiência, reduzir custos operacionais e agilizar o atendimento em locais críticos ou afastados”, emenda. Modelo e futuro Um modelo desenvolvido especialmente para operações envolvendo entregas de cargas é o DJI FlyCart 30, fabricado pela DJI, empresa com sede na China, justamente o maior palco de avanço dessa tecnologia. Para se ter uma ideia, ele possui capacidade de carga de até 40 kg, usa caixa de carga fixa ou guincho com sistema de içamento, permitindo flexibilidade para diferentes tipos de operação, e tem alcance de voo de até 28 km com carga padrão. Dentre os diferenciais, o DJI FlyCart 30 possui sistema de paraquedas de emergência, aumentando a segurança em operações urbanas, resistência à chuva forte e poeira, e transmissão de imagens em tempo real. “A tendência é que, nos próximos anos, os drones se tornem uma parte estratégica das operações logísticas, realizando entregas rápidas com muita facilidade. A integração entre drones e sistemas inteligentes possibilita operações mais eficientes, com menor necessidade de intervenção humana e máxima segurança. Acredito que, em breve, a entrega por drones será uma realidade consolidada”, projeta o CEO da Drone Visual, que tem sede em São Paulo. Setores que mais requisitam Logística e Transporte: empresas especializadas em soluções logísticas estão utilizando drones para otimizar o transporte de cargas leves e médias, reduzindo o tempo de entrega e os custos com transporte tradicional. Saúde e Farmacêutico: transporte de medicamentos, vacinas, bolsas de sangue e amostras laboratoriais, especialmente para regiões remotas ou de difícil acesso. E-commerce: entrega rápida de pequenos a médios volumes de mercadorias, visando reduzir prazos de entrega e custos logísticos. Construção Civil: transporte de ferramentas, materiais leves e equipamentos entre diferentes pontos de obras, otimizando o tempo e a logística em grandes canteiros de obras. Agronegócio: entrega de insumos, peças de reposição e equipamentos agrícolas em propriedades rurais extensas, onde o transporte tradicional seria mais demorado ou custoso. Emergências e Defesa Civil: entrega de suprimentos emergenciais, como alimentos, água e kits de primeiros socorros, em áreas afetadas por desastres naturais ou inacessíveis por vias tradicionais.