Mariana conta que aprendeu a reconhecer os próprios limites em meio às tarefas; Julia admite que as redes sociais são um problema e procura evitá-las (Arquivo Pessoal) “Você não deve viver a vida como outras pessoas esperam que você viva; tem que ser sua escolha, pois quando estiver lutando, você estará sozinho”. A frase atribuída a Alice, no livro Alice no País das Maravilhas, resume um dilema cada vez mais presente entre os jovens nos momentos de pressão e decisão comuns nessa época da vida: até que ponto as escolhas são realmente próprias e quando passam a ser respostas às expectativas dos outros? Ser jovem deveria ser também uma fase de descobrir quem você é, o que gosta e quais caminhos quer seguir. Mas, na prática, a sensação muitas vezes é outra: é preciso tirar boas notas, definir uma boa profissão, entrar na faculdade, conseguir um estágio e, de preferência, fazer tudo isso antes dos 20 anos. A cobrança pode vir da escola, da família e até do próprio jovem. Nas redes sociais, ela ganha mais uma camada: a comparação constante com pessoas que parecem estar sempre à frente. Jovens descobrem que construir o próprio caminho também significa respeitar o próprio tempo (AdobeStock) Quando a comparação pesa A estudante Julia de Paula Ribeiro, de 17 anos, moradora do bairro Aviação, em Praia Grande, está no 3º ano do Ensino Médio e vive justamente uma das fases em que o futuro parece bater à porta o tempo todo. Para ela, a cobrança pela entrada na universidade se mistura à pressão interna típica dessa etapa. Apesar disso, Julia conta que sua escola trabalha o chamado “projeto de vida” desde o início do Ensino Médio, sem exigir que os alunos tenham uma escolha definitiva já no 3º ano. As redes sociais, por outro lado, são um ponto mais delicado. “Sempre evito ver o Instagram por esse motivo. Se sei que vou me sentir mal, eu evito”, conta. Para a psicóloga Márcia Atik, essa comparação pode ser prejudicial quando o jovem passa a usar como referência uma ideia de sucesso que não necessariamente combina com seus próprios desejos. “O sucesso é ter a realização pessoal e isso é algo individual”, afirma. Na faculdade, a cobrança muda Se no Ensino Médio a preocupação está ligada ao vestibular e à escolha profissional, a chegada à faculdade traz novas responsabilidades. É o que sente Mariana Kuhlmann Sonim, de 19 anos, moradora da Vila Belmiro, em Santos. Universitária e estagiária, ela conta que, depois de entrar na graduação, percebeu que a pressão não desaparece. Ela apenas muda de forma. Conciliar estudos, estágio, vida pessoal e família também exige escolhas. Em alguns momentos, uma das áreas acaba ficando de lado. Mariana já precisou faltar à faculdade por sair mais tarde do estágio e estar cansada, além de resolver tarefas acadêmicas enquanto trabalhava. Para ela, aprender a reconhecer os próprios limites foi uma das principais lições dessa fase. “Saber a hora que mais nenhuma informação consegue adentrar seu cérebro é importante também. É bom se conhecer e entender quando simplesmente não dá mais”, relata. Não precisa dar conta de tudo A sensação de precisar ser boa em todas as áreas ao mesmo tempo é comum entre os jovens. Mariana acredita que isso também tem relação com a própria geração, que parece ter pressa para conquistar tudo. A busca por uma carreira de sucesso, uma rotina equilibrada, boas experiências e uma vida social ativa pode acabar transformando o descanso em culpa. Márcia explica que sinais como excesso de sono, apatia, abandono de atividades e negligência com compromissos podem indicar que o jovem está chegando ao seu limite emocional. Ela ressalta que esses sinais não significam necessariamente uma depressão, mas merecem atenção. Por isso, família, professores e amigos têm um papel importante. Mais do que identificar quando algo está errado, é preciso criar espaço para conversar. Cada um tem seu tempo Para Julia, uma das formas de tornar essa fase mais leve é diminuir a comparação. “Cada pessoa tem seu tempo e seu ritmo, e tá tudo bem se o seu for diferente do meu. Nossos contextos são diferentes e as oportunidades também”, diz. A psicóloga segue uma linha parecida. Segundo ela, ajudar o jovem a construir um propósito de vida pode fazer com que os esforços deixem de ser apenas uma resposta às expectativas dos outros. O equilíbrio também passa por momentos de lazer. Esportes, caminhadas, corridas, praia e outras atividades ajudam a recuperar as energias e contribuem para o bem-estar físico e psicológico.