Especialista diz que o aumento do estresse, ansiedade e depressão em jovens sofre influência direta do uso indevido das telas e tecnologias (Freepik) Quem convive com adolescentes, certamente já se deparou com frases pouco agradáveis ou respostas atravessadas. Ou mesmo lágrimas em profusão, acompanhadas de risos nervosos. O estresse e a ansiedade desafiam os mais jovens – e seus pais – a viabilizarem uma boa convivência, com entendimento e acolhida. Esse panorama pode ser demonstrado em alguns números. Dados da Rede de Atenção Psicossocial (Raps), vinculada ao Sistèma Único de Saúde SUS, revelam que, em 2023, a taxa de jovens de 10 a 14 anos atendidos por transtornos de ansiedade atingiu 125,8 a cada 100 mil; e, entre adolescentes, 157 a cada 100 mil. Para o Psicólogo e Doutorando em Saúde Pública pela Unisantos, Wagner Tedesco, as causas do estresse em jovens são multifatoriais. “Se não bastasse a fase em que vivem, onde sofrem transformações emocionais e de desenvolvimento e estruturação de sua personalidade, onde seu cérebro passa por um momento de reorganização intensa, deixando-o mais exposto e sensível as questões sociais e ambientais”, afirma. Segundo ele, podem ser acrescentados nesse ‘caldeirão’ as pressões e cobranças familiares, da vida escolar/acadêmica, as expectativas nas relações interpessoais e a autocobrança, que muitas vezes é sua maior vilã, causando um impacto profundo na saúde mental e proporcionando e contribuindo para o desenvolvimento de vários transtornos como a ansiedade e a depressão. “Jovens irritados, agressivos, com oscilação de apetite, dificuldade de concentração, isolados, tristes e com comportamentos autolesivos revelam sinais que os próprios jovens e as famílias devem ficar atentos, pois isso configura um estágio inicial ou avançado do estresse, dado as características individuais”, explica. O PESO DAS TELAS Wagner Tedesco argumenta que, o aumento do estresse, ansiedade e depressão em jovens, além de predisposição genética, sofre influência direta do uso indevido das telas e das tecnologias. Não somente em função do tempo de exposição às telas, mas também da forma e consequências que isso resulta. Ele cita situações de comparações com postagens de amigos, que o fazem se sentir inferior, onde muitas vezes são publicações exageradas, descabidas e falsas, gerando sentimento de insegurança, inferioridade, menos valia, afetando sua autoestima e sua rotina de estudo e amizades. “Além disso, o acesso constante à internet e redes sociais causam uma dependência direta como um verdadeiro vicio, comparado ao vicio em drogas, onde a dopamina (conhecida como hormônio do prazer e da felicidade), surge em altas doses e quando há a falta desse hormônio no organismo, já acostumado com tais doses, inicia uma crise de abstinência gerando agressividade, problemas cardíacos e num segundo momento, questões emocionais profundas”, complementa o psicólogo. 'PROCESSADOR' DESGASTADO O psicólogo Wagner Tedesco gosta de fazer uma analogia, comparando o processamento de informações com uma tela do Windows, onde abrimos uma série de abas, muitas vezes não avançando nos assuntos, mantendo a superficialidade, mas gerando um volume absurdo de informações. “Na maioria das vezes, elas só ocupam espaço em nosso processamento mental, desgastando e estressando o indivíduo. Precisamos nos concentrar nas atividades, abrir abas necessárias e concluir processos, pois também traz sensação de prazer e dever cumprido”, ensina. Para ele, falar sobre saúde mental com os jovens é necessário e urgente, para que compreendam e gerenciem seu estresse, que pode ser revertido para um processamento mais sadio e positivo. “O estresse gera no organismo hormônios como o cortisol, adrenalina e noradrenalina, resultando em ação, atitude e energia, porém, se não bem direcionados ou expostos frequentemente a situações de conflito e tensão, se transformam em grandes vilões da saúde física e mental do indivíduo”, salienta. O psicólogo acrescenta que é importante realizar com frequência a prática de esportes, combinar encontros familiares e com amigos para um bom bate-papo, praticar meditação e atividades lúdicas das mais diversas. “Tudo isso, além da possibilidade de encontrar momentos de relaxamento e descanso, mas longe das telas”, finaliza.