O que para muitos pode parecer fruto de uma circunstância do mercado de trabalho, para eles se tornou modo de vida. (FreePik) Eles não estudam nem trabalham. O que para muitos pode parecer apenas fruto de uma circunstância do mercado de trabalho, a uma parcela dos jovens entre 15 e 29 anos se tornou um modo de vida. Embora o número esteja em queda, de acordo com dados do módulo anual de educação da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua) do IBGE, a situação ainda causa preocupação. De acordo com o levantamento do instituto, o índice dos chamados nem-nem era de 18,5% das pessoas entre 15 e 29 anos, o menor número desde 2019. Em 2023, o percentual era 19,8% e, em 2019, de 22,4%. Entre as mulheres, 24,7% não estavam ocupadas, nem estudando ou se qualificando e, entre os homens, o índice foi de 12,5%. “Esse modo nem-nem é como uma resposta para essa geração tecnológica, onde o excesso de uso de telas acaba interferindo também nas escolhas. Que não sabe lidar com a frustração, não sabe esperar e quer o retorno imediato. Vejo uma turma midiática, tiktoker, onde empreender é a única saída. Então, começam fazendo várias coisas com a ilusão de que não precisa ter estudo para ser blogueiro. Basta ter um celular e coragem de encarar a rede social”, afirma a psicóloga Fernanda Negreiros. Para ela, trata-se de uma geração que busca, cada vez mais, o prazer imediato. “O que acontece? Relações rasas, instáveis, que não são construídas nem restauradas. São jovens com enorme dificuldade de estabelecer uma base familiar sólida. Se eu, enquanto núcleo familiar, não construo isso com meu filho, como posso prepará-lo para o mundo? A resposta é: não preparo. Assim, cada vez mais cedo, vemos jovens iniciando no álcool, nas drogas, buscando prazer e alívio imediato. Para quê? Porque não sabem lidar com a culpa, com as frustrações, com os ‘nãos’ da vida”, afirma. Segundo ela, levando em conta que a maturidade neuronal vai até os 24 anos, é possível crer que houve uma “extensão” na adolescência, assim, entre aspas. “Há um lastro maior para que continuem nessa onda de que ‘não sei o que eu vou fazer’ e ‘não estou preparado’, mudando muito facilmente de profissão, de trabalho. A geração anterior tinha muito mais peso nas escolhas, visando um concurso público que te levava a trabalhar 30 anos, saturado, mas era preciso manter isso, porque era uma geração de construção e reparo. Essa geração de agora, em nível comportamental, é muito mais de troca do que de reparo”, pontua. PAIS Fernanda entende que, mesmo os pais desses jovens nem-nem têm algum peso na postura dos filhos. “A questão da era digital é muito presente nessa construção social e emocional. Também são pais das telas, do home office, onde a rede social implica muito num contexto de ganho de valores e de visibilidade. Então, não há muita cobrança. Pelo contrário. Nota-se uma distorção dos papéis de pais e filhos”. Isso pode ser observado no comportamento levado ao consultório para a especialista. “É terceirizar a responsabilização afetiva e educacional dos filhos para os profissionais. Chegam ao consultório de psicologia trazendo essa demanda: não consigo lidar com o meu filho. Então, se não sabem o que fazer, a tendência é cobrar cada vez menos”, finaliza.