Embora a saúde mental tenha ganhado espaço nas discussões corporativas, a maioria das empresas ainda não sabe como gerir o tema de forma estruturada. É o que aponta um levantamento da Plongê, que analisou a percepção de líderes sobre o assunto. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! De acordo com a pesquisa, 60% das empresas já avançaram em iniciativas relacionadas à saúde mental, seja por meio de ações culturais ou programas internos. No entanto, apenas 38% tratam o tema como uma agenda estratégica de governança, com políticas claras, indicadores e acompanhamento contínuo. Debate vai além da regra O estudo surge em meio às discussões sobre a atualização da NR-1, que inclui os riscos psicossociais no escopo de gestão das empresas. Para a sócia-fundadora da Plongê, Renata Fabrini, o foco não deve estar apenas na obrigatoriedade legal. “O debate está olhando para o lugar errado. A questão central é o nível de maturidade das empresas. A saúde mental entrou na agenda, mas ainda não virou governança”, afirma. Intenção não garante resultado Um dos pontos destacados pelo levantamento é o desalinhamento entre discurso e prática. Cerca de 18% das empresas adotam apenas ações pontuais, como campanhas e palestras, sem conexão com a cultura organizacional ou com a liderança. Segundo Fabrini, esse cenário pode gerar o chamado “health washing”, quando empresas promovem uma imagem de cuidado com a saúde mental, mas sem impactos reais no dia a dia dos colaboradores. Além disso, 14% das organizações ainda apresentam baixa maturidade ou sequer possuem iniciativas estruturadas, com relatos de casos de burnout mal conduzidos e falta de suporte adequado. Liderança é fator decisivo A pesquisa também aponta que o principal fator que influencia a saúde mental no ambiente de trabalho não são os benefícios oferecidos, mas o comportamento das lideranças. Empresas de grande porte costumam ter mais programas formais, mas enfrentam desafios na aplicação prática e na adesão dos gestores. Já nas menores, o ambiente depende diretamente do perfil do líder, podendo ser positivo ou altamente prejudicial. “Benefícios não compensam uma liderança tóxica. O que define se o ambiente protege ou adoece é a forma como o trabalho é conduzido no dia a dia”, destaca a especialista. Diferentes níveis de maturidade O levantamento ouviu 106 executivos de empresas nacionais e multinacionais, sendo mais da metade em cargos de alta liderança. As organizações foram classificadas em cinco níveis de maturidade: 38% possuem políticas e programas estruturados 22% focam em cultura organizacional e liderança 18% adotam ações pontuais 14% têm baixa ou nenhuma estrutura 8% atuam com foco em grupos específicos Caminho ainda em construção O estudo mostra que, apesar dos avanços, a gestão da saúde mental nas empresas ainda está em fase de evolução. Para especialistas, o desafio agora é transformar o tema em parte estratégica do negócio, com ações consistentes e alinhadas à realidade dos colaboradores e não apenas como uma pauta pontual ou de imagem.