Editar um livro pode ser tão difícil quanto escrevê-lo. Aliás, assim como escrever, editar é um ofício que também existe sobretudo por amor. Pequenas, individuais, independentes, artesanais: longe dos grandes mercados, há editoras cujo principal ‘ativo’ é trazer um livro à vida, seja como for. Na Baixada Santista, há algumas delas. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! É o caso, por exemplo, da Costelas Felinas, talvez uma das mais antigas em atividade ininterrupta. “Meu primeiro livro, feito por uma editora de São Paulo, não me agradou muito”, conta Claudia Brino. “Aprendi a fazer encadernação e lancei minha primeira obra, de forma artesanal, em 1998”. Os primeiros 10 anos concentraram edições pessoais e de amigos de Claudia. A partir de 2008, com a parceria do também escritor Vieira Vivo, a produção diversificou-se. Hoje, a Costelas Felinas tem no catálogo 903 títulos, de 426 autores. “Da década de 1980 para cá, depois da contracultura, dos poetas marginais, houve uma descentralização editorial. Para nós, é uma alegria continuar com esse trabalho, para que novos autores possam publicar suas obras”, explica Vieira. O trabalho editorial ocorre à margem da escala industrial. Ao receberem um original, fazem a diagramação no computador. A seguir, a impressão e, por fim, a encadernação. “A gente fura, costura, encaderna. Temos nossa prensa, com mais de 100 anos de vida, para compactar os livros”, detalha Claudia. O nome da editora é uma história à parte: nasceu do primeiro livro de Claudia, cujo personagem principal era um gato. Para a obra, escrita quando tinha uns 17 anos, fez uma encadernação em espiral, com a capa sendo uma imagem em raios X de suas costelas. Para mais informações, acessar o perfil no Instagram (@costelasfelinaseditora). Márcio Barreto inspirou-se nos cartoneros para iniciar a Edições Caiçaras; hoje, também tem a Imaginário Coletivo (Alexsander Ferraz/AT) Cartoneras Uma grave crise econômica na Argentina, no início dos anos 2000, foi o pontapé inicial para as chamadas editoras ‘cartoneras’ (de cartón, ou papelão, em espanhol). Na prática, é a produção artesanal de livros, sendo a capa feita de papelão, muitas vezes de caixas coletadas nas ruas. A ideia cruzou a fronteira, chegou ao Brasil e à Baixada Santista. “Isso me incentivou a pensar: ‘por que eu não posso ter uma editora artesanal?’”, recorda o escritor e músico Márcio Barreto. Assim nasceu a Edições Caiçaras, em 2010. Começou produzindo as próprias obras. Depois ampliou para outros escritores. A Edições Caiçaras desembocou em 2015 na Editora Imaginário Coletivo, uma editora independente, mas já dentro dos moldes usuais de produção. “O produto final, o livro, na Edições Caiçaras é único: cada capa é uma. Já na Imaginário, que se utiliza de gráficos, existe uma padronização, a partir de uma criação inicial”. A difusão das obras – um dos pontos nevrálgicos da cadeia editorial – ocorre em feiras e eventos de lançamento próprios. Também há livros que inspiram e são transformados em outras obras artísticas, como dança ou música. “A gente vai dialogando com essa circunstância da Literatura de hoje”. Para além do mercado, Márcio vê as editoras artesanais e independentes como pilares da documentação histórica, inclusive pessoal. “Do nosso fazer, do nosso saber acumulado. São possibilidades de documentar nossa própria história”. Para saber mais, no Instagram (@imaginariocoletivodearte). Ademir Demarchi considera a sua Sereia Ca(n)tadora uma performance artística, muito mais que uma editora (Sílvio Luiz/AT) Performance Uma Babel, que não é cidade nem torre, deu origem a uma sereia que não é do mar. As histórias da revista literária Babel e da editora Sereia Ca(n)tadora, ambas do escritor Ademir Demarchi, se entrelaçam. Aliás, a Sereia é o pioneira na vertente cartoneira na Baixada Santista. Entre 2000 e 2004, Ademir editou seis números da então revista Babel. Em 2009, estimulado por um edital do Ministério da Cultura, ressuscitou a revista, com o nome Babel Poética. “Ganhamos com a proposta de fazer um mapeamento da poesia nacional à época”. Seriam seis edições, 10 mil exemplares cada uma, no melhor papel, com a contratação dos profissionais que bem entendesse, tudo pago pelo edital – um patamar impensável para Ademir até então. “Essa suntuosidade, perto que estava acostumado, me incomodou. Então pensei: ‘como vou fazer a crítica desse projeto?”. Nascia a Sereia Ca(n)tadora. O nome é uma brincadeira com ‘catadora’. “Era o extremo oposto. Trabalhamos com papelão catado na rua, cheguei a comprar material das cooperativas”. A Sereia durou até 2018. Mesmo assim, chegou a produzir 30 obras, de escritores brasileiros e do restante da América Latina, organizar saraus para divulgá-las, participar de feiras e encontros. O fim chegou naturalmente, intrínseco à proposta do selo. “Nunca tive interesse em formalizar, em criar uma empresa”, recorda Ademir. “Era um olhar estético, não empresarial. Essas práticas culturais são como performances, elas têm uma duração. A Sereia eram os encontros”. Um livro, acima de tudo “Mais do que ter uma editora, a gente queria fazer um livro”, resume o jornalista e escritor Alessandro Atanes a origem da Cartonera del Laberinto. Esse livro é Voo de Identidade, poemas do peruano Oscar Limache, com tradução do próprio Atanes, primeiro lançado pela Sereia Ca(n)tadora, em 2010. “Quisemos fazer porque Voo de Identidade é belíssimo e não tem editora que publique. Fazer livro artesanal é uma consequência de não conseguir editar um livro nas maneiras convencionais”, explica. Em 2015, a partir de uma oficina do artista plástico Costa Villar, em São Vicente, houve dois nascimentos: nova edição de Voo de Identidade, já pela Cartonera del Laberinto. “As capas dos livros são únicas, são obras de arte por si só”. Hoje, Alessandro e a arte-educadora Jeanice Rodrigues Ferreira seguem editando. Além de Limache, lançaram também um livro de poesias inéditas do chileno Roberto Bolaño, grande nome da Literatura latinoamericana, também traduzidas por Alessandro. “A coisa legal da tradução é que você dedica seu talento à voz de outra pessoa. Nesse momento de tanto eu, tanta autoficção, trabalhar com tradução faz com que a gente abra um caminho pra sair de si e falar do mundo”. Agora, o plano é o de editar mais uma vez Voo de Identidade. “Como cada capa é única, tivemos agora a ideia de fazer essa edição a partir da oficina de gravura da Rachel Midori. Estou fazendo uns carimbos das linhas de Nazca para compor as capas”.<MC0> Fanzine Já Jeanice levou a confecção artesanal do livro a outro nível. Criadora do fanzine Adeline, inspirado na escritora britânica Virginia Woolf, que é integralmente feito à mão inclusive os textos. “Contêm todos o mesmo texto, as colagens, os desenhos, são diferentes. Cada um é uma matriz e um despojamento, porque às vezes eu faço e penso: ‘nossa, tá tão lindo!’ e dá pena de passar adiante”, sorri. Com o primeiro sendo publicado em 2020, Adeline não é publicado sob a chancela da Cartonera del Laberinto. “Acho que estava em busca de algo muito pessoal”, reflete. Alessandro também evita publicar suas obras pela editora. “Não acho que seja eu quem deve me publicar. O legal é publicar o outro”. Nego Panda, a identidade artística de Elton Alexandre Pereira dos Santos, deu o pontapé inicial na editora Periferia Tem Palavra pela demanda dos próprios livros (Sílvio Luiz/AT) Voz na periferia Nego Panda, a identidade artística de Elton Alexandre Pereira dos Santos, deu o pontapé inicial na editora Periferia Tem Palavra por uma demanda simples: “A necessidade de publicar os meus livros”. A partir daí, começou a organizar antologias e o bolo foi crescendo. “Alguns amigos viram e pediram para eu produzir o livro deles”. Assim, já foram publicados mais de 40 autores, fosse nas antologias (oito até aqui) ou em obras individuais. A maior parte dos autores é da Baixada Santista, mas há gente até de outros estados. “Dentro da cultura periférica, seja no hip hop, na literatura, (a editora) acaba se tornando essa referência para os artistas periféricos”. A produção é híbrida: artesanal e impresso em gráfico. “Já fiz livros com capa grampeada, costurada, artesanais em lombada quadrada, brochura, manualmente”. Para conhecer mais, acesse este link.