“Priorizar um sono de qualidade pode melhorar tanto a saúde mental quanto física", diz especialista (AdobeStock) A falta de sono pode aumentar a possibilidade de um indivíduo acreditar em teorias da conspiração, segundo uma pesquisa publicada no Journal of Health Psychology. “Priorizar um sono de qualidade pode melhorar tanto a saúde mental quanto física. Isso, por sua vez, pode fortalecer o pensamento crítico e a resistência contra a desinformação em um mundo cada vez mais complexo”, destaca Daniel Jolley, professor de Psicologia Social na Universidade de Nottingham e primeiro autor do estudo. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Presidente da Associação Brasileira de Medicina do Sono (ABMS), Almir Tavares corrobora a pesquisa. “A todo momento, somos bombardeados por pensamentos – alguns importantes, outros inúteis. Quando estamos bem e descansados, conseguimos distinguir melhor o que realmente importa e descartar os pensamentos inúteis, incluindo os depressivos e autodepreciativos”, explica. Como a pesquisa foi feita? Jolley conta que o projeto surgiu da falta de estudos sobre o tema. “Sabemos bastante sobre os vieses cognitivos, influências sociais e traços pessoais que explicam por que as pessoas acreditam em teorias da conspiração. No entanto, poucas pesquisas analisaram o papel do sono”, comenta, ressaltando que são necessários mais estudos para estabelecer uma relação de causa e efeito. Os cientistas buscaram então investigar como a má qualidade do sono poderia influenciar as crenças em tais ideias e os possíveis mecanismos por trás dessa conexão. Para isso, dividiram o estudo em duas etapas. “Na primeira, 540 participantes passaram por uma avaliação padrão da qualidade do sono antes de lerem sobre o incêndio na Catedral de Notre-Dame, em 2019. Metade deles viu uma versão conspiratória sugerindo um encobrimento do incêndio, enquanto a outra metade leu um relato factual atribuindo o episódio a um acidente”, detalha Jolley. Após a exposição às diferentes versões do incêndio, os voluntários responderam uma série de afirmações indicando o quanto concordavam com cada uma. As respostas foram combinadas para criar um índice de crença na teoria da conspiração específica sobre o incêndio da catedral francesa. “Os resultados mostraram que os participantes com pior qualidade de sono tinham significativamente mais chances de acreditar na versão conspiratória”. A segunda etapa contou com 575 participantes e explorou fatores psicológicos, como depressão, paranoia e raiva, para entender como esses fatores, potencializados por uma má qualidade de sono, relacionam-se com a crença em teorias conspiratórias. Depressão e conspiração Os pesquisadores observaram que a depressão serviu como um fator mediador consistente entre a má qualidade do sono e a crença em conspirações. “Esse estado emocional pode levar os indivíduos a buscar significado no ambiente ao seu redor. As teorias da conspiração frequentemente oferecem explicações simples e estruturadas para questões complexas, tornando-se atraentes nessas condições”, sugere Jolley. Outros fatores psicológicos, como paranoia e raiva, também apresentaram mediação, mas de forma menos consistente. Curiosamente, a ansiedade não teve um papel significativo na mediação entre sono ruim e crenças conspiratórias. Sono e cognição Segundo Paulo Afonso Mei, neurologista e coordenador do Departamento Científico de Medicina do Sono da Associação Brasileira de Neurologia (ABN), o sono auxilia a fixar memórias. Ele também ajuda a limpar o cérebro, mais especificamente o entorno dos neurônios, ao remover substâncias potencialmente prejudiciais por meio de um sistema chamado glinfático. “Portanto, dormir bem é garantir que estejamos com a capacidade de aprender, raciocinar, fazer associações cognitivas e fazer novas conexões – o que chamamos de neuroplasticidade – durante o dia”. Uma má qualidade do sono, conforme o neurologista, pode prejudicar o controle das emoções e piorar sintomas de depressão e ansiedade. “Um estudo associou a insônia com hiperfunção de regiões cerebrais como a amígdala e o córtex cingulado anterior, o que se traduz em maior chance de pensamentos negativos e depressão refratária, resistente a medicamentos”.