Desafio cotidiano de quem convive com vertigens e zumbido constantes (Divulgação / Freepik) Imagine ser tomado de surpresa por uma vertigem tão intensa que tudo gira, ou por um zumbido persistente que parece ocupar cada momento de silêncio. A doença de Ménière coloca pacientes nesse cenário, combinando distúrbios de equilíbrio e audição. Embora ainda sem cura, neurologistas, otorrinolaringologistas e especialistas apontam caminhos — diagnósticos mais precisos, terapias medicamentosas, intervenções cirúrgicas e mudanças no estilo de vida que ajudam a controlar os sintomas e minimizar os impactos físicos, emocionais e sociais. Esta reportagem explica o que se sabe até agora, como é o tratamento e como viver melhor com Ménière. O que é Ménière e por que afeta tanto o ouvido e o equilíbrio? A doença de Ménière é uma desordem do ouvido interno caracterizada por episódios recorrentes de vertigem intensa, perda auditiva flutuante, zumbido (tinnitus) e sensação de ouvido cheio ou pressão auricular. Clique aqui para seguir agora o novo canal de A Tribuna no WhatsApp! Um dos mecanismos envolvidos é o chamado hidropsia endolinfátic, acúmulo anômalo de líquido (endolinfa) dentro da parte membranosa do labirinto, que inclui estruturas responsáveis por equilíbrio e audição. A doença costuma manifestar-se entre os 40 e os 60 anos, mas pode ocorrer em outras idades. A frequência e gravidade das crises variam muito de pessoa para pessoa. Sintomas típicos e diagnóstico Vertigens: crises súbitas de sensação de rotação ou desequilíbrio, que podem durar de 20 minutos a várias horas. Muitas vezes vêm acompanhadas de náuseas ou vômitos. Perda auditiva: no início, pode ser flutuante (ouvido vai “e volta”) especialmente em frequências baixas; com o tempo, pode tornar-se permanente. Zumbido e sensação de pressão no ouvido acometido. Diagnóstico requer uma avaliação clínica cuidadosa pelo otorrino. Alguns critérios incluem: histórico de vertigem espontânea em dois ou mais episódios; perda auditiva documentada em audiometria; sintomas auditivos flutuantes (zumbido, sensação de pressão); exclusão de outras causas que provoquem sintomas similares (problemas neurológicos, enxaqueca vestibular etc.). Exames complementares podem incluir audiometria, provas vestibulares (testes de equilíbrio), ressonância magnética para descartar lesões cerebrais ou tumores, e em alguns casos análise laboratorial. Tratamentos disponíveis: do mais leve ao mais invasivo Embora não exista cura definitiva, há várias estratégias para controlar as crises e minimizar danos auditivos e de equilíbrio: Medicamentos e mudanças no estilo de vida Ingestão reduzida de sódio; evitar exageros de sal na dieta; controlar consumos de cafeína, álcool; manter hidratação adequada. Diuréticos para diminuir acúmulo de líquido no ouvido interno. Betahistina, bastante usada em muitos países, ajuda a melhorar a circulação dentro do ouvido interno e aliviar a vertigem. Corticosteroides, via oral ou injeção intratimpânica, em crises ou quando há suspeita de componente inflamatório. Terapias auxiliares e reabilitação vestibular Reabilitação vestibular (fisioterapia do equilíbrio): exercícios específicos ajudam o corpo a readaptar sinais de movimento entre o ouvido interno, visão e sistema nervoso. Aparelhos auditivos quando a perda auditiva é significativa; amplificar sons pode ajudar a compensar déficits. Procedimentos invasivos ou cirúrgicos Injeções de gentamicina intratimpânica (quase destrutiva para parte do ouvido interno responsável pelo equilíbrio) para controlar vertigens refratárias, embora com risco de piora auditiva. Cirurgias como a do sáculo endolinfático (endolymphatic sac decompression), corte do nervo vestibular, labirintectomia, em casos mais graves. Estas opções envolvem maior risco, inclusive de perda auditiva permanente, e costumam ser consideradas apenas quando outras terapias não tiveram sucesso. Impacto na qualidade de vida e desafios emocionais As crises imprevisíveis de vertigem, zumbido e perda auditiva afetam não apenas a mobilidade física, mas também a saúde mental. Ansiedade, medo de ataques, depressão e isolamento social são queixas comuns. O desequilíbrio traz risco de quedas, medo de sair sozinho, limitação de atividades diárias. A incerteza sobre quando a próxima crise virá gera grande estresse psicológico. Avanços recentes e pesquisas promissoras Artigos mais recentes destacam melhores técnicas de diagnóstico, uso de ressonância magnética de alta resolução para visualizar hidropsia endolinfática, o que pode permitir identificar subtipos da doença e personalizar terapias. Discussões sobre tratamentos com menos efeitos adversos, novos medicamentos para reduzir fluidos, e estratégias “combinadas” (medicamentos + terapias físicas) que podem oferecer melhor controle de sintomas.