Alimentos como frutas, verduras, legumes e cereais integrais ajudam a prevenir problemas intestinais (Reprodução/Pixabay) Um estudo publicado na revista Cell Host & Microbe por pesquisadores brasileiros e norte-americanos sugere que uma dieta rica em fibras solúveis pode proteger o intestino contra bactérias patogênicas. A conclusão se baseia em experimentos com camundongos expostos à Clostridioides difficile, que causa inflamação do cólon, diarreia e afeta cerca de 500 mil pessoas por ano nos EUA (no Brasil, os dados epidemiológicos são escassos). Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! “Conseguimos tratar os camundongos com uma dieta suplementada com fibra solúvel. Ela é digerida pela microbiota intestinal, que produz compostos como o acetato. Este inicia uma cascata de interações que leva a uma resposta imune adequada para lidar com a infecção”, explica José Fachi, primeiro autor do estudo, conduzido durante seu pós-doutorado na Escola de Medicina da Washington University, em Saint Louis. O trabalho foi uma colaboração entre a instituição e a Unicamp. Os autores observaram que os camundongos que consumiram dieta rica em fibras solúveis produziram mais acetato no intestino. Isso ajudou a regular a resposta imune na camada que recobre a parede interna do órgão, conhecida como epitélio, tornando-a eficaz no combate à bactéria C. difficile. O acetato é um ácido graxo gerado pela digestão de fibras solúveis, um processo realizado pelas bactérias que vivem no intestino. No estudo, os camundongos que receberam uma dieta pobre em fibras produziram pouco acetato. Como resultado, houve um aumento na expressão de componentes do complexo principal de histocompatibilidade de classe 2 (MHC-II) no epitélio intestinal. Embora o MHC-II seja uma molécula essencial contra infecções, sua produção em excesso pode causar uma inflamação exagerada, que piora o quadro dos pacientes. “É um efeito parecido com o que acontece na covid-19 grave, quando a própria resposta imune leva à destruição de tecidos e mesmo à morte. O consumo de fibras solúveis regulou a resposta”, diz Sarah de Oliveira, doutoranda no Instituto de Biologia da Unicamp e coautora do artigo. Resposta exacerbada Nos animais tratados no estudo com uma dieta pobre em fibras e, portanto, com pouca produção de acetato, a resposta imune foi exacerbada. As células epiteliais produziram em excesso a MHC-II, que tem a função de apresentar moléculas de patógenos (antígenos) para ativar os linfócitos T CD4+, responsáveis por combater infecções. O excesso dessas moléculas intensifica a inflamação, causando danos mais graves aos tecidos e piorando o quadro geral do hospedeiro, podendo levar à morte. Com os resultados dos testes com camundongos em mãos, os pesquisadores analisaram biópsias de pacientes que tiveram a infecção por C. difficile. Da mesma forma que nos animais, os casos mais graves tinham maior presença de MHC-II e de linfócitos T CD4+, quando comparado com os menos graves. Os autores reforçam a importância de uma dieta rica em fibras para a saúde do intestino. As fibras solúveis contidas em alimentos como frutas, verduras, legumes e cereais integrais ajudam a prevenir problemas intestinais e podem reduzir o risco de infecções graves, como a causada pela C. difficile. “Escolhas alimentares simples, como incluir mais fibras na dieta, podem fazer uma diferença significativa na proteção contra infecções intestinais”, encerra Fachi.