A alegria pelo nascimento de um filho às vezes é ofuscada por doenças psíquicas. É preciso atenção (AdobeStock) O nascimento de um filho é cercado de expectativas, celebrações e uma narrativa quase sempre luminosa. Mas por trás da maternidade romantizada, muitas mulheres enfrentam em silêncio um sofrimento que ultrapassa o cansaço comum: ansiedade, depressão pós-parto e burnout materno afetam milhões de mães pelo mundo e seguem subdiagnosticados. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! A psiquiatra Ana Caroline Viana, médica da família e comunidade, explica que nem todo esgotamento pós-parto é normal. “Alguns sinais indicam que a mulher pode estar diante de um sofrimento que exige avaliação profissional. Um deles é a dificuldade de vínculo com o bebê ou pensamentos de morte e autolesão”. A Organização Mundial da Saúde estima que cerca de 13% das mulheres no pós-parto desenvolvem algum transtorno mental, principalmente depressão, número que pode ser ainda maior em países em desenvolvimento. “A maternidade exige muito, mas ela não deve anular a mulher. Quando a mãe deixa de funcionar, sofre de forma persistente ou sente que perdeu o controle emocional, isso não é frescura nem fraqueza”, enfatiza Ana. Gratidão e felicidade A romantização da maternidade cria a ideia de que a mãe deve estar sempre grata, feliz, disponível e naturalmente realizada. “Esse imaginário faz com que muitas mulheres sintam vergonha de dizer que estão exaustas, que não estão bem ou que não conseguem sentir alegria”. O silêncio atrasa o diagnóstico e transforma o sofrimento em suposta ingratidão ou incapacidade materna. As diretrizes do American College of Obstetricians and Gynecologists (ACOG) reforçam que depressão, ansiedade, transtorno bipolar, risco suicida e psicose pós-parto devem ser rastreados de forma sistemática durante a gestação e no pós-parto, justamente porque muitos sintomas ficam invisíveis, quando a sociedade espera uma maternidade idealizada. “A maternidade é linda, mas também é ambivalente, cansativa e profundamente transformadora. Reconhecer essa complexidade não diminui o amor materno. Pelo contrário, permite que a mãe seja cuidada antes de adoecer gravemente”. O peso da ‘mãe perfeita’ Estudos sobre saúde mental perinatal mostram que depressão e ansiedade no ciclo gravídico-puerperal têm impacto não apenas na mãe, mas também na relação mãe-bebê, na amamentação, no sono, no vínculo e no desenvolvimento infantil. Cuidar da saúde mental materna, portanto, não é um luxo individual: é uma medida de saúde pública e de proteção familiar. “A família não deve esperar que o sofrimento intenso passe sozinho. O papel da rede de apoio é escutar sem julgamento, dividir tarefas de forma concreta e permitir que a mãe durma, coma, vá às consultas e receba cuidado. (...) Mãe também precisa ser cuidada. Uma mãe amparada tem mais condições de cuidar, amar e se reconstruir dentro da maternidade”, conclui Ana. Sinais de alerta Isolamento Choro frequente Irritabilidade fora do habitual Crises de ansiedade Medo excessivo de algo acontecer com o bebê Falas de culpa ou inutilidade Perda de interesse por atividades antes prazerosas Dificuldade de dormir Exaustão extrema Descuido consigo mesma Distanciamento do bebê Falas relacionadas a morte ou desaparecimento Tipos Baby Blue A tristeza puerperal surge nos primeiros dias após o parto com choro fácil, oscilação de humor, sensibilidade e ansiedade leve. Em geral, melhora espontaneamente em até duas semanas. Depressão pós-parto É mais persistente e intensa, comprometendo o funcionamento da mulher. Pode envolver desesperança, culpa, perda de prazer, alterações importantes de sono e apetite, dificuldade de vínculo com o bebê e pensamentos de morte. Sobrecarga mental crônica Não necessariamente começa no pós-parto. Ela se constrói ao longo do tempo, quando a mulher assume sozinha a gestão invisível da casa, dos filhos, da rotina escolar, da saúde da família, do trabalho e das cobranças sociais. Sem rede de apoio, descanso e divisão real de responsabilidades, esse quadro pode evoluir para ansiedade, depressão ou burnout materno.