(Divulgação) A exploração espacial e a colonização de outros planetas é algo que povoa o imaginário de todos. E mais do que isso: encontra eco nas pretensões dos países que dominam economicamente o mundo (Estados Unidos e China). A corrida das duas nações, porém, acaba sendo velada. Clique aqui para seguir o canal de A Tribuna no WhatsApp! “Em algumas entrevistas, a Nasa chegou a usar o termo corrida espacial, mas a China evita utilizar. É uma corrida que ainda não foi abertamente reconhecida pelos dois. Por tudo o que a gente vem acompanhando, aponta-se que, antes de se chegar em Marte, a humanidade tem que retornar para a Lua. É o objetivo de médio prazo atualmente: voos tripulados para a Lua. E as duas nações já anunciaram suas intenções a esse respeito. E, eventualmente, em uma visão de mais longo prazo, usar a Lua como um entreposto para uma missão tripulada para Marte”, afirma o diretor de gestão de portifólio da Agência Espacial Brasileira (AEB), Rodrigo Leonardi. Tecnologia para que seres humanos voltem e se estabeleçam na Lua existe. O que falta é motivação econômica para permanecer por lá, analisa o professor doutor Paulo Henrique Azevedo Sobreira, titular do Planetário da Universidade Federal de Goiás. No caso de Marte, ainda não há tecnologia para ir e voltar com segurança, mas para permanecer na superfície do Planeta Vermelho. “Dizem que até 2030 poderemos chegar em Marte e nos estabelecermos na Lua. A volta para Lua já tem data marcada. É uma expedição da Nasa que tem sofrido atrasos e dizem que vai chegar provavelmente em 2028. Mas as pessoas vão pousar, permanecer alguns dias e, depois, não se sabe quando vão voltar. Agora, no caso de Marte, muito se fala que até 2040, 2050 ou, talvez, até 2030, seres humanos podem ir à Marte”, calcula. Empresas privadas Embora as empresas sempre estivessem envolvidas de alguma forma na corrida espacial - a Nasa sempre fez os protótipos e terceirizava a fabricação dos equipamentos, por exemplo -, uma falha nas antigas legislações, estabelecidas no final dos anos 1960, não previa a participação delas. A preocupação era apenas com os países. Desta forma, empresas privadas surgem nos Estados Unidos - grandes ou associadas a outras - e mesmo em outros países em que os programas espaciais são totalmente estatais - China e Rússia - dentro da corrida espacial comercial. “As pessoas podem se apropriar de planetas e asteroides. É o que vemos acontecer com a Antártida. Também houve esse cuidado para que fosse um espaço apenas para pesquisas, mas houve brecha com relação à legislação e hoje é possível fazer turismo por empresa privada na Antártida. E isso tem danificado, em parte, o meio ambiente lá”, compara Sobreira. O professor acredita que a situação não tem volta porque essas empresas contratam pessoas aposentadas das agências espaciais ou muitos talentos desempregados. “No caso da China, elas estão crescendo, enquanto na Rússia ainda são pequenas, mas sempre o domínio muito forte foi dos Estados Unidos. E também existe no Brasil pelo menos uma empresa também na área espacial, o que mostra que o mundo todo está se mexendo para essa nova realidade”, afirma. Tecnologia A tecnologia ajudará na busca por vida em outros planetas desde que haja algum sensor que determine aquilo que é chamado de vida, observa o professor doutor Paulo Henrique Azevedo Sobreira, titular do Planetário da Universidade Federal de Goiás. “Buscamos sempre a vida conhecida no planeta Terra, que é muito limitada. Buscamos, portanto, seres que respiram algum tipo de gás, que excretam alguma coisa e que necessitam de água para que em seus organismos ocorram reações químicas. E também a vida baseada em moléculas que usam o átomo de carbono, que é um átomo que pode estruturar moléculas muito grandes, chamadas orgânicas e que são encontradas nos seres vivos. Se não for vida tal como existe na Terra, não vamos encontrar vida em lugar nenhum, como até agora não encontramos. Podem haver outros tipos de seres, mas não estamos preparados, tecnologicamente, para detectá-los”, explica. Apesar disso, segundo Sobreira, a chance é maior de encontrar as chamadas bioassinaturas na superfície de Marte, desde que sejam enviados robôs biológicos. “Os atuais robôs geológicos que estão lá não vão encontrar vida lá. A não ser que um ser vivo passe correndo na frente da câmera e seja detectado ou encontre lá algum tipo de vegetal que esteja crescendo em uma fonte de água. Aí as imagens poderão detectar. Mas os sensores que esses robôs levam jamais vão detectar seres vivos que não seja por meio das próprias imagens”, afirma. E o Brasil? Embora, no momento, não haja iniciativas de exploração espacial, a Agência Espacial Brasileira (AEB) espera, ainda nesta década, ter um foguete nacional, afirma o diretor de gestão de portifólio da AEB, Rodrigo Leonardi. “Temos um sonho antigo de ter acesso ao espaço com um veículo lançador próprio de satélites a partir do nosso território. Estamos desenvolvendo esses veículos tanto no Instituto de Aeronáutica e Espaço quanto na indústria nacional. Vamos ver se conseguimos ser bem-sucedidos nessa iniciativa. E ainda nessa década ter um foguete brasileiro”, projeta. Antes, outras diversas iniciativas envolvendo a observação da Terra, característica fundamental do Programa Espacial Brasileiro, são colocadas em prática há tempos, de acordo com Leonardi. “Nosso programa, com origem na década de 1960, é muito pragmático. Ele é focado em observação da Terra, em monitorar nosso próprio território. Temos um programa de mais de 30 anos de monitoramento da Amazônia. Nosso sistema é robusto. Temos alertas para que, por exemplo, o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais (Ibama) possa fiscalizar focos de incêndio e de desmatamento. Mas a minha percepção, não em nome da Agência, é que o nosso programa é ainda relativamente modesto para o tamanho do nosso País, da nossa economia e de nossa capacidade”, explica. Outros países Parcerias formam a chave do Programa Espacial Brasileiro, tanto com as universidades brasileiras, com diversas iniciativas de nanosatélites (pequenos satélites artificiais com massa menor que 10 quilos, muitas vezes não chegando a pesar 1 quilo), quanto de desenvolvimento de satélites com outros países. “Temos, junto com o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, mais três satélites , sendo um com a Argentina, para estudo de recursos hídricos e monitoramento de oceanos, que está sendo feito, e dois com a China, sendo um para monitoramento do nosso território, cujos estudos de engenharia estão bem desenvolvidos, e outro geoestacionário meteorológico (completa em órbita a rotação ao redor do planeta no tempo de 24 horas), que ainda é uma visão de futuro, pois vai precisar de um a dois anos de trabalho”, descreve o diretor. Satélites Para se ter uma ideia da importância dos satélites, os equipamentos já existentes no Brasil conseguiram monitorar e perceber rapidamente o tamanho da calamidade causada pela enchente que afetou o Rio Grande do Sul a partir do final de abril. A tragédia causou saídas forçadas da população de suas casas e mortes. mobilizando todo o País. O uso de tecnologia própria nesses casos é um componente importante de soberania nacional, segundo Rodrigo Leonardi. “Isso é dar uma informação de valor para a Defesa Civil e outras organizações porque a gente tem os nossos próprios sistemas espaciais e, com seus centros de controle, ter um conhecimento do que se passa no nosso território. "Eu, pessoalmente, não acho aceitável que em uma situação dessas, de calamidade pública, por exemplo, eu tivesse que ligar para os Estados Unidos ou para a Europa pedindo favor assim. Este é só um dos serviços que a gente presta e que pretendemos continuar prestando no âmbito do Programa Espacial Brasileiro”, afirma.