Cadelinha suri (à esquerda), do filme Ainda Estou Aqui, fez parte da pesquisa. Gatinha Carminha, do filme Agente Secreto, também integrou o estudo (Reprodução/Instagram) A futurista santista Mariana Nobre, que há cerca de 20 anos pesquisa tendências e antecipa possíveis transformações sociais, está na disputa por um painel no SXSW 2027, nos Estados Unidos. O estudo “Futuro Multiespécie”, coordenado por ela, foi pré-selecionado na categoria Tecnologia & IA e investiga como a relação entre humanos e animais pode mudar até 2036. O público pode votar no projeto até 23 de agosto, pela plataforma Panel Picker, e a participação popular representa 30% da nota final. Se aprovado, o painel será apresentado em março de 2027, no Texas. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Mariana é fundadora e diretora do Atelier do Futuro, bureau de pesquisa e inteligência estratégica, e atua na intersecção entre comportamento, cultura, inovação e foresight. Ao longo de sua trajetória, acompanhou mudanças que ajudam a identificar sinais de transformações antes que elas se tornem fenômenos de massa. No novo estudo, ela volta o olhar para a relação entre humanos e outras espécies e para a chamada virada biocêntrica, que propõe superar a ideia de que o ser humano deve ocupar o centro das decisões. O “Futuro Multiespécie” projeta mudanças que podem alcançar a legislação, a economia, a arquitetura, a saúde e os hábitos de consumo. Uma das hipóteses é que animais deixem de ser tratados apenas como propriedade e passem a ser reconhecidos como sujeitos de direitos. Isso poderia alterar, por exemplo, regras de guarda em separações, protocolos de resgate em desastres e normas para condomínios. O estudo também identifica a consolidação das famílias multiespécies, nas quais os animais são considerados integrantes da família. Até 2036, Mariana acredita que essa mudança de olhar poderá aparecer no cotidiano de diferentes formas: cidades com espaços públicos mais adequados aos animais, casas com materiais e ambientes pensados para diferentes espécies, novas regras para guarda e cuidados, maior oferta de serviços veterinários especializados e até licenças para acompanhar animais em situações de saúde. A inteligência artificial também pode ampliar a compreensão da comunicação animal, enquanto avanços em biotecnologia e alimentação podem reduzir a dependência de produtos de origem animal. Para ela, a próxima década deve ser marcada por uma relação mais consciente entre tecnologia, natureza e vida não humana. A pesquisa foi estruturada em três fases. A primeira é qualitativa e exploratória e ouviu tutores de cães, gatos, animais convencionais e espécies não convencionais. Também participaram donos de pet influencers, como Suri, cadelinha que atuou no filme “Ainda Estou Aqui” e na novela “Dona de Mim”, e Carminha, gatinha de “Agente Secreto”. O roteirista e diretor Diego Freitas, de “Caramelo”, também foi entrevistado. Ao todo, foram realizadas 60 entrevistas com especialistas do Brasil e do exterior, de áreas como arquitetura e design, semiótica, psicologia, psicanálise, biologia, bioética, antropologia, artes e filosofia. Entre eles está a fonoaudióloga norte-americana Christina Hunger, fundadora da campanha Talk Dog Movement e criadora de um teclado adaptado para facilitar a comunicação com cães. A equipe também fez Desk Research, reunindo e aprofundando dados, leis, pesquisas e referências de mercado relacionados ao tema. A etapa exploratória incluiu ainda atividades de campo. Em julho, durante o Fórum dos Direitos da Natureza, em Mariana (MG), ambientalistas, povos originários e gestores públicos participaram de uma oficina de design especulativo, metodologia usada para imaginar e discutir futuros possíveis. A segunda fase reúne duas pesquisas quantitativas: uma em parceria com a Mercy For Animals no Brasil e outra que compara os dados brasileiros com a pesquisa Global Dialogues, do Earth Species Project, startup californiana que pesquisa bioacústica e inteligência artificial para compreender a comunicação entre espécies. Futurista Mariana Nobre é fundadora e diretora do Atelier do Futuro, bureau de pesquisa e inteligência estratégica, e atua na intersecção entre comportamento, cultura, inovação e foresight (Eik Rossas/Divulgação) A terceira fase será dedicada à projeção de cenários. Workshops com metodologias de futurismo serão usados para construir possibilidades até 2036, a partir dos dados reunidos nas etapas anteriores. Entre os conceitos já identificados estão a arquitetura multiespécie, com casas e cidades pensadas também para os animais, e o avanço de tecnologias capazes de ampliar a compreensão da comunicação não humana. A previsão é que o resultado final seja apresentado até dezembro. Para Mariana, o futuro multiespécie não significa apenas uma mudança na forma de tratar os animais, mas uma transformação cultural, ética e econômica. A futurista acredita que a próxima década será marcada pela aproximação entre inteligência artificial, biotecnologia e ciências da vida, com a tecnologia cada vez mais voltada à regeneração e à convivência com os ecossistemas. O estudo já foi selecionado para o Brasil Futures Forum, em agosto, no Museu do Amanhã, e fará parte da programação da Matilha Cultural, em São Paulo, em outubro.