Proposta do cohousing, em imagem ilustrativa, é manter moradias privadas, mas com espaços coletivos e de convivência (Adobe Stock) Em um tempo em que vizinhos mal se conhecem e a solidão cresce nas grandes cidades, um modelo de moradia propõe justamente o oposto: compartilhar mais, isolar-se menos. Chamado de cohousing, o conceito, que mistura residências privadas com espaços coletivos e decisões em comunidade, começa a ganhar adeptos no Brasil ao propor não apenas um lugar para viver, mas uma nova forma de se relacionar. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! A proposta, que nasceu na Dinamarca na década de 1970, reúne pessoas dispostas a dividir responsabilidades, custos e experiências do dia a dia, sem abrir mão da privacidade. Na prática, os moradores mantêm suas residências individuais, mas compartilham ambientes como cozinhas, áreas de convivência, oficinas multiuso e jardins, além de decisões sobre a gestão do espaço, um modelo que ressignifica o conceito tradicional de condomínio e aposta na construção de vínculos em meio à rotina urbana. No Brasil, ainda não há um cohousing concluído e em funcionamento, mas diversas iniciativas vêm surgindo e agregando interessados, inclusive em Santos. Não ao isolamento social “A sociedade moderna perdeu um pouco a noção de comunidade, nós não temos mais vizinhança solidária, vivemos em condomínios com 20, 30, 70 apartamentos, mas você não conhece o vizinho, o vizinho não sabe se você está vivo ou não. A ideia do cohousing é exatamente o oposto: a noção de coletividade e de cuidado com o outro é o mais importante”, diz Denise Bertoli, membro da comissão do cohousing Vila ConViver, uma das iniciativas mais antigas no Brasil, em Campinas (SP). Ali, já há um projeto executivo, terreno de 22 mil m² perto do Bairro Barão Geraldo e alvará para funcionamento. Haverá refeitório coletivo, sala multiuso para oficinas e outras atividades, academia e sala de saúde. Falta o orçamento da construtora. Há vagas para interessados, diz Cláudia, mas a adesão passa, antes, por uma avaliação da comissão da Vila ConViver. “É preciso que ele tenha o perfil, que valorize a convivência. Não é comprar por comprar”, diz. Sem perder privacidade Outra iniciativa adiantada está em Franca (SP), onde o cohousing Santa Felicidade já tem área definida, de 38 mil m², onde se pretende erguer 120 moradias. A empresária Priscila Mello é a dona do terreno, uma chácara que herdou quando a mãe morreu. “Ela própria sonhava terminar a vida vivendo em um espaço assim”, lembra. Diferente de outros projetos de cohousing, onde se cria uma comissão de interessados que decidem coletivamente todos os detalhes do projeto, no Santa Felicidade a ideia já está formatada, aguardando aprovação da Prefeitura de Franca para, então, comercializar as cotas com os interessados. Priscila acredita que há uma demanda reprimida por esse tipo de conceito de morar, especialmente entre os mais velhos, que vivem sozinhos ou em casal, com autonomia e independência, mas isolados em edifícios sem convívio e socialização. “Ali, haverá uma rede de apoio, um compartilhamento do cotidiano sem que ele perca sua privacidade, sua própria moradia”. Comissão de futuros moradores da Vila ConViver em frente à placa (Divulgação) Em Santos Santos já tem o embrião de um cohousing se formando e é encabeçado pela arquiteta Cláudia Bertucci, que juntou dois sócios e criou o StudioBe Soluções em Cohousing. A ideia é que, uma vez montado o grupo de interessados, o projeto, os custos e decisões sejam tomados coletivamente, e a obra seja feita a preço de custo. “Santos é uma cidade com grande potencial para esse tipo de moradia. É uma cidade plana, com boa infraestrutura. E não precisa ser casas, pode ser verticalizado. Podemos fazer o retrofit em um prédio já existente e adaptá-lo para um cohousing. Muito mais importante do que o espaço, é esse sentimento de comunidade, esse pertencimento”. Em Itu (SP), onde mora, também há grupos se estruturando para iniciar projetos dessa natureza. Cláudia destaca que, embora o interesse maior possa ser de idosos que queiram ter suas moradias em comunidades coletivas, um cohousing também é destinado a qualquer idade. “A pessoa acha que precisa estar velha para ir para um cohousing mas, na verdade, quanto antes ela for e estiver adaptada e construir essa rede de apoio”. Adesão do público mais velho Para a jornalista e mentora de cursos de Desenvolvimento Social Vera Leon, falta um olhar humanizado e empático com o idoso, que muitas vezes tem condição de viver sozinho, mas a família opta por clínicas de repouso. “Estamos vivendo mais e bem. O olhar saudável de um indivíduo consciente não está mirando mais em patrimônio. Ele agora quer se reconciliar com sua própria história, fazer as pazes com sua origem, afinar-se com sua crença espiritual”. Oportunidades Mônika Gargantini, co-fundadora do site Divertidosos, concorda com Vera Leon: “A socialização é fundamental para os 50+, 60+. Tenho visto muita gente vivendo sozinhas em imóveis gigantes, que eram de toda a família, e agora são grandes e solitários demais”. Mônika, que é viúva e não tem filhos, pais ou irmãos, se diz candidata a viver em um cohousing, e trabalha para trazer a ideia para a Santos. “Entendo que no Centro há muitas áreas possíveis para um projeto assim. E poderia ter, também, espaço para cafés e restaurante, abertos ao público, e rendendo receita para as despesas do cohousing”. Solidão, mal silencioso Lucia Helena Cordeiro, consultora organizacional, também se preocupa com o futuro tanto dela como do marido, com quem é casada há 48 anos. Sem filhos, entendem que morar em um cohousing seria uma forma de manter a vida ativa e intelectual que têm, a privacidade, e poder se relacionar na comunidade com pessoas que compartilham das mesmas afinidades. “A solidão é um mal silencioso. O problema não é envelhecer, é envelhecer sozinho”.