A pesquisa conduzida pela FMUSP abre um novo panorama de esperança e ação no combate à demência na América Latina (Divulgação) Um estudo da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), publicado na revista The Lancet Global Health, revela que aproximadamente 54% dos casos de demência na América Latina poderiam ser evitados se 12 fatores de risco modificáveis fossem controlados. No Brasil, o percentual estimado é de cerca de 48,2%, segundo a pesquisa. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! A escala do problema A demência, um conjunto de síndromes que afetam a capacidade cognitiva e a independência funcional, já atinge cerca de 55 milhões de pessoas no mundo, segundo estimativas da Organização Mundial da Saúde (OMS). O envelhecimento populacional e a longevidade progressiva apontam para um aumento expressivo desse número nas próximas décadas. no estudo citado, a região da América Latina se destaca por ter uma proporção maior de casos atribuíveis a fatores evitáveis. Os 12 fatores de risco identificados A pesquisa analisou dados de 5.995 a 107.907 participantes entre 2015 e 2021, com idade mínima de 18 anos, em países da América Latina — entre eles Brasil, Argentina, Chile, México, Bolívia, Peru e Honduras. Foram identificados doze fatores de risco que podem ser modificados na vida da pessoa ou por políticas de saúde pública: Baixa escolaridade; Perda auditiva; Hipertensão; Obesidade; Tabagismo; Depressão; Isolamento social; Inatividade física; Diabetes; Consumo excessivo de álcool; Poluição do ar; Lesão cerebral traumática. Esses fatores, segundo os autores, estão ligados ao estilo de vida, condições sociais e ambientais — e por isso representam “alvos móveis” para prevenção da demência antes mesmo de seu aparecimento. O que mostra o Brasil No Brasil, de acordo com os dados, aproximadamente 48,2% dos casos poderiam ser evitados se esses fatores fossem controlados, abaixo da média regional, mas ainda expressivo em termos absolutos. Alguns destaques nacionais apontam que a hipertensão esteve presente em 46,4% dos casos brasileiros, enquanto o consumo excessivo de álcool era menor (4,3%). A taxa de baixa escolaridade foi de 46,7% dentre os participantes brasileiros. Por que esses fatores importam Os autores explicam que muitos dos fatores se relacionam com a saúde vascular, inflamação crônica no cérebro e acúmulo de lesões ao longo da vida. Por exemplo: A obesidade está associada à neuroinflamação, que pode acelerar lesões cerebrais. A inatividade física reduz a oxigenação e nutrição cerebral, comprometendo a função cognitiva. A depressão, o isolamento social e a perda auditiva contribuem para declínio da reserva cognitiva e ao aumento de risco de demência. O que isso significa para saúde pública Para os especialistas envolvidos, o estudo reforça a necessidade de intervenções precoces e políticas de saúde pública focadas não só na velhice, mas ao longo da vida. “Essa é a primeira vez que uma região inteira tem um estudo tão robusto. Não existe nada parecido na Europa nem na Ásia, no formato que foi realizado na América Latina”, afirmou a Dra. Claudia Kimie Suemoto, da FMUSP. Campanhas de prevenção, estímulo ao ensino (como redução da baixa escolaridade), promoção de atividade física, controle da hipertensão e da obesidade, bem como iniciativas de inclusão social, são citadas como chaves para reduzir a incidência da demência na região. O que cada pessoa pode fazer agora Embora algumas causas da demência sejam inevitáveis (como fatores genéticos ou idade avançada), o estudo aponta que muitas ações individuais podem ajudar: Manter prática regular de exercícios físicos; Controlar a pressão arterial e os níveis de glicose; Tratar a perda auditiva e manter estímulos cognitivos (como aprender, socializar, desafiar o cérebro); Evitar o isolamento social e a depressão; Evitar consumo excessivo de álcool e tabagismo; Cuidar da saúde desde cedo, não apenas na terceira idade.