De desabafos a relacionamentos, chatbots começam a ocupar espaço (AdobeStock e imagens de IA) Quem já assistiu a Bob Esponja provavelmente já se deparou com uma das relações mais inusitadas da Fenda do Biquíni: Plankton é casado com Karen, um computador que participa de seus planos, dá conselhos e até entra em discussões com o vilão. Contudo, o que tempos atrás parecia apenas uma brincadeira de desenho animado hoje levanta uma questão cada vez mais real: é possível criar uma relação emocional com uma inteligência artificial? Com a populariza-ção dos chatbots, conversar com uma máquina deixou de ser apenas uma forma de tirar dúvidas ou fazer tarefas. Para alguns jovens, a IA virou companhia. É com ela que desabafam, pedem conselhos, contam segredos e, em alguns casos, estabelecem relações que consideram afetivas ou até românticas. Uma pesquisa feita pela CNN Brasil em parceria com o Instituto Locomotiva, com mais de 2 mil entrevistados, mostra que 40% dos brasileiros entrevistados preferem conversar com uma inteligência artificial a uma pessoa. Além disso, 58% afirmam já ter se sentido mais compreendidos pela tecnologia do que por seres humanos. Entre jovens de 18 a 24 anos, 72% disseram já ter contado à IA algo que nunca haviam revelado a ninguém. O fenômeno também aparece em relações amorosas. Em 2025, uma japonesa realizou uma cerimônia simbólica de casamento com um personagem criado a partir do ChatGPT. O caso chamou atenção para uma nova possibilidade: quando a conversa deixa de ser apenas uma interação e passa a ocupar um espaço emocional. Sempre on-line Para a psicóloga Sheila Oliveira, a adolescência é marcada pela busca por aceitação e por alguém que escute. Nesse cenário, a IA pode se tornar atraente por oferecer respostas rápidas, atenção constante e a sensação de não haver julgamento. A especialista alerta, porém, que considerar a IA um amigo ou namorado não significa necessariamente que exista um problema. A preocupação surge quando esse vínculo começa a substituir as relações reais. Isolamento, perda de interesse por amigos e atividades presenciais, irritação ao ficar sem acesso à IA e preferência constante pela conversa virtual são alguns sinais que merecem atenção. Parece gente, mas não é A sensação de estar conversando com uma pessoa também não acontece por acaso. Segundo a especialista em IA e tecnologia Gabriela Morais, que também é colunista do Domingo+, de A Tribuna, os sistemas são desenvolvidos para conversar de maneira humanizada. “A forma de resposta, sempre acolhedora e proativa, faz com que esse vínculo se fortaleça a cada interação.” Para Gabriela, outro ponto importante é que a IA pode considerar informações presentes nas conversas e produzir respostas cada vez mais personalizadas. Assim, o usuário pode ter a impressão de estar diante de alguém que o conhece. O problema é que uma relação assim pode criar expectativas diferentes das encontradas nas amizades humanas. “Na internet, se alguém discorda, você bloqueia. Na vida real, não existe botão similar”, destaca a especialista.