Especialista explica como aplicativos coletam informações pessoais e aponta cuidados para a privacidade no celular (AdobeStock) A pesquisa Digital Consumer Trends Survey 2021, realizada pela consultoria Deloitte com mais de 33 mil pessoas em 20 países, traz uma conclusão preocupante: a consciência sobre os riscos não tem sido suficiente para reduzir o compartilhamento de dados pessoais. E um dos caminhos para esse “vazamento” é o aparelho celular. De acordo com o levantamento, mais de 90% dos usuários aceitam termos e condições sem leitura completa, num sinal em que a conveniência costuma prevalecer sobre as preocupações com privacidade. Além disso, existe o reconhecimento de voz e seu funcionamento contínuo de dispositivos, para identificar palavras de ativação. “Um dos maiores problemas relacionados à privacidade digital não é apenas a tecnologia em si, mas o comportamento dos usuários. A maioria das pessoas aceita termos de uso e solicitações de permissão sem analisar o conteúdo apresentado”, afirma o advogado e analista de segurança da informação, Matheus Gomes Martins Coelho. Para ele, existe uma crença de que celulares “escutam” conversas privadas de maneira contínua, porém, não existem evidências de que aparelhos e aplicativos realizem gravação contínua de áudio para coleta de dados. Uma operação dessa escala teria custos técnicos elevados e seria difícil de ocultar de pesquisadores de segurança digital. “A sensação de estar sendo ouvido geralmente pode ser explicada por outros mecanismos de coleta massiva de dados ou quando o próprio usuário compartilha seus dados pessoais como hábitos de navegação, consumo, e qualquer tipo de comportamento online. Os aplicativos e dispositivos monitoram pesquisas, histórico de navegação, localização, interações em redes sociais, contatos e padrões de comportamento”, explica. Com essas informações, é possível inferir interesses com grande precisão, e consegue-se, por exemplo, reproduzir anúncios que parecem coincidir com conversas recentes. Revisão constante O advogado entende que, do ponto de vista da privacidade, a principal recomendação é revisar regularmente as permissões concedidas aos aplicativos. Muitos usuários autorizam acesso ao microfone e à câmera sem avaliar se essas permissões são realmente necessárias para o funcionamento do serviço. “Os sistemas operacionais modernos oferecem controles cada vez mais transparentes, permitindo verificar quais aplicativos têm acesso ao microfone e à câmera, além de exibir indicadores visuais quando esses recursos estão em uso”, argumenta Coelho. Ele entende que, no cenário atual, a proteção da privacidade não depende apenas das empresas de tecnologia ou dos mecanismos de segurança dos dispositivos. Em 2010, a GameStation inseriu uma cláusula chamada “Immortal Soul Clause” em seus termos de uso, afirmando que os clientes concordavam em “ceder suas almas imortais à empresa”. A ação era uma brincadeira de 1º de abril para demonstrar quantas pessoas aceitam contratos sem lê-los. “A proteção da privacidade também passa pela conscientização dos usuários sobre o valor de seus dados e sobre o impacto que o compartilhamento dessas informações pode ter em seu cotidiano digital”, finaliza. ()