A popularização das chamadas canetas emagrecedoras trouxe também uma dúvida cada vez mais frequente aos consultórios e salões de beleza: o uso desses medicamentos pode provocar queda de cabelo? Especialistas explicam que a relação pode existir, mas nem sempre o remédio é o responsável direto pelo problema. Um estudo conduzido por pesquisadores da George Washington University, nos Estados Unidos, com quase 548 mil adultos, identificou uma associação entre o uso de medicamentos agonistas de GLP-1 e um risco maior de alguns tipos de queda capilar. A constatação, porém, não significa que essas medicações provoquem o problema de forma isolada. Isso porque o próprio emagrecimento acelerado pode afetar a saúde dos fios. Perder muito peso em pouco tempo, consumir menos calorias e proteínas ou desenvolver deficiências nutricionais são fatores capazes de alterar o ciclo do cabelo. Uma das consequências pode ser o chamado eflúvio telógeno, quadro caracterizado por uma queda difusa e mais intensa dos fios. Na maior parte dos casos, a condição é temporária. A médica Gabriela Jachuk, especialista em saúde capilar e tricologia, explica que a quantidade de cabelo perdida não deve ser o único fator observado. “Cabelo cair é normal. O problema é quando você percebe que está caindo mais do que o seu habitual. Se começa a aparecer muito cabelo no banho, na escova ou no travesseiro, ou você percebe o couro cabeludo mais aparente, isso merece investigação. Queda não é só quantidade: é também mudança de padrão e perda de densidade”, afirma. Nem sempre a culpa é do medicamento Antes de relacionar a queda diretamente às canetas emagrecedoras, é necessário investigar outros fatores que podem estar interferindo na saúde capilar. Alterações hormonais, estresse, poucas horas de sono, mudanças bruscas na alimentação e deficiências de nutrientes estão entre as possíveis causas. “O cabelo é muito sensível às alterações hormonais. Problemas da tireoide podem causar queda difusa, e a síndrome dos ovários policísticos (SOP) pode favorecer o afinamento dos fios em mulheres predispostas. Por isso, antes de culpar qualquer medicação, precisamos investigar o organismo como um todo”, explica Gabriela. Em pacientes que estão perdendo peso e percebem uma mudança significativa nos cabelos, a investigação pode incluir exames de ferro e ferritina, vitaminas B12 e D, zinco, proteínas e marcadores relacionados à tireoide, além de outros hormônios, conforme cada caso. Outro recurso utilizado é a tricoscopia, exame que permite analisar com mais detalhes o couro cabeludo e a estrutura dos fios. Emagrecimento pode revelar predisposição à calvície A perda rápida de peso também pode evidenciar uma predisposição à calvície que até então não era percebida. “Na maioria dos casos, quando está relacionada a uma perda de peso rápida, a queda é temporária. Mas ela pode revelar uma predisposição à calvície que estava silenciosa. Então, a queda pode passar, mas, se existe miniaturização dos fios, precisamos agir cedo”, afirma a médica da Clínica Gaspar Saúde Integrada. A diferença é importante porque, enquanto o eflúvio telógeno tende a melhorar com o tempo e com a correção dos fatores que o desencadearam, a redução progressiva da espessura dos fios pode estar relacionada à alopecia androgenética, condição que necessita de acompanhamento específico. Gabriela alerta ainda que o aparecimento da queda de cabelo não significa que o paciente deva interromper o tratamento para emagrecer. “Não necessariamente o paciente precisa suspender a medicação — e nunca deve fazer isso por conta própria. Primeiro, precisamos descobrir a causa. Muitas vezes conseguimos tratar a queda em paralelo, corrigir deficiências e ajustar a estratégia de emagrecimento. A decisão precisa ser individualizada”, ressalta. Sinais também podem ser percebidos no salão As alterações provocadas nos cabelos também têm chamado a atenção de profissionais que acompanham os fios de seus clientes com frequência. O cabeleireiro e especialista em terapias capilares naturais Fábio Benetti relata que tem recebido clientes preocupados com o aumento da queda durante processos de emagrecimento. “A queda de cabelo raramente tem uma única causa, e no dia a dia isso fica evidente. Percebemos uma relação muito grande com períodos de estresse, mudanças bruscas de alimentação, emagrecimento rápido, pós-operatórios, doenças ou infecções recentes e algumas deficiências nutricionais. Muitas vezes, esses fatores aparecem associados”, conta o profissional, que também é sócio do BIOMA Santos. Segundo Benetti, o cabeleireiro pode ajudar a identificar alterações no couro cabeludo, na densidade e na qualidade dos fios, mas o diagnóstico deve ser feito por profissionais de saúde. “Quando percebemos esse quadro, orientamos o cliente a conversar com o médico responsável pelo tratamento e, quando necessário, procurar um dermatologista. No salão, podemos acompanhar esses pacientes por meio de protocolos de cuidado capilar, observando a evolução do couro cabeludo e dos fios, evitando procedimentos que possam agravar a queda”, explica. O cuidado realizado no salão, portanto, funciona como complemento e não substitui a investigação das causas. “O melhor resultado acontece quando existe um cuidado integrado, que pode envolver médico, nutricionista, quando necessário, e profissional especializado em cabelos e couro cabeludo”, destaca. Para quem está emagrecendo, a recomendação é ficar atento principalmente a mudanças perceptíveis na densidade, no volume e no padrão dos cabelos. O aumento súbito da queda pode ser um sinal de que o organismo está reagindo às transformações provocadas pela perda de peso e merece avaliação.