(Reprodução/Alesp) O Instituto Butantan vai desenvolver e testar um medicamento com base em anticorpos monoclonais contra o vírus zika. O objetivo é usar uma linhagem celular para produzir anticorpos que serão usados para prevenir a infecção em grávidas, e que também podem ser utilizados por qualquer pessoa sob risco de contrair a doença. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! O anticorpo monoclonal (mAb) foi licenciado para o Instituto pela Universidade Rockefeller, dos Estados Unidos, onde pesquisadores liderados pelo médico imunologista Michel Nussenzweig descobriram o anticorpo humano capaz de neutralizar o vírus. Os resultados promissores com estes anticorpos nos Estados Unidos, e a testagem dos anticorpos produzidos a partir de uma linhagem celular experimental na fábrica própria do Butantan, abriram o caminho para o licenciamento do mAb para a organização brasileira. Nascido no Brasil, Michel Nussenzweig, que é professor da cátedra Zanvil A. Cohn e Ralph M. Steinman na Universidade Rockfeller e investigador do Howard Hughes Medical Institute, isolou vários anticorpos contra o zika e selecionou dois que mostraram boa atividade neutralizante contra o vírus. A partir disso, os desenvolveu em escala para estudos laboratoriais e experimentos em modelos animais, demonstrando que eles tinham uma capacidade de neutralização considerável, inclusive nos testes in vivo. Surto Para o Butantan, produzir e desenvolver o medicamento é uma forma de se preparar caso haja um novo surto de zika no Brasil. Em 2015, o País declarou estado de Emergência em Saúde Pública de Importância Nacional devido ao aumento no número de casos da doença e de nascimentos de crianças com microcefalia – a grande preocupação quando a enfermidade afeta mulheres grávidas. “Sabemos que um dia podemos ter que enfrentar este tipo de desafio de novo. A função de um instituto como o Butantan não é só resolver os problemas atuais, mas criar elementos para se preparar para problemas que eventualmente possam surgir no futuro”, afirma Esper Kallás, diretor do Butantan. A recente epidemia de dengue, que extrapolou as fronteiras da América Latina, com mais de 6,5 milhões de casos prováveis e 6.297 óbitos em 2024, vem impulsionando as ações preventivas do Instituto contra doenças transmitidas por arbovírus – classificação que inclui também zika e chikungunya. “Em 2024, vimos uma enorme epidemia de dengue que foi até o Chile e Argentina, já que as condições climáticas mudaram. Como temos uma vasta população que não contraiu zika e não é imune ao vírus, podemos viver uma outra grande epidemia”, ressalta o diretor do Butantan. Prevenção Se os estudos clínicos a serem feitos pelo Butantan demonstrarem uma boa eficácia do anticorpo monoclonal na neutralização do vírus zika em humanos, o foco futuro será testá-lo e oferecê-lo às gestantes que residem em áreas de surtos ou de epidemia para evitar que adoeçam e repassem o vírus ao bebê. “O anticorpo monoclonal antizika seria um medicamento preventivo, uma imunoterapia passiva onde a mulher receberia um anticorpo pronto. Seria uma das formas de proteger mulheres em idade reprodutiva, e principalmente as grávidas, de se infectarem pelo vírus durante a gestação”, afirma Kallás. O que são Os anticorpos monoclonais (mAbs) são uma classe de medicamentos feitos a partir de diferentes tecnologias que identificam a sequência genética e tratam doenças infecciosas e autoimunes como artrite reumatoide, esclerose múltipla, doença de Crohn e psoríase, além de câncer, com efeitos colaterais mínimos ou nulos Injetados na corrente sanguínea, esses tratamentos são predominantemente ambulatoriais, embora aplicações domiciliares em forma de caneta também ocorram “Um anticorpo monoclonal existe quando a gente consegue em laboratório, por alguns métodos, cultivar uma célula produtora de um único anticorpo e reproduzi-lo em quantidades ilimitadas”, esclarece Ana Maria Moro, diretora do Centro de Pesquisa e Desenvolvimento em Imunobiológicos (CeRDI) e do Laboratório de Biofármacos do Instituto Butantan Como é feito Um anticorpo monoclonal provém de um único clone de linfócito B, que é a célula do sangue que produz os nossos anticorpos. Há diferentes linfócitos B circulando no sangue, responsáveis por produzir anticorpos capazes de respostas imunes contra vírus, bactérias e toxinas Estes anticorpos monoclonais são desenvolvidos por meio de duas tecnologias, uma delas chamada hibridomas, que são células de replicação contínua feitas a partir da fusão de outras duas células. A outra forma é chamada phage display, técnica que permite selecionar e isolar moléculas únicas por meio da criação de uma biblioteca de genes