O afastamento de Carlinhos dos palcos gerou ampla repercussão nas redes e na imprensa (Reprodução / Redes Sociais) Carlinhos de Jesus, referência histórica da dança brasileira, revelou que teve a mobilidade comprometida após diagnóstico de bursite trocantérica bilateral associada a tendinite nos glúteos. O quadro tem exigido tratamento multidisciplinar como fisioterapia, acupuntura e fortalecimento e levou o artista a usar cadeira de rodas temporariamente enquanto busca recuperação. O caso reacende o debate sobre o diagnóstico diferencial entre bursite e tendinopatia glútea e sobre a reabilitação de profissionais que dependem do movimento para viver. Clique aqui para seguir agora o novo canal de A Tribuna no WhatsApp! O que são bursite no quadril e tendinite nos glúteos? A bursite trocantérica (frequentemente chamada de trochanteric bursitis ou Síndrome da dor trocantérica maior) é a inflamação da bursa — uma pequena bolsa de líquido que reduz atrito entre tendões e osso — localizada sobre o grande trocânter do fêmur, na lateral do quadril. Já a tendinite (ou tendinopatia) glútea refere-se a lesões e inflamação dos tendões dos músculos glúteos (principalmente médio e mínimo glúteos), estruturas fundamentais para a estabilidade e a abdução do quadril. Hoje muitos especialistas agrupam esses quadros sob o guarda-chuva da greater trochanteric pain syndrome (GTPS), porque a dor lateral do quadril pode ter origem na bursa, nos tendões ou em ambos. Sintomas, causas e fatores de risco: Sintomas mais comuns Dor localizada na lateral do quadril, que pode irradiar pela coxa; costuma piorar ao subir escadas, deitar sobre o lado afetado ou após caminhada prolongada. Sensibilidade ao toque do ponto mais alto do trocânter e limitação funcional (dificuldade para se equilibrar, subir degraus, vestir calças). Causas e gatilhos Movimentos repetitivos e sobrecarga (corrida, dança, atividades que exigem abdução/rotação do quadril). Trauma direto (queda) ou pressão prolongada sobre o quadril. Alterações posturais, diferenças no comprimento das pernas, alterações na coluna lombar e envelhecimento, que tornam os tendões mais vulneráveis. Quem tem mais risco? Pessoas na meia-idade e idosos; mulheres apresentam maior prevalência em alguns estudos. Também são fatores de risco obesidade, atletas com sobrecarga e quem sofreu cirurgias ou lesões no quadril. Como a bursite e a tendinite afetam a mobilidade e a qualidade de vida A dor lateral intensa e a fraqueza dos músculos glúteos reduzem a capacidade de sustentação e propulsão do membro inferior, deixando tarefas simples — caminhar, subir escadas, ficar em pé por períodos — mais difíceis. Em casos graves ou com dor crônica, a pessoa pode passar a depender de auxílio (bengala, cadeira de rodas) para manter segurança e reduzir sofrimento, como relatado por Carlinhos durante seu tratamento. Para profissionais da dança, a perda da estabilidade e da amplitude de movimento pode implicar interrupção de apresentações, adaptação de rotina e necessidade de reabilitação prolongada. Diagnóstico: como o médico diferencia bursite de tendinopatia O diagnóstico parte de história clínica e exame físico, com testes de dor localizada e de força dos abdutores do quadril. A ultrassonografia é útil para visualizar inflamação da bursa e alterações tendíneas; a ressonância magnética ajuda quando há dúvida diagnóstica ou para avaliar rupturas tendíneas. É importante excluir outras causas de dor no quadril (artrose, hérnia lombar, lesões intra-articulares). Tratamento: do repouso à cirurgia — o que as evidências dizem Abordagem inicial (conservadora) Repouso relativo e modificação de atividades para reduzir a sobrecarga. Medicamentos anti-inflamatórios e analgésicos por curto período, quando indicados. Fisioterapia com foco em analgesia, ganho de amplitude e fortalecimento dos músculos glúteos e do core. Técnicas complementares como acupuntura e recondicionamento físico costumam fazer parte do plano multidisciplinar. Carlinhos relatou precisamente esse conjunto de intervenções em sua rotina de recuperação. Procedimentos Infiltrações com corticosteroide podem aliviar a dor local e acelerar a reabilitação em muitos casos. Terapias como onda de choque (shockwave) e plasma rico em plaquetas (PRP) são usadas em tendinopatias crônicas com resultados variados; a decisão depende do caso e da disponibilidade. Quando a cirurgia é considerada? Em poucos casos refratários (dor persistente apesar de tratamento conservador bem conduzido), procedimentos como descompressão da bursa ou reparo de rupturas tendíneas podem ser indicados. A maioria dos pacientes responde bem às medidas não cirúrgicas. Prognóstico e tempo de recuperação Embora a maior parte dos quadros melhore com tratamento conservador, a recuperação pode ser lenta, semanas a meses, especialmente quando há tendinopatia crônica. O retorno seguro à dança ou esportes exige reabilitação que priorize força, controle neuromuscular e progressão gradual de carga. Em artistas experientes como Carlinhos, a readequação e o cuidado multidisciplinar permitem manter vínculo com a dança (ele tem feito adaptações, inclusive aulas ou performances em cadeira de rodas), mas a retomada plena depende da resposta ao tratamento individual. Repercussão do caso de Carlinhos de Jesus: saúde, envelhecimento e cultura O afastamento de Carlinhos dos palcos gerou ampla repercussão nas redes e na imprensa — parte pela visibilidade do artista e parte pela identificação do público com o envelhecimento saudável de profissionais da dança. Em entrevistas e postagens, o coreógrafo descreve dor intensa e limitações que o levaram a buscar tratamentos e a adaptar sua rotina, mostrando também uma postura de resiliência: “a cadeira de rodas e a muleta estão aqui para me poupar, não para me parar”, disse ele ao relatar a terapia intensiva que tem feito. O episódio tem servido para chamar atenção à prevenção, ao papel da fisioterapia e à necessidade de diagnósticos precisos entre bursite e tendinopatia. O que fazer se você sente dor no quadril semelhante? Procure avaliação médica — dor lateral persistente merece exame clínico e, se necessário, imagem. Evite automedicação prolongada; analgésicos temporários podem ajudar, mas não substituem reabilitação. Inicie fisioterapia orientada e exercícios de reequilíbrio muscular sob supervisão profissional. Se for atleta ou profissional da dança, trabalhe com preparador físico e fisioterapeuta para progressão segura do retorno.