Laura afirma que brechós quebram o ciclo de consumo e furam as regras convencionais (Alexsander Ferraz/AT) Looks autênticos, peças únicas, preços acessíveis — e, acima de tudo, liberdade para expressar a própria identidade. Em meio às tendências que viralizam nas redes sociais, um movimento tem ganhado cada vez mais força entre a geração Z: os brechós. Mais do que um espaço de garimpo, os jovens se tornaram protagonistas do consumo consciente, da moda circular e de um estilo com personalidade. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! A moda sustentável ganhou espaço entre quem prefere reaproveitar, customizar e dar novos significados às peças, transformando o guarda-roupa em extensão de valores como reduzir, reutilizar e reciclar. Nos brechós e bazares, a escolha vai além da economia, trata-se de sustentabilidade e, muitas vezes, da chance de encontrar um verdadeiro tesouro escondido. A moda não para A moda não para — e, como o próprio nome sugere, é circular. A estudante de Moda Laura de Souza Cruz, de 22 anos, define dessa forma o movimento que fortalece os brechós. Por lá, é possível encontrar peças vintage, roupas de qualidade, com boa costura e longa durabilidade. Como ela destaca, “é como achar ouro”. Além disso, ajuda a fazer o próprio armário ganhar novos significados. “O brechó quebra esse ciclo e fala que não existe esse negócio de moda. Então ela é como você se sente melhor, e ele dá essa possibilidade de você se sentir mais livre para escolher o seu estilo. O meu, de brechó, não dita regras, ele busca quebrar regras”. Muito além do consumo, o brechó também se tornou porta de entrada para jovens que querem empreender e criar marcas com estilo próprio. Como a Laura, que é proprietária do Reuse, ao lado da mãe. Mais do que vender peças garimpadas, ela também aposta na criação de roupas autorais. “A minha marca pega calça jeans, casaco e transforma em outras peças. E isso se chama upcycling (reciclagem). Então isso é muito bom para o meio ambiente, e tem gente que acaba conhecendo esse processo sustentável através do brechó”. Redes sociais Nas redes sociais, os brechós também ganharam protagonismo. A influenciadora digital Milena Teixeira Dias Fracasso, de 27 anos, fala com frequência sobre o tema em suas plataformas — inclusive, seu vestido de noiva (no valor de apenas R\$ 100) foi garimpado em um deles. Milena explica que muitos jovens se cansaram do conceito de fast fashion e buscam personalidade para o que vestem (Divulgação) Segundo ela, a geração Z consome intensamente conteúdos em redes como o TikTok e, a partir dessas referências, passa a buscar alternativas principalmente por meio da forma de se vestir. Cansados da repetição do fast fashion, das réplicas e da baixa qualidade, muitos jovens agora procuram se diferenciar e destacar o próprio estilo. “O brechó, o bazar, o segunda mão, o vintage, ou como você queira falar, cai como uma luva. É 100% da sua identidade, que você precisou se esforçar para conseguir, e aí encontra algo que fique tão bem, tão legal”. Liberdade e personalidade A paixão por consumir em brechós começou por necessidade. Aos 11 anos, filha de comerciantes, ela viveu períodos em que as vendas da família não iam tão bem. Como toda adolescente, sempre surgia uma festa ou evento e a vontade de ter uma “roupinha nova”. Foi então que a mãe apresentou a ela um brechó, com a ideia de vender algumas peças que já tinha e juntar dinheiro para comprar outras. “Mas o que aconteceu foi que eu gostei das roupas que haviam no brechó. E comecei a comprar. Então, foi assim que começou a minha paixão. E eu já compro de moda sustentável, circular, faz 16 anos”. Consumo da moda Comprar em brechó deixou de ser apenas tendência e passou a representar uma mudança real na forma como uma geração consome moda. Mais do que garimpar boas peças, essa escolha reflete personalidade, valores e uma maneira mais consciente de se expressar por meio do vestir. Para convencer outros jovens a começarem a frequentar brechós e bazares, Milena é direta: “O meu principal argumento é identidade. Eu acredito que seja uma forma de você cravar o seu DNA na moda”. “Você precisa encontrar a sua personalidade e a sua identidade para conseguir fazer bons garimpos. Então, ver valor em algumas peças e entender como aquilo pode ser utilizado no seu guarda-roupa, como você pode aplicar aquilo ao seu estilo. Isso faz toda a diferença. Às vezes, peças que as pessoas olham e me dizem que jamais teriam garimpado, que nem parecem tão bonitas assim. E aí, quando eu uso e monto o look final com elas, as pessoas enxergam o verdadeiro valor por trás daquela peça”, complementa. Você sabia? Apesar de muita gente ainda confundir, brechó e bazar não são a mesma coisa. A influenciadora esclarece que o bazar geralmente tem caráter beneficente: as peças são doadas e o valor arrecadado é revertido para instituições ou causas sociais. Já o brechó funciona como loja, com proposta comercial e intenção de lucro.