O Brasil recicla menos de 3% do lixo eletrônico gerado anualmente e tenta ampliar esse índice (Adobe Stock) Os celulares fazem parte do nosso cotidiano. No entanto, chega um momento em que eles precisam ser substituídos por um aparelho mais moderno, por exemplo. Só que a destinação dos aparelhos “retirados de circulação” gera preocupação. Segundo dados da gestora de logística reversa Green Eletron de 2021, 72% dos brasileiros diziam ter celulares e smartphones guardados em casa. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Outro dado que chama a atenção, de um relatório da ONU, indica que o Brasil gera cerca de 2,4 milhões de toneladas de lixo eletrônico por ano. Desse total, menos de 3% é oficialmente reciclado, com recuperação integral dos materiais. De acordo com o gerente Executivo da Green Eletron, Ademir Brescansin, o Brasil está em um estágio positivo quando comparado a outros países, mas é preciso avançar. “Praticamente todos os materiais dos equipamentos eletroeletrônicos podem ser reciclados aqui e transformados em matéria-prima para novos produtos. A única exceção está em alguns metais presentes nas placas eletrônicas. Ainda não temos tecnologia para recuperar esses materiais no Brasil. Por isso, precisam ser exportadas para países especializados”. Segundo ele, o temor antigo de materiais tóxicos, como chumbo e mercúrio, potenciais fontes de problemas no descarte, já não se justifica mais, pois eles deixaram de fazer parte da fabricação dos aparelhos celulares. “Existem diversas legislações no mundo que proíbem o uso dessas substâncias em equipamentos eletrônicos”, explica. Porém, quando são feitas campanhas de coleta, não raro surgem aparelhos mais antigos, ainda dotados de substâncias tóxicas. Por isso, o cuidado é redobrado. “Sempre adotamos uma postura mais conservadora e orientamos as pessoas a não descartarem eletroeletrônicos no lixo comum, pois poderão acabar em um aterro sanitário. Normalmente, eles são preparados para receber diversos tipos de resíduos, inclusive eletroeletrônicos. Porém, a realidade brasileira ainda inclui uma grande quantidade de lixões a céu aberto. Nesses locais, podem causar contaminação ambiental”, alerta Brescansin. Em linhas gerais, os aparelhos celulares são compostos por plástico, vidro, aço, cobre e alumínio, além da placa eletrônica. Ressignificação O gestor ressalta que o plástico presente no celular pode ser reciclado e transformado novamente em matéria-prima. Depois disso, volta a ser um celular, um copo plástico ou a carcaça de uma televisão. “O mais importante é não perder esse material e garantir que ele seja reciclado e reaproveitado. Cada componente reciclado volta a ser matéria-prima para a fabricação de novos produtos. Com isso, evitamos o impacto ambiental da extração de matéria-prima virgem”. Bateria No caso das baterias de celular, feitas de lítio, elas podem ser recicladas integralmente no Brasil. Hoje, ao menos uma empresa localizada em São João da Boa Vista, no Interior de São Paulo, realiza a recuperação dos materiais presentes nas baterias. “Isso representa um avanço importante para o setor, mas ainda permanecem como desafio”, aponta o especialista. Eventuais estufamentos de baterias, diz ele, ocorrem principalmente em produtos falsificados ou piratas. "É raro encontrar esse tipo de ocorrência em equipamentos originais fabricados por empresas legalmente estabelecidas". Ele ressalta que os principais fabricantes de celular são associados à Green Eletron. Já as empresas de telefonia não têm responsabilidade pela destinação final correta dos aparelhos - elas participam do sistema ajudando na coleta e no recebimento dos produtos, mas quem financia todo o processo de coleta e reciclagem são os fabricantes. “Não apenas os celulares, mas qualquer produto eletroeletrônico, depois de coletado, é enviado para empresas homologadas pela Green Eletron. Essas empresas são chamadas de operadores de manufatura reversa, os ‘desmontadores’. O produto chega inteiro e eles separam os materiais por tipo, e essa separação pode ser feita manualmente, no processo tradicional, ou por máquinas que trituram os equipamentos e separam automaticamente os materiais”, acrescenta. Ele reforça que o processo de logística reversa só é possível quando o consumidor entrega o produto para essa destinação. “Sem pontos de coleta e sem a participação da população, o processo não começa. Por isso, é fundamental conscientizar as pessoas a não descartarem eletroeletrônicos no lixo comum. O correto é levar os produtos aos pontos de coleta para que possamos coletar, desmontar, reciclar e transformar esses materiais em novos recursos”.