Especialistas explicam os mecanismos e alertam para os perigos de beber refrigerante todo dia (Divulgação / Freepik) Tomar um refrigerante diário pode parecer um hábito inofensivo ou até “zero risco” quando se escolhe versões diet ou zero açúcar. No entanto, um novo estudo apresentado no congresso da United European Gastroenterology aponta exatamente o contrário: mesmo refrigerantes adoçados artificialmente elevam o risco de desenvolver esteatose hepática — também conhecida como “fígado gorduroso”. De acordo com os pesquisadores, quem consome mais de 250 ml por dia tem até 60% mais chances de apresentar acúmulo de gordura no fígado. O dado acende um alerta potente para a saúde pública e para quem busca hábitos alimentares mais saudáveis. Clique aqui para seguir agora o novo canal de A Tribuna no WhatsApp! O estudo e seus achados principais População, método e resultados A pesquisa acompanhou 123.788 pessoas sem doença hepática prévia durante cerca de 10 anos, usando dados do UK Biobank. Os participantes reportaram seus padrões de consumo de bebidas adoçadas: com açúcar (refrigerantes tradicionais, sucos industrializados) e versões com adoçantes artificiais (zero diet). O consumo superior a 250 ml por dia foi associado a um aumento de: • 60% no risco de esteatose hepática para quem bebe refrigerantes adoçados artificialmente • 50% no risco para versões adoçadas com açúcar Durante o estudo, 1.178 pessoas desenvolveram o problema hepático e 108 morreram por causas ligadas ao fígado Os autores observaram que substituir refrigerantes por água trouxe benefícios: a troca das versões tradicionais reduziu o risco em 12,8%; nos refrigerantes adoçados artificialmente, a redução foi de 15,2%. Surpreendentemente, substituir o refrigerante tradicional por uma versão zero não reduziu significativamente o risco, o que sugere que os adoçantes também têm papel nocivo. Que tipo de doença foi investigada A condição em questão é a esteatose hepática metabólica (também chamada de MASLD — doença hepática gordurosa associada ao metabolismo), caracterizada pelo acúmulo de gordura nas células do fígado (hepatócitos) sem envolvimento direto do álcool. Essa condição pode progredir para inflamação crônica, fibrose, cirrose e até falência hepática se não controlada. Por que refrigerantes (e até os “zero”) afetam tanto o fígado Açúcar, insulina e gordura Bebidas adoçadas com açúcar provocam picos de glicose e de insulina no sangue. Isso estimula o fígado a converter parte desse excesso em triglicérides — gordura que costuma se acumular nas células hepáticas. Esse mecanismo favorece o desequilíbrio metabólico. Adoçantes artificiais e microbioma intestinal No caso dos refrigerantes “zero/diet”, os pesquisadores sugerem que os adoçantes podem alterar a microbiota intestinal — ou seja, a composição das bactérias no intestino — gerando efeitos desfavoráveis ao metabolismo e estimulando o apetite. Isso, por sua vez, pode aumentar o risco de acúmulo gorduroso no fígado. Efeito acumulativo e sensibilidade hepática Mesmo quantidades aparentemente pequenas, como uma lata por dia, podem ter impacto significativo ao longo do tempo. O estudo observou que o risco se manifesta em níveis modestos de consumo. Contexto epidemiológico: por que isso importa A esteatose hepática não alcoólica é hoje considerada uma das doenças crônicas mais comuns do fígado, afetando até 30% da população mundial. Muitos casos são silenciosos: nos estágios iniciais, os sintomas são leves ou inexistentes (fadiga, dor abdominal leve). Quando os fatores de risco (obesidade, resistência insulínica, sedentarismo, dieta rica em açúcares) se somam ao consumo regular de bebidas adoçadas, o cenário se agravado torna-se mais provável. O que especialistas recomendam 1. Reduzir (idealmente eliminar) refrigerantes Limitar ou eliminar o consumo diário de bebidas adoçadas, seja com açúcar ou adoçantes artificiais. Água pura, água com gás, chás sem açúcar e sucos naturais são escolhas mais seguras. 2. Substituir por água faz diferença Como mostrou o estudo: substituir refrigerantes por água reduziu o risco de gordura no fígado em cerca de 12,8% (versões tradicionais) e 15,2% (versões com adoçantes). 3. Focar alimentação equilibrada Reduzir alimentos processados, açúcares simples e carboidratos refinados auxilia no controle metabólico e na função hepática. 4. Atividade física regular Exercícios ajudam a melhorar a sensibilidade à insulina, a queimar gordura corporal e a reduzir o estresse metabólico ao fígado. 5. Vigilância médica Quem tem fatores de risco — obesidade, diabetes, triglicerídeos altos — deve fazer acompanhamento médico e exames de imagem (ultrassom abdominal, por exemplo) para monitorar o fígado. Possíveis críticas e limitações O estudo é observacional, o que significa que não prova relação de causa e efeito definitiva, embora apresente associação robusta. A autodeclaração de consumo de bebidas pode gerar viés ou imprecisão nos dados. A influência de fatores externos (dieta completa, genética, estilo de vida) precisa de investigação adicional para definir mecanismos exatos.