Faltam mais esclarecimentos sobre essa condição que, de acordo com o Censo 2022 do IBGE, tem 2,4 milhões de pessoas com diagnóstico (Reprodução/Pixabay) A decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) pela ampliação do direito à isenção de impostos na compra de automóveis zero quilômetro para pessoas com Transtorno do Espectro Autista (TEA) lançou luz sobre a necessidade de maior conhecimento sobre o autismo, uma vez que o texto original excluía do benefício pessoas com deficiência leve ou com autismo nível 1 de suporte. Mas, de acordo com a psicóloga e neurocientista Mayra Gaiato, faltam mais esclarecimentos sobre essa condição que, de acordo com o Censo 2022 do IBGE, tem 2,4 milhões de pessoas com diagnóstico. Confira a entrevista: Mayra Gaiato é psicóloga e neurocientista (Divulgação) Por que o autismo é visto de formas diferente em cada pessoa? Porque depende do nível cognitivo, ou seja, dos recursos do cérebro que cada um tem, o quanto essa pessoa tem de inteligência, e depende dos estímulos ambientais que essa pessoa também recebe, principalmente na primeira infância. Então, o autismo é uma condição a mais que qualquer pessoa tem. Por exemplo: tem pessoas que são mais inteligentes, tem pessoas que são menos inteligentes. O autismo vem para essas pessoas que têm essas variações de inteligência e de oportunidades como outras todas - só que têm a mais os sintomas do espectro autista. Sobre a questão dos níveis 1, 2 e 3, de suporte: o que cada nível representa e se pode haver mudanças ao longo da vida de um nível para o outro? A grande diferença entre os níveis é o quanto essa pessoa precisa de apoio, de suporte, de adaptações para poder realizar as atividades da vida esperadas para aquela idade. Por exemplo: o nível 1 de suporte requer apoio leve. Então, é uma pessoa, uma criança verbal, que não tem deficiência intelectual, ou atraso no desenvolvimento da inteligência. Consegue aprender, mas tem algumas peculiaridades: não tem atraso na fala e não tem atraso na aprendizagem da escola, mas ele tem dificuldades de relacionamentos sociais. Se tem atrasos, que é a grande maioria, já parte de nível 2, um nível moderado. Se tem atraso da fala. O nível moderado significa que esta criança ou esta pessoa consegue desempenhar. E o nível 3 de suporte normalmente tem deficiência intelectual associada. Antigamente, só se conhecia esse tipo de autista. Com a divulgação de informações, agora, as pessoas entendem que tem outros níveis de suporte. Existe mobilidade entre um nível e outro de suporte? Existe, porque dá para a gente mudar o cérebro. As terapias não servem só para conformismo. Com uma terapia para mudar este cérebro, conseguimos transformar as deficiências, esses atrasos, e recuperar através de um mecanismo que chama neuroplasticidade. O cérebro adquire novas sinapses, novas transmissões de redes de transmissão de informações entre os neurônios. e consegue colocar dentro dele habilidades que não existiam quando nasceu. Uma criança nível 2 que vai ganhando linguagem, conseguindo aprender, vira um nível 1 de suporte. Uma criança nível 3, que a gente vai estimulando, criando autonomia e independência e fala, pode ser nível 2 ou chegar a nível 1 de suporte. Então, isso é perfeitamente possível. É o que a gente chama de migrar pelo espectro. Dá para ir adquirindo habilidades e ir ficando com mais autonomia, com mais independência, precisando menos de terapia, tendo altas das terapias e chegar ao nível 1. Assim como também acontece de regredir. Uma criança que era nível 1 pode regredir para nível 2. Quais os sinais mais comuns que chamam a atenção dos pais? A maioria ainda vem buscar ajuda e tratamento por causa de atrasos. Só que, quando tem atrasos é porque as coisas já estão pelo menos no nível 2, indo para nível 3 de suporte. Então, as pessoas esperam para ter certeza se não é só uma questão de birra, de capricho, e ficam esperando, esperando, esperando. Isso faz com que a gente perca a oportunidade de estimular precocemente. Mas os sinais que a gente tem que ficar atento são: rigidez - crianças muito rígidas, que tem que ser tudo do jeito que eles planejam. Se tem muita dificuldade de interagir, de entender a brincadeira dos outros, se quer só brincar da sua forma, do seu jeito, se tem hiperfocos e acabam não entendendo o brincar junto, a troca comunicativa. Esses são sinais importantes da gente atentar. E a questão dos diagnósticos tardios? Há quem diga, de forma jocosa, que “virou moda” ser autista. O que acontece é que houve uma ampliação das características. Antes, precisava ter características muito severas, com muitos prejuízos, para ser dentro do espectro autista. Hoje em dia, o espectro se ampliou. Então, tem mais sintomas, mais características que estão incluídas no espectro autista e as pessoas que nunca tiveram diagnóstico estão tendo acesso às informações. Estão vendo, ‘opa, peraí, isso aí eu tenho também’. Uma para cada 32 pessoas é autista. Então, quando os adultos conseguem, que não tiveram oportunidade de ir lá atrás, serem identificados e ajudados, quando eles conseguem acessar essas informações é uma libertação. Então não é uma moda, é real. O autismo existe e ele é muito comum, muito frequente agora que a gente está tendo oportunidade de acessar essas informações. Para os pais que receberam o diagnóstico: o que devem fazer? Quais são as primeiras atitudes a fazer diante desse diagnóstico? A primeira coisa a fazer é correr para uma equipe especializada. Não é qualquer psicólogo, não é qualquer médico. São especialistas nessas questões de desenvolvimento especificamente. Então, como tem muitos profissionais, tem muita coisa na internet, a minha sugestão é sempre escolher um de confiança e seguir (com ele), acompanhar e fazer a trajetória que essa pessoa que você confia está indicando. Fazer os cursos, atendimentos com a equipe dessa pessoa, todo o programa de ponta a ponta. Porque senão os pais ficam muito angustiados, perdidos, e vão fazendo um monte de coisas. Aí fica tudo raso, superficial e sem uma continuidade lógica, sem um projeto contínuo, um acompanhamento que de fato vai aprofundar, fazer diferença na vida da pessoa. Qual é o papel da escola nesse processo de inclusão de estudantes com TEA? Vem desenvolvendo isso a contento ou tem coisas que precisa aprimorar? Precisa mudar tudo. O sistema de ensino já é muito ultrapassado para qualquer criança. A gente sabe que hoje a escola não acompanhou as evoluções dos interesses das crianças e precisa de uma reforma geral. Agora, para crianças neurodivergentes que aprendem de uma outra maneira, isso é ainda mais difícil, porque precisaria de, no mínimo, um plano de ensino individualizado, ver as forças dessa criança, os talentos que ela tem, os interesses, para poder, a partir disso, desenvolver habilidades que sejam funcionais e úteis para a vida dela, específicas para ela. Mas não, essa criança é cobrada num monte de coisas que não vão ser úteis nesse momento e acaba sendo exigida em coisas que muitas vezes ela não acompanha, não faz sentido. Também não tem adaptações básicas das questões sensoriais e as chances de fracasso escolar são bem grandes. É o que mais acontece hoje em dia. De uma forma geral, a sociedade está pronta para lidar com o autista? O que ela tem que fazer para trabalhar melhor essa questão? O primeiro passo é esse que a gente está fazendo aqui, que é divulgar conhecimento, expandir, trazer autistas, amigos, coleguinhas para dentro de casa. Hoje muitos pais falam, ‘ai que bom não tenho um filho autista’. Mas se você não tem na sua família, você ainda vai ter um filho, um sobrinho, um neto ou alguém muito próximo, porque o espectro está se ampliando tanto e o número está aumentando tanto que todo mundo vai ter.