Estima-se que entre 33% e 50% dos sobreviventes de ataque cardíaco apresentem algum tipo de sofrimento psicológico (AdobeStock) A imagem de um coração coberto com um curativo, embora figurada, faz muito sentido. Uma declaração científica da AHA (American Heart Association, ou Associação Americana do Coração, em tradução livre) indica que o chamado sofrimento psicológico, comum após ataques cardíacos, pode provocar um novo evento danoso ao “motor” do nosso corpo. É a prova de uma ligação forte entre o coração e o cérebro. Estima-se que entre 33% e 50% dos sobreviventes de ataque cardíaco apresentem algum tipo de sofrimento psicológico, como depressão, ansiedade, estresse psicossocial ou transtorno de estresse pós-traumático (TEPT) —, o que pode afetar a recuperação física e a saúde a longo prazo. Caso o quadro de sofrimento persista por até um ano após o infarto, existe quase 1,5 vez mais probabilidade de se sofrer um novo evento cardíaco. “A forma como você encara a patologia, como digere, aceita e decide enfrentar, tem repercussão no tratamento. Claro que vai envolver a espiritualidade, as crenças de cada um. Pode ser que só isso não resolva, se for um tumor grave. Mas muitas vezes isso pode contribuir com o tratamento, pelo menos com a qualidade de vida do paciente no momento mais grave”, afirma o médico cardiologista Alvaro Frederico Neto. Ele lembra um conceito cada vez mais presente na medicina: a de que é mais importante saber que tipo de paciente tem uma doença do que doença tem o tipo de paciente. E o acompanhamento deve ser multidisciplinar. “É preciso acompanhamento psicológico, social, de fisioterapia, para tirar esse paciente do leito. Não ficar centralizado só na figura do médico. Essas equipes, junto com a medicina, trabalham muito em conjunto”, preconiza. Ainda de acordo com o estudo, ansiedade e estresse podem afetar até 50% dos pacientes durante a hospitalização, e seguem em 20% a 30% dos casos por meses após a alta. Além disso, estão mais suscetíveis ao sofrimento psicológico as pessoas que vivem sozinhas, mulheres solteiras, desempregados, imigrantes sem rede de apoio ou com histórico de doenças mentais ou crônicas. O dano ao músculo cardíaco pode provocar inflamação e alterações hormonais e químicas no cérebro, favorecendo sintomas de depressão e ansiedade. O estresse agudo também pode causar contração das artérias coronárias, redução do fluxo sanguíneo e arritmias, mesmo em pessoas sem histórico cardíaco. “O estresse pós-traumático pode ser gatilho para desenvolver algumas doenças”, reforça o cardiologista. CORAÇÃO PARTIDO O estudo da AHA lista efeitos oriundos de um infarto real. Mas há um diálogo com os mesmos mecanismos emocionais e fisiológicos que caracterizam a chamada síndrome do coração partido (chamada clinicamente de síndrome de Takotsubo), uma condição geralmente desencadeada por estresse emocional intenso. Ela imita um ataque cardíaco, com dor no peito e falta de ar, mas sem obstrução das artérias. “Após uma notícia, ou atividade física muito intensa, ou após um estresse, uma tristeza, tem uma substância no nosso corpo que chama catecolamina. Ela faz parte da cascata de inflamação. Quando a gente passa por um estresse ou uma tristeza muito grande, pode ter um diagnóstico diferencial que simula o infarto”, explica Alvaro Neto. Na prática, a síndrome do coração partido é uma manifestação extrema da ligação entre mente e coração. O estudo da AHA reforça essa mesma conexão. Ambos os casos apontam para a necessidade de integrar saúde mental e cardiologia no tratamento de pacientes cardíacos. PSICOLOGIA Para a psicóloga Beatriz Guedes de Castro, a saúde mental caminha com a do corpo, numa união de ações para manter a pessoa sã, mesmo diante de situações traumáticas. “A gente luta para ter uma qualidade de vida, sabe que a atividade física e as questões de relaxamento são favoráveis, porque precisamos desacelerar. Somos corpo, mente, espírito. Não somos fragmentos, é um todo”, frisa. Ela cita a importância da psicoterapia para um momento de reorganização interna e externa. “Sempre buscando a qualidade de vida, diante do mundo em que estamos vivendo”, emenda.