Quem tem problemas de visão ou histórico de quedas devem evitar andar de costas sem acompanhamento (Divulgação / Freepik) Caminhar de costas pode parecer uma brincadeira ou algo feito por distração, mas essa prática tem conquistado espaço em academias, parques e clínicas de reabilitação. O movimento, que exige mais concentração e coordenação do que o simples ato de andar para frente, traz benefícios surpreendentes para o corpo e para a mente. Especialistas afirmam que caminhar para trás ajuda a melhorar o equilíbrio, fortalecer músculos e até estimular o cérebro de maneiras únicas. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! A origem de uma tendência antiga Apesar de soar como novidade nas redes sociais, onde vídeos de pessoas andando de costas viralizaram nos últimos meses, o hábito é antigo e conhecido como "retro walking" termo usado por fisioterapeutas e preparadores físicos. A técnica começou a ser estudada nos anos 1980 no Japão, como forma de reabilitar atletas e melhorar o condicionamento de pacientes com dores nos joelhos e desequilíbrio postural. Segundo o fisiologista do exercício Rafael Pinto, a caminhada para trás “ativa músculos diferentes e aumenta o gasto energético, além de exigir mais atenção do cérebro”. Ele explica que, por ser um movimento menos automático, o corpo precisa reorganizar o padrão de equilíbrio e controle motor. “É como ensinar o cérebro a reaprender um movimento. Isso melhora reflexos, postura e estabilidade e ainda protege as articulações, porque o impacto é menor do que ao caminhar normalmente”. Benefícios comprovados Estudos internacionais mostram que o retro walking pode ajudar tanto na reabilitação quanto na prevenção de lesões. Um levantamento publicado no Journal of Physical Therapy Science revelou que caminhar para trás aumenta a força dos músculos das pernas e da lombar, além de melhorar a flexibilidade e a coordenação. Entre os principais benefícios, especialistas destacam: Melhora do equilíbrio e da postura, reduzindo o risco de quedas, especialmente em idosos; Fortalecimento dos músculos posteriores da perna e glúteos, pouco trabalhados nas caminhadas comuns; Aumento do gasto calórico, já que o corpo faz mais esforço para se equilibrar; Melhora da concentração e do foco mental, por exigir maior atenção ao movimento; Redução da dor nos joelhos, pois o movimento diminui a pressão sobre a articulação da patela. “É uma prática segura e muito eficiente se feita em locais apropriados, como esteiras ou espaços livres, sem obstáculos. O ideal é começar com poucos minutos e aumentar gradualmente o tempo de treino”, orienta a fisioterapeuta Carla Menezes, especialista em reabilitação motora. Como começar Para quem quer experimentar, o segredo é começar devagar. Ande de costas em um corredor livre ou em uma pista plana e sem fluxo de pessoas. Nas academias, é possível usar a esteira elétrica, ajustando a velocidade entre 1,5 e 2,5 km/h. “Muita gente sente o corpo trabalhar de uma forma diferente já nos primeiros minutos. A panturrilha e as coxas são mais exigidas, e o equilíbrio melhora visivelmente após algumas semanas”, diz Carla. Em clínicas de fisioterapia, a técnica é usada também para pacientes com lesões no joelho, tornozelo e quadril, pois reduz o impacto durante o movimento. Além disso, o retro walking ajuda a estimular a propriocepção — a capacidade do corpo de reconhecer a posição de cada parte no espaço. Corpo e mente em movimento Outro benefício curioso é o impacto positivo no humor e na cognição. Por ser um movimento desafiador e não habitual, ele estimula áreas do cérebro associadas à coordenação e à memória motora. Uma pesquisa publicada na revista Cognitive Research mostrou que caminhar de costas pode até melhorar o desempenho em testes de memória de curto prazo. “Quando você sai da rotina e faz o cérebro pensar diferente, há uma melhora na atividade neural. É uma espécie de exercício mental também”, explica o neurocientista Daniel Prado, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Cuidados e contraindicações Apesar dos benefícios, os especialistas alertam para alguns cuidados. Pessoas com tontura, labirintite, problemas de visão ou histórico de quedas devem evitar andar de costas sem acompanhamento. O ideal é realizar o exercício em locais planos e seguros. Além disso, o retro walking não substitui a caminhada tradicional, mas pode ser um ótimo complemento de treino — de duas a três vezes por semana.